Escrito por Miriam Herscovici Martines
Ao ouvir falar da segunda adolescência pensamos que é uma fase na qual “os jovens que deveriam crescer não amadurecem e continuam vivendo na casa dos pais”. A segunda adolescência foi descrita de forma brilhante por Suzanne Braun Levine em seu livro “Invente o resto de sua vida”, onde revela de uma maneira surpreendente o que é essa fase da vida para nós mulheres.
Atualmente as pessoas com 50 anos ou mais tem uma melhoria na qualidade de vida com a possibilidade de viverem até quase os 100 anos. Para esses possíveis 50 anos de vida futura surgem algumas perguntas essenciais: o que importa agora? O que funciona ainda? E o que vem depois? Uma das respostas para esse período de mudanças é: “Invente o resto de sua vida”!
As gerações dos anos 50 e 60 participaram da “invenção do nosso passado recente”, com o surgimento da pílula anticoncepcional e a liberação do aborto. Esses fatos desencadearam uma revolução sexual, com a conquista do controle sobre nosso corpo, sobre a gravidez, e sobre o prazer de uma forma que nossas mães e avós jamais sonharam.
O planejamento familiar proporcionou condições às mulheres de estudar, trabalhar e de se casar com mais idade. Dessa forma, começamos a ter filhos, mais velhas e a ver nossos filhos se tornarem adolescentes quando nós iniciamos a fase da menopausa. Poderíamos chamar esse período de “dupla adolescência”.
A adolescência é caracterizada por mudanças hormonais e de comportamento nos jovens. O início da menopausa também o é, apresentando nas mulheres variações hormonais e de humor. No período pós-menopausa o estrogênio diminui, mas o nível de testosterona mantém-se estável. Isso causa o surgimento de comportamentos tidos como “masculinos” como o aumento da agressividade, maior impulsividade e menos paciência com pequenos problemas.
Essa mudança de foco faz com que tenhamos maior preocupação com nossas próprias necessidades do que com as dos outros. Ao mesmo tempo, surgem maiores solicitações dos maridos que se aposentam, filhos que entram na adolescência e/ou retornam ao lar, e pais enfermos que exigem maiores cuidados, gerando um conflito de interesses e a ansiedade na busca de novos papéis.
Ficamos preocupadas com o envelhecimento e com a perspectiva de não conseguir atender a todas essas solicitações. A boa notícia é que pesquisas recentes demonstram que após os 50 anos ocorre um novo período de crescimento cerebral. O crescimento do lobo temporal mediano e o aumento da quantidade de mielina, faz com que as sinapses, que fazem a conexão entre os neurônios, fiquem mais lubrificadas.
Nessa fase ocorre uma nova curva de aprendizado: a aprendizagem emocional. Com a idade aperfeiçoamos nossas habilidades de julgar com maior ponderação, discernimento e sabedoria. Nossas avós usavam essa capacidade para transmitir os valores importantes para os netos, mas e quanto a nós?
Somos uma geração de mulheres de meia-idade talentosas que estamos no auge e/ou reformulação de nossas carreiras profissionais e que buscamos algo mais do que sermos apenas avós. (o que também é maravilhoso!)
Surge então a pergunta: O que vou fazer com o resto da minha vida?
A isso chamamos de Vácuo Fértil: um período de dúvidas sobre o futuro, a realidade do envelhecimento e ao mesmo tempo um entusiasmo com a novidade de termos mais liberdade pessoal, maior energia física (testosterona) e positividade emocional (aumento da mielina).
A resposta vem em tentarmos aceitar as circunstâncias da mudança de idade e alterar a maneira de ver as coisas. Precisamos ficar em silêncio e sozinhas, para conseguir ouvir a nossa voz interior.
A resposta está em viver no “aqui e agora” e encontrar um significado positivo para nossa vida. Precisamos, tal qual nossos filhos adolescentes, repensar as prioridades de nossa vida dando maior ênfase à auto-expressão.
Estamos em busca da ambição ou de autossatisfação? Queremos conquistar reconhecimento ou autoconfiança? Damos maior importância ao sucesso ou à realização? Ficaremos satisfeitas com a experiência passada ou iremos em busca da novidade? A novidade tem o frescor da juventude e após os 50 anos vem com o perfume da sabedoria.
Psicóloga