Escrito por Dr. Paulo Neves Júnior
É muito frequente a queixa de várias pessoas de que muitos médicos quase não lhes dão “atenção” e quase não as “examinam”. Recente pesquisa regional revela que o tempo de consulta nos consultórios médicos tem duração média de 17 minutos. Essa desatenção dos colegas e sua pressa é uma repetição acrítica da nossa sociedade, repleta de atos de desconsideração para com o outro. Essa avaliação negativa dos pacientes mostra que eles não procuram o profissional médico, “apenas” pela sua qualidade técnica. Essa obviedade mostra a necessidade afetiva embutida no ser humano que em posição frágil causada pelo seu sofrimento, busca auxílio na medicina.
A história mostra nos registros da Mesopotâmia – 5000 A.C. – que as ações para doença e cura estavam centradas nos templos e nos sacerdotes. Todo o cotidiano girava em torno do templo. É um dado que mostra como a medicina tem origem em âmbito espiritual. A vida moderna mostra o oposto: há toda a separação do conhecimento e das ações humanas, gerando as diversas especializações em quaisquer âmbitos profissionais. Isso faz parte de nosso processo de desenvolvimento, uma individuação, que nos dá a sensação de que somos cada vez mais unos conosco mesmos, portanto, afastados de nosso meio.
Então sentimos que dentro de nós há a premissa de liberdade, a independência frente às demais. Isso é saudável e necessário ao mesmo tempo em que implica em colocar nas costas novas responsabilidades. Na fuga de não assumir essa maturação, as pessoas ao se fecharem em seu interior, demasiadamente, esquecem de olhar para a individualidade do outro... Caindo em posturas egoístas. Um mundo de egoístas é um mundo de solitários. Já não há aquele padre confiável para nos ouvir. Os vizinhos são distantes. O ambiente de trabalho é competitivo (ou seja, repleto de inimigos)... Esse vazio, entre outros, gera sofrimento e doenças. Lá vai o doente - e portanto, frágil - buscar no médico uma referência de alívio. Habitualmente ele vai encontrar um profissional em sofrimento, também. O médico é aquele indivíduo com um histórico de fazer muitos esforços. Tem que queimar muito de sua vitalidade em um vestibular dos mais concorridos. Depois faz um curso de seis anos em período integral, com plantões no final do curso. Depois tem que se esfalfar para entrar numa Residência Médica, uma pós-graduação que dura de dois a cinco anos. E fazendo habitualmente, muitos plantões. Depois ele vai buscar seu lugar no “mercado de trabalho”. Esse caminho feito de maneira bem individual. O mercado de trabalho do médico está marcado atualmente por duas vias. O do sacrifício, que são os plantões, onde se fica longas horas, atendendo uma grande quantidade de pacientes. Atender 100 pacientes por turnos de 12 horas é uma realidade comum. Fazer vários plantões e emendar o dia seguinte com atividades ambulatoriais e hospitalares é o habitual. Outra via é a de trabalhar em consultórios pseudoparticulares. Pseudo porque não são os médicos que definem os valores de remuneração. Os planos de saúde e cooperativas médicas pagam até R$ 42,00 pela consulta a serem repassados em até 60 dias, ou mais... Não se remunerando os “retornos” de consultas e apresentação de exames. Como isso gera um natural prejuízo, diminui-se o tempo de consulta para se ganhar na quantidade: lá se vai a qualidade de atendimento! Para diminuir a margem de erros se pede maior quantidade de exames, o que torna o processo, além de nada sensato, ainda mais caro. Os pacientes geralmente gostam muito de exames, pois crêem que eles tenham muito valor. Mas isso é ilusão de leigo, pois a margem de acerto diagnóstico é maior quando se faz uma história clínica bem feita e um exame físico (clínico), correto. Mas fazer bem feito – qualidade! – leva tempo. Mas os convênios e cooperativas médicas não remuneram a qualidade. Tanto que o pagamento é o mesmo, seja para um médico experiente e em nível de excelência, quanto para um jovem médico que acabou de sair de sua pós-graduação. Nesse imbricamento