Escrito por Elisabeth Martha Tesheiner
A Musicoterapia é a utilização controlada do som e da música em um processo que possibilita a ampliação da comunicação, da expressão dos sentimentos, dos afetos e das experiências vivenciais do indivíduo.
A Musicoterapia atende o ser humano com dificuldades em diversas áreas como distúrbios de comportamento, de aprendizagem, desordens psiquiátricas, estresse, geriatria, bloqueios emocionais, busca do autoconhecimento proporcionando maior integração e melhoria na qualidade de vida.
A Musicoterapia é conduzida por um musicoterapeuta habilitado e treinado, que trabalha num contexto clínico. O musicoterapeuta é um profissional inserido na área da saúde e está apto para atuar em diversos locais como consultórios, hospitais, instituições, escolas, creches, indústrias e fábricas no setor de Recursos Humanos entre outros.
Este profissional é preparado durante quatro anos e seu diploma é de Bacharel em Musicoterapia. Isto quer dizer que conhece profundamente a psique humana, bem como seus distúrbios e doenças.
Ele faz uma avaliação das necessidades do cliente, formula um programa e uma abordagem terapêutica, desenvolvendo atividades específicas para alcançar os objetivos. O objetivo do tratamento é centrado no cliente. Para isso o profissional utiliza o som, a música e o movimento para produzir os efeitos terapêuticos que permitirão iniciar um processo de recuperação do cliente.
Musicoterapia não é aula de música, portanto, não é necessário que o cliente saiba tocar algum instrumento ou cantar para que possa ser atendido, pois como já foi dito, o objetivo principal do atendimento é a terapia ou a reabilitação.
As vivências musicais proporcionadas pela Musicoterapia estimulam a criatividade e a autoconfiança, ajudando a mobilizar o potencial de saúde do cliente. Tocando, cantando, improvisando, acompanhando e ouvindo música a pessoa partilha a sua experiência em sessões individuais ou de grupo.
Da primeira infância à terceira idade a Musicoterapia pode significar, para as pessoas que a buscam, um fator de crescimento e uma contribuição para a melhoria da qualidade de vida.
Um ponto fundamental da Musicoterapia é permitir o resgate da confiança e o desenvolvimento do potencial interior de cada um, a partir de uma escuta verdadeira de si mesmo, do reconhecimento dos seus ruídos, das desarmonias e desafinações internas.
Histórico
A música, por seus efeitos relaxantes, e pela capacidade de envolver e modificar comportamentos, é reconhecida, desde a antiguidade, como um dos mais eficientes – e talvez o mais agradável – recurso terapêutico conhecido. Mas, porque não produz efeitos idênticos em duas ou mais pessoas, podendo até mesmo uma boa música ser um perigoso excitante, sua aplicação como medicina envolve técnica e ciência apenas acessíveis a hábeis e perseverantes especialistas.
Encontramos referências aos seus poderes curativos em várias épocas e culturas.
O emprego curativo da música nos povos primitivos
A primeira forma de comunicação humana surgiu através dos sons. O homem primitivo utilizava-se de sinais gestuais e sonoros, emitindo grunhidos, imitando os sons dos animais e da natureza, criando rituais numa tentativa de dominar as forças da mesma, pois eles acreditavam que ela (a natureza) e seus animais (tótens) eram espíritos divinos. Caminhando um pouco na evolução da humanidade encontramos as tribos, onde o pajé ou feiticeiro cantava ininterruptamente até que o doente apresentasse melhoras. Até hoje encontramos estas “músicas de cura” nas pajelanças dos índios brasileiros. Nas práticas xamânicas o canto, a percussão e a dança são os estímulos utilizados para induzir ao êxtase.
O emprego terapêutico da música entre os povos egípcios e gregos
Nas civilizações egípcias e gregas ocorreu uma mudança fundamental em relação aos povos primitivos. Os deuses eram criaturas semelhantes aos homens e faziam parte integrante em todas as suas atividades: guerra, paz, medicina, música, etc... Apolo era deus, músico e curandeiro.
