Depressão, epidemia contemporânea

PDFImprimirE-mail

HTML clipboard

A tristeza é um estado interior que corresponde a um sentimento normal a todos nós. Há constantes motivos que nos deixam tristes, situações que nos devem mobilizar para tratar do conteúdo que nos entristece, de maneira natural e equilibrada. O estado depressivo é uma outra situação, pois é algo de maior intensidade e que nos afeta o cotidiano de maneira mais prolongada e sintomática. Há uma comum confusão no uso da terminologia de tristeza e depressão em nossos dias. É bastante freqüente que as pessoas digam que estão com depressão quando na realidade estão tristes. Nem por isso, deixo de perceber em minha clínica diária, o quanto a depressão acomete um número grande e expressivo da população. E em níveis crescentes. Como historicamente as sociedades se expressam também pelas enfermidades, produzimos coletivamente nossas depressões. Todos temos um eu que em estado germinal na criança, ao longo de seu caminho biográfico, passa pela fase de crescimento físico-vital de 1 a 21 anos. A partir daí inicia-se um autêntico processo gradativo de autodesenvolvimento. Então o eu carrega qualidades inatas que nós podemos observar na infância e ele detém características instrumentais em potencial, que cada um como missão de vida sente que pode trabalhar em um processo de auto-aperfeiçoamento. Dessa maneira, gradativamente vamos ao longo dos anos nos percebendo e imprimimos no mundo nossa individualidade. Sentimos que estamos aqui para cumprir nossas grandes metas de vida e uma vez que nos mantemos nesse fio condutor, sentimo-nos realizados existencialmente. Contudo vivemos riscos de aplacamentos do eu, que resulta na diminuição de nossa auto-expressão. Olhando ao nosso redor social percebemos que a economia é a grande religião do momento. Seus aspectos conceituais moldam o ensinamento nas universidades, que representam o seu templo. Naturalmente as escolas de ensino fundamental e médio se nutrem dessa hegemonia pensamental e praticam ações coadunadas. Isso resulta nas escolas empresas e suas deturpações. A pedagogia convencional prepara desde cedo as crianças para entrarem em um “mundo competitivo”, a linguagem de mercado que culmina na grande competição denominada vestibular. Porém nem todos os seres humanos nascem para competir... Assim uma parcela importante dos nossos jovens é massacrada por esse trator impiedoso e fica no meio do caminho cheios de cicatrizes e seqüelas, não aparecendo no “sucesso” da aprovação do vestibular - ou na não aprovação nas ditas melhores faculdades (as públicas, habitualmente)... Já que ter “sucesso” virou meta econômica e de status, muitos adolescentes, pós adolescentes e eternos adolescentes vendem suas almas e corpos a qualquer preço para galgarem esse patamar. Como o mercado cria constantes ídolos, numa clonagem ou metamorfose da mesmice para rodar o consumismo, ele também destrói os velhos sucessos para abrir espaço. De maneira interessante é que a velocidade de criar e destruir está cada vez maior, pois a sociedade de consumo está cada vez mais ávida e apressada em consumir o prazer seguinte pois o atual não está suprindo a ânsia imperativa da nossa alma sofrida. Como a lógica do prazer é ter, já que as empresas estão transformando tudo em produtos, para quem não tem, a este é levado um sentimento de inferioridade. Ter conforto está ficando cada vez mais caro... Mais a gente vai se gastando para ter... Mais horas vamos trabalhando no mundo conectado da tecnologia... Nessa esfera, os alimentos vão ficando progressivamente mais baratos. Contudo é a proliferação de comida industrializada, pobre em nutrientes, ricas em carboidratos, cheias de químicas que poluem nosso corpo e sobrecarregam o fígado. Órgão desintoxicador visto pela medicina antroposófica como órgão da vida. Quem está com depressão sente-se sem vida, desvitalizado. Dessa maneira vivemos entre o pavor da obesidade mórbida à ditadura de beleza das modelos esqueléticas e de cabelos lisos. Por essas trilhas é preciso ter bastante serenidade para lidar com esses fatores para não sucumbir a esse discurso, falso, de ‘‘ser alguém”, em que é embutido em todos nós que a felicidade é ser rico. Sabiamente diz o meu amigo que a falta de dinheiro acentua os problemas. É interessante acompanhar algumas biografias