há convênios que pressionam os médicos para pedirem menos exames e gerarem menos custos. Daí entra a figura do médico auditor que entre outras funções, está aí para vigiar os médicos que tendem a burlar algumas regras e acabam transtornando (no mínimo), os médicos corretos burocratizando seus cotidianos. Além de glosarem várias consultas e procedimentos por encontrarem supostas irregularidades: mais prejuízo para os consultórios. Dessa maneira, além de vincular a quantia da remuneração dos médicos com relação à quantidade de exames pedidos – quanto mais exames, menor a remuneração – muitos dos colegas passam de fato a diminuir os pedidos de exames. Nesse caso, com atendimento rápido (ruim) e poucos exames, algo irá mal e os pacientes terão agudizações ou complicações - que resultarão em cronificação - que cairão nos plantões dos prontos-socorros. Como os consultórios pseudoparticulares são fontes de prejuízos, cabe aos profissionais darem plantões, onde acabam fazendo consigo mesmos uma prática estilo Robim Hood. O ganho dos exaustivos plantões tapa o déficit financeiro dos seus consultórios. Os plantões são abertos para médicos clínicos-gerais, uma necessidade. A maior parte dos plantonistas é especialista: essa distorção de sobrevivência financeira é um exercício de frustração com hora marcada, para os médicos. Já que os pacientes pagam os seus planos de saúde, mas não se interessam por sua gestão, pagam para não terem responsabilidades e assim dão sua contribuição para piorar o sistema. Mais uma: os pacientes faltam em média em 30 % das consultas marcadas. Mesmo que as secretárias liguem na véspera da consulta para lembrar do compromisso. Este é um dos índices de falta de respeito dos pacientes para com os médicos. Para tapar esse prejuízo financeiro (não somente falta de consideração), vários colegas criaram o famigerado “encaixe”. É a forma de enfiar pacientes em horários que muitas vezes nem existem para “aumentar o bolo”. E é claro, muitos pacientes ficam felizes por serem “encaixados”, pois resolve o problema de imediato mas não em uma visão mais ampla, pois é freqüente abarrotar a agenda e diminuir assim obrigatoriamente o tempo de consulta... Assim há colegas no limite da explosão, realizando atos de revolta onde desconsideram explicitamente o paciente, pois tanto faz que um ou outro, ou vários, ajam com repúdio, pois o convênio oferece pacientes aos borbotões. No outro lado, tanto faz para o paciente que um médico por ele considerado muito bom, saia do convênio. Ele no começo fica triste, reclama, esperneia, mas não vai atrás do médico para pagar uma consulta particular. Ele acaba procurando outro médico dentro do rol de seu convênio para dar continuidade ao tratamento mesmo que o paciente não o considere o melhor profissional. É o tanto faz do consumidor, o financiador, o paciente, que é fiel ao convênio e não ao médico. Há o desejo de se ter todo o bom pacote: médico, laboratório, hospital, com o melhor preço possível. Os pacientes que pagam por isso, pagam preço e não qualidade. Nessa seara encontramos um médico cada vez mais despersonalizado, sem face. Mas o médico tem mesmo que não queira, mesmo que não perceba, um manto espiritual que o acompanha. Ele atua para o bem do outro. Ele age para beneficiar a todos. Essa é sua premissa, seu âmago, sua essência. Sofre, muito, por não atender dignamente as pessoas. Pois sabe que mente para si mesmo. E é por isso que se fechando em seu sofrer os médicos tem alto índice de uso de drogas (o álcool como a mais comum), e um índice maior de suicídio na comparação com toda a população. É a percepção interna de que se está sendo indigno consigo mesmo e com os pacientes por fazer parte desse processo irracional. Se os médicos se tornam insensíveis com seu eu, sua identidade, tornam-se insensíveis com os demais. Os médicos e pacientes viraram massa de manobra de administradores de planos de saúde. Somos todos co-responsáveis por esse absurdo atual.
Clínica Médica e Reumatologia Antroposóficas. Consultor Biográfico