Os egípcios também endeusaram o médico Imhotep, após a sua morte. Na Antiga Grécia, onde surgiu uma atitude racional em face da doença, inaugurando o que Cumston chamou de tendência metafísica, e tendo como figura mais importante para a medicina ocidental, Hipócrates, acreditava-se que a doença consistia num desequilíbrio dos elementos que constituíam o homem (frio e calor; umidade e secura, por exemplo). Utilizava então, no restabelecimento do equilíbrio perdido, a música, por ser ordem e harmonia dos sons. Os gregos acreditavam que a música poderia depurar e dominar as emoções e enriquecer a mente, através de melodias que levassem ao êxtase. Foi com os gregos que obtivemos as primeiras informações de investigações profundas do caráter terapêutico da música. Eles verificaram que a música bem dosada produzia efeitos benéficos sobre o estado físico e mental. Como era uma civilização fortemente voltada ao raciocínio lógico, procuravam empregá-lo na clínica. Tentavam encontrar uma razão lógica no ser humano e no mundo, e a enfermidade era observada, diagnosticada, e então receitado o remédio lógico aplicável. Herdamos dos gregos nossas idéias sobre a saúde e a enfermidade, ligando-as ao filosófico e ético, ao racional e científico, desligando-as da magia e da religião.
Juliette Alvin considera Platão e Aristóteles como precursores da musicoterapia, por fazerem uso dosado da música no tratamento dos pacientes, valorizando-a: “as pessoas que sofrem de emoções descontroladas, depois de ouvirem melodias que elevam a alma até ao êxtase, retornam a seu estado normal, como se houvessem experimentado um tratamento médico ou depurativo.” (Aristóteles).
Esculápio, médico grego, prescrevia música e harmonia a pessoas com a área emocional perturbada.
Outro nome grego famoso ligado a Musicoterapia é o físico e matemático Pitágoras. Atribui-se a ele uma “Mística” de numerologia expressada em termos musicais. Chamavam-na “medicina musical.” Os gregos apresentam descrições clinicamente muito precisas dos transtornos mentais. Realizaram investigações sobre o caráter e a ética da música e de seus efeitos sobre a mente e o corpo.
Como se pode ver, pelos relatos dessa civilização tão antiga, as técnicas terapêuticas com a música poderiam ser comparadas com a Musicoterapia de hoje.
O emprego terapêutico da música entre os judeus e os árabes
Os judeus acreditavam que a música ajudava no tratamento de certas doenças, e havia uma crença corrente em seu poder sobre o espírito. O exemplo de Davi com Saul é citado em quase todos os livros de Musicoterapia. Após a queda do Império Romano, os conhecimentos da medicina grega, que haviam sido adotados naquele império, passaram aos árabes, que se encontravam no Sul da Europa.
Clotilde Espínola, em seu livro, fala sobre os estudos de um famoso médico árabe, Avicena, cujo nome árabe era Abu Ali Hussein Ibn Abdallah Ibnsìnã (980-1037). Este usou a música em seus tratamentos, além de entorpecentes, inclusive o ópio, e diversos medicamentos.
O emprego da música no início da era cristã até o final da Idade Média
Segundo Juliette Alvin, a medicina, neste período, não progrediu muito. Os textos médicos gregos ficaram guardados em mosteiros católicos por muitos séculos.
Com a Idade Média, chega a era da medicina religiosa e da caça às bruxas. A doença era encarada como possessão demoníaca e tratada com exorcismos.
No começo da Idade Média, temos registrada uma citação do monge San Bernardo de Claraval (1090-1153), instruindo os monges, para que seu canto fosse doce, comovendo os corações, aliviando a aflição e a cólera das outras pessoas.
A Igreja passa a moldar a forma e o uso musical para controlar as almas dos mortais, já reconhecendo o poder do som de provocar e modificar comportamentos e emoções.
O uso médico da música desaparece, ficando apenas o seu emprego religioso e controlado pela Igreja, mas a música fazia parte do currículo das universidades.
O emprego terapêutico da música a partir do Renascimento
No século XVI, o médico Paracelso já não atribuía a loucura à bruxaria, e dizia: “os loucos são doentes, necessitam de tratamento humano, médico e espiritual.”
O médico londrino Brocklesby escreveu em tratado completo de musicoterapia. Descreve os sintomas e as causas destes, a melancolia. Faz um levantamento da história musical do paciente. Primeiramente este ouvia músicas para ser incentivado a tocar. Em seguida, foi formado um auditório composto por parentes e amigos, que ajudavam em sua reabilitação. O médico relata que a cura do paciente foi completa. Naquela época os médicos dirigiam o tratamento, porém a música era proporcionada por musicistas.
