Escrito por Miriam Herscovici Martines
Muitas vezes as coisas em nossas vidas estão aparentemente bem e politicamente corretas, mas sentimos falta de algo. Família, amigos, trabalho, lazer, preenchem o nosso tempo, mas não preenchem um vazio interior.
Esse vazio vem da busca por uma realização pessoal na sua Totalidade, da busca pela beleza, pela justiça e pela verdade que sabemos que existem de alguma forma e em algum lugar. Uma busca pelo amor, pelo respeito, pela completude.
No meu trabalho como psicóloga sempre intuí essa falta de algo... Daquilo que completa o quebra-cabeça da busca pelo sentido, que vislumbramos ao reconhecer esse mesmo vazio no outro e perceber que ele também tem essa necessidade da Totalidade. Os sinais no meu dia-a-dia apontavam um caminho. O caminho para a minha busca original por um bem maior a ser compartilhado com o outro. O caminho que se mostrava como uma espiral para o alto: a psicologia, a crença no ser humano, e acima: D’us.
De que forma podemos percorrer esse caminho que nos leva ao encontro da Totalidade? Quais são os motivos que nos fazem agir de determinada forma em um determinado contexto, considerando os fatores envolvidos? Quais são os chamados da realidade a que temos de responder enquanto seres humanos? Qual é a exigência da experiência elementar a que temos de atender para não nos alienarmos de nós mesmos?
Durante a busca de respostas a essas perguntas, precisamos criar um movimento interno de abrir-se cada vez mais a um horizonte totalizante, que exige de nossa parte uma atitude e uma postura livres de restrições e de preconceitos. Não podemos nos apegar a antigos valores e a pré-conceitos racionais preconizados pela sociedade e pelos meios acadêmicos. Minha Exigência Elementar de Transcendência levou-me a grandes conflitos existenciais: em relação à minha crença de origem familiar, em relação à formação acadêmica e em relação a todos os caminhos espirituais onde busquei uma resposta a essa exigência.
Como ter uma certeza, como transmitir confiança, como se posicionar frente ao outro que tem as mesmas exigências que eu? Como corresponder ao chamado da realidade que se apresenta para nós e agir de acordo com a nossa experiência elementar? Como atender a esse chamado em relação ao outro no meu trabalho profissional, de forma coerente com a essência humana de cada um? A minha conscientização das potencialidades individuais e a minha vivência da Experiência Elementar levaram-me a descobrir que eu poderia buscar as respostas, que elas existem! Todos nós podemos! Fazer essas perguntas é um treino interior de abertura para observação da realidade e também de aprendizado para análise e avaliação de realidades diferentes. Esse é um dos caminhos para se encontrar o ponto de aderência, de sintonia da realidade exterior com a nossa vivência interior que tenha algum sentido, que possa substituir o sofrimento pela esperança, substituir o conflito pela plenitude de viver.
Como exemplo, vejamos as crianças. Elas observam o mundo com curiosidade e paixão, fazem perguntas a respeito das coisas e esperam uma resposta. Elas sabem que existem respostas para as suas perguntas, mesmo que os adultos não as forneçam. E elas saem à busca de respostas. Essa é a busca que temos em nós. A busca pela felicidade. A educação e a sociedade às vezes ofuscam essa busca, mas ela nunca desaparece. Não podemos perder de vista a perspectiva de que há a exigência de perguntas essenciais em nossa vida e que existe a possibilidade de encontrarmos essas respostas. Que podemos desenvolver em nós e no outro a confiança moral da hipótese positiva de buscarmos e encontrarmos uma vida significativa, mesmo em meio a dificuldades. Essa perspectiva de adesão de nossas expectativas frente à demanda da realidade é que nos dá forças para continuar em busca de respostas que atendam a nossa exigência elementar. Isso motiva, dá sentido, posiciona-nos enquanto seres humanos íntegros, no infinito universo em que vivemos.