que “se matam” em construir fortunas e quando as tem, continuam se estressando em mantê-las. E claro, passam a gastar seu dinheiro (consigo ou seus familiares), em grande quantidade para tratar dos males decorrentes desse comportamento. A imposição de ter dinheiro, segurança (palavra ilusória, isso não existe), status, entre outros,  está levando as pessoas a irem a direções profissionais completamente distantes de sua realidade pessoal. Cada um de nós é diferente dos demais, temos perfis diferentes, nascemos para determinadas missões das quais ao nos afastarmos, secamos literalmente nossa alma. Adoecer por isso é simples decorrência. Quando trabalhamos por dinheiro (exclusivamente), só nos resta mesmo no final do dia buscar uma rota de fuga para atenuar o vazio que provocamos em nós. Não é à toa que somos uma sociedade consumidora de drogas ou de outros instrumentos de dependência: televisão, internet, enfim somos prato cheio para a indústria do entretenimento que buscamos para nos entorpecer. Estar na profissão que você adora torna você bem humorado e produtivo para o bem-comum: é a pessoa certa no lugar certo.  Depressão, tecnicamente falando é distúrbio de humor. Trabalhar na profissão em que você se realiza não significa retorno financeiro, mas você não estará mentindo para si mesmo e adoecendo por causa disso. Temos que tomar muito cuidado para não cairmos na tentação de abandonar aquilo que almejamos para nós mesmos em sentido maior e existencial: nossa realização estritamente pessoal, o que implica satisfação profissional. Diga para si mesmo: “pode não ser agora”, mas amanhã estarei na profissão em que expresso o tesouro da minha individualidade, meus dons inatos juntos com os instrumentos pessoais que lapido ao longo dos anos. Um dos sintomas sociais é a freqüente busca de ir atrás da segurança e do dinheiro através de prestar concursos para virar funcionário público. Seara tão almejada por muitos pelas pretensas condições favoráveis a uma estabilidade profissional. Como também sou funcionário público, tenho a oportunidade diária de exercer minhas observações.  Ali observo uma grande gama de seres humanos que estão cotidianamente exercendo seu detestável trabalho, sem que se tenha qualquer afinidade por ele. Qualquer trabalho sem atividade sentimental minha alma repele como detestável. O resultado é a indiferença, o mau-humor, mau atendimento, produtos e serviços de má-qualidade. Um impacto na alma dos outros e de si próprio é o que se dá para perceber quando se tem um mínimo de autocrítica. E mesmo que alguns funcionários públicos não gostem de suas profissões, mas sejam pessoas muito responsáveis, acabam virando pessoas sobrecarregadas, pois carregam  os erros dos outros nas suas costas. Ambas as situações são depressivas, quando levadas no correr de vários anos. E agora pensemos na esfera privada, o âmbito das empresas. Aí é o terreno das inspetorias, das auditorias, dos controles. Os funcionários são induzidos a trabalharem o máximo que podem, em diversas funções – são os chamados funcionários polifuncionais – o que significa trabalhar por vários, já que muitos são demitidos por causa disso. Além do mais há a cultura de atingir metas de vendas dos produtos e serviços. Sobrecarga de trabalho, aumentos progressivos de metas, jornadas de trabalho crescentes (levar serviço para casa, e-mails e uso de celular para a empresa), competição pelos cargos entre colegas de trabalho, chefes e gerentes autoritários (ou sádicos, ou paranóicos, entre outros), o fantasma de ser demitido, enfim temos aí uma cesta de situações que também criam um estímulo depressivo.  E se em toda essa atmosfera em que se sinta algo deprimido, você resolver tomar álcool no fim do dia “para dar uma relaxada”, ele destrói células do fígado, e acaba que você vai ficar ainda mais deprimido...

Que tal mudarmos essas condições sociais?

A abordagem tomada acima considera a relação entre o ambiente e o ser humano como interação que leva à depressão. Existem depressões de caráter intenso e que a investigação médica não revela maiores fatores externos que a induzem ou estão agregadas. É a chamada Depressão Endógena que merece uma abordagem diferente da tomada aqui. Fica para outros artigos.

Clínica Médica e Reumatologia Antroposóficas. Consultor Biográfico

Banner
Banner
Banner
Banner