Um médico francês, Louis Roger, deu também uma boa contribuição ao emprego científico da música, fazendo críticas ao seu uso supersticioso no passado. Escreveu um livro sobre o efeito da música no corpo humano e alertou quanto à necessidade de fazer observação e pesquisas científicas.
O primeiro músico que tinha formação médica, a elaborar um projeto de Musicoterapia no século XIX, chamava-se F. K. Harford. Ele formou pequenos coros compostos somente por mulheres, que eram acompanhadas por harpa e violino com surdina. Estes coros cantavam em locais onde se encontravam os pacientes.
Houve uma época em que se pensava que a música é que promovia a cura. Em outra época, pensava-se que a cura dependia do musicoterapeuta. Hoje sabemos que ambos são importantes no processo terapêutico. Por este motivo, a relação terapeuta/paciente é fundamental.
A musicoterapia no século XX
Do início deste século até a Segunda Guerra Mundial não há registros da aplicação terapêutica da música de forma mais sistematizada. A música era usada em hospitais e clínicas, geralmente como entretenimento. Durante a Primeira Guerra Mundial, músicos profissionais foram contratados para distrair os doentes e na Segunda Grande Guerra, verdadeiros concertos eram organizados nos hospitais. Os médicos perceberam os efeitos benéficos e as melhoras dos pacientes. Finalmente, dez anos depois, aparecem os primeiros livros com os princípios da Musicoterapia.
Assim como outras disciplinas paramédicas, por exemplo, a fisioterapia e a terapia ocupacional, a Musicoterapia se desenvolveu após a Segunda Guerra Mundial.
O primeiro país a criar uma Associação de Musicoterapia, em 1950, foi os Estados Unidos. Esta tinha a finalidade de ajudar na preparação profissional de musicoterapeutas e no desenvolvimento de um trabalho com música aliada à área médica. A partir dessa Associação várias universidades introduziram cursos para treinamento de musicoterapeutas em cooperação com hospitais. Começaram a surgir em outros países as associações e os cursos de Musicoterapia. Em novembro de 1968, foi fundada a primeira associação de Musicoterapia brasileira A ela seguiram-se outras...
Já existem também no país diversos cursos universitários de Musicoterapia.
A Musicoterapia hoje
Hoje compreendemos a Musicoterapia com uma conceituação bem ampla: uma disciplina que utiliza o som, o silêncio, o ritmo, o movimento, o timbre, os intervalos, a freqüência, enfim todos os elementos da música, para alcançar os objetivos terapêuticos propostos.
A Musicoterapia é um canal de comunicação muito especial, alcançando os clientes onde outras terapias não surtem efeito. Sendo assim, a Musicoterapia pode ser usada, em alguns casos, como um processo terapêutico em si mesmo; em outros, como preparação do cliente para outras terapias; ou, ainda, para utilização concomitante com elas.
A grande evolução do conhecimento do comportamento humano nas áreas física, mental, emocional, psicomotora e outras, aliada ao progresso na área da eletrônica e das diversas linguagens musicais, possibilitou ao musicoterapeuta um leque muito grande de aplicação das técnicas terapêuticas.
Uma característica da música, que auxilia muito no processo terapêutico, é o fato de poder ser usada apenas por um ou mais de seus componentes, como, por exemplo: só o ritmo; apenas a melodia ou a harmonia; um arranjo diferente e, sobretudo, a improvisação, etc... Neste caso, ela pode atingir qualquer pessoa, independentemente de estarem desenvolvidas suas áreas intelectual, motora, verbal, etc...
Outra qualidade da música é que auxilia clientes que têm dificuldade de manifestar, comunicar, expressar de alguma maneira, suas emoções, prazerosas ou não; por exemplo, os autistas, os portadores de lesões cerebrais, os portadores de distúrbios psicomotores, os doentes mentais, e outros.
Hoje temos maior facilidade de classificar e diagnosticar os diversos distúrbios, mas na hora do tratamento aparecem as dificuldades. O som e a música ajudam grandemente, possibilitando a comunicação com estes clientes. Até mesmo os surdos, como se vê em diversos trabalhos podem ser beneficiados pela Musicoterapia.
Hoje, em decorrência do desenvolvimento tecnológico, podemos comprovar o efeito maléfico ou benéfico de certos sons ou músicas sobre plantas e animais. O que se dirá, portanto de seu efeito sobre os homens? A música, sendo composta de vibrações, atua diretamente, não apenas através dos ouvidos, mas também da pele e do ar que se respira. Por este motivo, a música nos invade, sendo difícil, ou quase impossível, evadir-se de sua ação.
O vínculo entre os sons e o ser humano proporciona a base para o trabalho da musicoterapia.
O som é um fenômeno físico que está presente na história de todo ser humano.
O som e a música são parte integrante da vida do homem.
Não existe nem nunca existiu um povo sem música e desde a origem da humanidade a música exerceu seu poder afetivo e mobilizador, sendo utilizada pelo homem com as mais diversas finalidades. Ela está presente em festas e comemorações, funerais, missas, e em outros rituais.
A música marca presença como forma de alienar ou preparar emocionalmente o ser humano para um acontecimento. É muito utilizada na publicidade e atualmente até um simples noticiário obedece a regras de acompanhamento musical. O que dizer de um bom filme sem uma boa trilha sonora, ou de uma peça de teatro sem um consistente suporte musical?
Efeitos do som
O som, e a música são capazes de agir sobre o físico e o psíquico, e sua ação pode hoje em dia ser comprovada através de mensurações facilitadas pelo avanço tecnológico dos últimos tempos.
Os efeitos fisiológicos podem ocorrer como reações motoras, sensoriais, hormonais ou fisiológicas e como efeitos psíquicos podem desencadear descargas emocionais nos mais variados graus.
Vamos enumerar alguns desses efeitos: capacidade e ritmo respiratório; pressão sanguínea; pulsação; expressão corporal; tônus e energia; concentração e atenção. Enfim, cada um de nós já sentiu e percebeu em si mesmo alguns desses efeitos e até mesmo outros não mencionados.
A Formação da Identidade Sonora
Identidade Sonora é um termo bastante comum entre os musicoterapeutas.
Ela é pessoal e única, pois se forma de modo diferenciado em cada um.
Esta identidade corresponde a um conjunto de sons ou fenômenos acústicos, de movimentos internos e de músicas que estiveram presentes e marcaram a vida e o desenvolvimento de cada indivíduo, incorporando-se à sua personalidade.
Quais seriam estes sons e qual sua importância?
Nesta formação estão englobados os sons que condensam os arquétipos sonoros universais, tais como grito, choro, sons de água e muitos outros que surgem da natureza e do ser humano em sua evolução onto e filogenética.
Agregam-se a estes aqueles provenientes da carga cultural que carrega os sons familiares ao grupo em que vive, os sons do cotidiano e particularmente as influências sonoras que foram vividas no período da gestação.
O feto, durante seu desenvolvimento está em contato com fenômenos sonoros intra-uterinos que se tornam parte integrante de sua memória afetiva. Já no útero materno antes mesmo do desenvolvimento do sentido da audição estes sons são percebidos pelo tato e o feto entra em contato com as pulsações e batimentos cardíacos de sua mãe, e com outras sensações vibratórias, como ruídos intestinais, sons da respiração e também com sons provenientes do meio ambiente e que chegam filtrados pelo líquido amniótico.
Depois de nascido, o choro é sua primeira manifestação sonora.
A partir do nascimento os sons presentes no seu dia a dia serão incorporados e o acompanharão por toda sua existência. Fazem parte destas vivências sonoras as cantigas de ninar, cantigas de roda e folclóricas entre outras. Mais tarde, as músicas marcam a adolescência e a idade adulta; marcam um romance ou determinada época da vida e assim por diante...
Esta identidade sonora e musical continua a se formar e se desenvolver por toda a vida.
A lembrança aparentemente casual de uma música qualquer, remete geralmente a uma vivência anterior.
Uma música pode remeter a uma lembrança de determinadas pessoas ou épocas. Ninguém gosta ou desgosta de uma música por acaso ou só por ter sido um sucesso de época. Há uma identificação pessoal com algum elemento dessa música, seja ele verbal ou musical. A Musicoterapia permite que o indivíduo atualize a vivência passada trazendo-a para o momento atual e atribuindo-lhe um novo significado.
Em nossa atuação clínica percebemos a importância dessa identidade ser construída de forma adequada e sadia...
É triste constatar que hoje em dia os sons ambientais decorrentes do estilo de vida da sociedade moderna nos grandes centros urbanos geram graves prejuízos à formação da personalidade.
O homem está cada vez mais afastado da natureza e de seus sons.
Está cada vez mais exposto aos sons das máquinas e dos centros urbanos, que fragilizam a saúde física e emocional de seus habitantes.
Poucas são hoje em dia as mães que dispõem de tempo e vontade de cantar para seus filhos.
Poucas escolas propiciam atividades e brincadeiras musicais tradicionais, cantigas de roda, e folclóricas.
As músicas e concertos ao vivo estão sendo substituídos por gravações e meios eletrônicos.
Músicas tradicionais têm sido substituídas por músicas comerciais divulgadas pela mídia, sendo que muitas delas são completamente inadequadas às crianças.
Precisamos estar atentos e conscientes do que oferecemos às nossas crianças e aos jovens.
Dizemos que a música atua como um ressonador, que reforça aquilo que já existe em cada indivíduo.
Toda pessoa tem uma identidade sonora, um ritmo interior que a diferencia das outras.
Identificá-lo e equilibrá-lo é procedimento da musicoterapia.
“....a verdadeira cura, a transformação de mal em bem, dependerá da verdadeira arte de fornecer às almas e corações humanos um caminho espiritual”
Rudolf Steiner
Rudolf Steiner, em suas obras por inúmeras vezes, fez referência à importância da música do ponto de vista artístico, pedagógico e terapêutico. Suas idéias e fundamentos tiveram continuidade e desenvolvimento através de médicos e terapeutas com orientação antroposófica, como F. Husemann e R. Treichler entre outros.
O fazer artístico como é utilizado pela Antroposofia é sempre um veículo para a expressão da alma e por isso pode ser usado com uma das duas intenções: artística ou terapêutica.
Para a Antroposofia o desenvolvimento artístico é uma possibilidade de crescimento e autoconhecimento. Isso porque em sua busca, através do elemento artístico, o indivíduo se depara com fenômenos variados, diferentes em cada modalidade artística, e que permite o conhecimento e exigência próprios de cada forma de expressão. Este fazer artístico exige concentração e auto-observação: neste criar algo novo, a pessoa trabalha e se confronta com seus limites, mas também afirma sua individualidade. Desse modo, com a ajuda da arte encaminha-se para a superação de si mesma.
Nas terapias antroposóficas - a musicoterapia entre elas - o objetivo é estimular as forças restauradoras e curativas presentes no paciente. Os sons e os instrumentos provocam sensações diversas em determinadas regiões anatômicas. Os instrumentos de sopro e as tonalidades agudas agem principalmente na parte superior do corpo, enquanto os instrumentos de percussão e os tons graves exercem influência especialmente na parte inferior.
A música é uma arte especial. Dizemos que é a única arte que não retrata a natureza. Quando se pinta um quadro, é usada uma imagem ou uma cor que existe na natureza. Quando se realiza uma escultura procura-se a expressão facial que mais represente a força, os membros que mais representem a virilidade e assim por diante, apoiando-se sempre em um referencial da natureza. A música, por sua vez, não está na natureza, tal como a conhecemos com os cinco sentidos. Por tudo isso, a música não passa pela razão, indo direto para o nosso inconsciente e agindo no mais profundo nível do ser humano. A música atua terapeuticamente, do inconsciente para o consciente. Essa é a grande força da música que possibilita ao paciente conquistar uma linguagem diferenciada da verbal, gestual, gráfica e visual. Como exemplo, podemos citar: portadores de autismo, que por vezes apresentam quase nenhum grau de resposta às mais variadas terapias, diante da música reagem de forma mais eficaz. Outro exemplo de excelente atuação da Musicoterapia é com portadores de deficiências na fala. Através da música, eles conseguem uma nova forma de expressão, que possibilita uma melhor comunicação social, o desenvolvimento e o fortalecimento de capacidades cognitivas.
Para a compreensão do processo da Musicoterapia Antroposófica, é de essencial importância a visão do homem trimembrado, sua relação com os instrumentos e a atuação destes no ser humano. Segundo Edson Zagueto encontramos a seguinte correspondência:
- Instrumentos de sopro: Têm relação com o pensar. São tocados com a boca, ficando os instrumentos próximos à cabeça, parte central do sistema neurossensorial. Dessa forma, estimulam o pensar, interagindo com o sistema respiratório. Possuem ligação com o elemento musical melodia. Os mais usados são as flautas de vários tipos, como as pentatônicas e as diatônicas.
- Instrumentos de cordas: São tocados abraçados e mantidos próximos ao centro do corpo. Têm relação com o sentir e com o sistema rítmico, porque no centro do corpo estão as atividades rítmicas do pulsar do coração e da atividade respiratória rítmica pulmonar. São ligados ao elemento musical harmonia. Os mais usados são a lira (instrumento grego cujo som tem efeito relaxante e, por possuir pouca sonoridade, estimula a audição), a krota (instrumento celta reconstruído pela Antroposofia, neste século, para a Musicoterapia) e o kântele (instrumento que teve sua origem na Finlândia).
- Instrumentos de percussão: Têm relação com os membros do corpo humano, que, com o sistema metabólico, correspondem ao pólo da vontade (querer/agir) – é através dos membros humanos (pernas e braços) que concretizamos nossas ações e podemos agir em relação ao social. Sua maneira de tocar – a batida – é uma manifestação de pura vontade. Os mais usados são os tambores, paus de percussão, barras, canos ou chapas metálicas sonoras (como o xilofone), gongos e pratos.
A Musicoterapia consiste na execução destes vários instrumentos, utilizados de acordo com a necessidade de cada tratamento.
Na musicoterapia distinguimos entre:
- o instrumento interno (som, harmonia, ritmo) e o externo (instrumento musical, canto); e
- a musicoterapia ativa onde o próprio paciente toca ou canta, e a receptiva em que o paciente escuta as músicas ou o som executado pelo terapeuta.
O ouvir na Musicoterapia é muito importante e o trabalho é calcado em um "ouvir ativo", apesar de o núcleo da terapia ser fundamentado em tocar os instrumentos. O esforço para tocar um instrumento e tirar dele o som mais artístico possível já é um processo terapêutico da mais elevada eficácia, pois, dessa forma, várias capacidades latentes do indivíduo são elaboradas.
Na Musicoterapia não se busca o senso estético por si só – o processo e o esforço para a execução é o que importa. Por exemplo: diante de uma depressão, o paciente dificilmente conseguiria tocar uma flauta de forma "alegre". Contudo, se caminharmos de maneira adequada e orientada, poderemos, ao fim de todo o procedimento terapêutico, chegar a obter a meta acima. Mas, em todo o trajeto, o importante será a conquista das forças cultivadas e desenvolvidas para se tocar uma melodia "alegre" e o esforço interior e psíquico utilizado para esta atividade, sendo o resultado estético mera conseqüência da atividade psíquica do paciente.
Uma criança com falhas em sua comunicação social facilmente aprende a se relacionar com o outro através do ritmo e da melodia porque tem que aprender a respeitar o ritmo do outro, tem que esperar sua vez de cantar e aguardar sua forma de expressão. Esses dois exemplos citados acima demonstram as possibilidades da música enquanto terapia.
A música desenvolve capacidades latentes, transforma a forma de lidar com o outro, torna o indivíduo mais sociável e mais constante em suas relações afetivas. E todas essas mudanças auxiliam o caminho do indivíduo em busca da cura, já existente dentro dele mesmo. A Musicoterapia aqui abordada está voltada para uma orientação específica, que analisa cada caso e para cada situação utiliza determinada técnica e determinados instrumentos musicais. O procedimento terapêutico pode ser vertical ou horizontal, disso resultando a análise de qual o processo inicial a ser adotado. Podemos iniciar a terapia de onde se encontra o estado psíquico do paciente ou podemos fazer um começo intenso, reforçando aquilo de que ele carece. Ou ainda podemos utilizar o princípio homeopático da similitude, onde aqueles que têm temperamento colérico, por exemplo, tocam trompa ou tambor.
O objetivo da Musicoterapia é propiciar ao indivíduo uma terapia não verbal, que possibilite uma nova forma de expressão artística e humana, que permita o encontro consigo mesmo e com o social. A Musicoterapia propicia o desenvolvimento da sensibilização, da autodescoberta e do autoconhecimento, fornecendo elementos terapêuticos para uma melhor socialização do indivíduo. O grau de resposta do paciente ao elemento musical é imediato, uma vez que a música, conforme já mencionamos acima, é uma linguagem universal que está além das linguagens verbal, gestual, etc.
Bibliografia:
Friedenreich, C.A. – A Educação Musical na Escola Waldorf.
Husemann, F., Wolff O. – A Imagem do Homem como Base da Arte Médica – vol.II.
Steiner, R. – Antropologia Meditativa.
Musicoterapeuta, Terapeuta Corporal, Educadora Musical Visão Ampliada pela Antroposofia