Escrito por Marilda Bonadio Milanese
O ser humano sempre procurou alívio para suas dores nos reinos da natureza. As substâncias podem ser usadas de forma direta ou passar por algum processo de preparação.
A utilização das substâncias diretamente, por exemplo, uma planta ou o extrato dessa planta, levou à procura por substâncias cada vez mais puras, substâncias isoladas em que se pudesse definir qual a substância quimicamente pura, o princípio ativo, com estrutura química definida que teria determinada ação específica no organismo humano. Essas substâncias são isoladas e concentradas. São necessárias várias toneladas de uma planta para se obter algumas gramas de princípio ativo. Partindo-se de estruturas químicas definidas com ação fisiológica determinada realizam-se modificações nessa estrutura, obtendo-se assim os derivados semi-sintéticos de substâncias naturais e posteriormente, seguindo os modelos farmacológicos, as substâncias totalmente sintéticas.
Esse foi o processo que levou à produção dos medicamentos utilizados pela maior parte da humanidade atual, ou seja, os chamados medicamentos alopáticos, incluindo os fitoterápicos na forma em que são concebidos e utilizados atualmente. Esse processo de obtenção de medicamentos foi o que prevaleceu na história, de forma coerente com o mergulho da humanidade no materialismo.
Paralelamente a esse desenvolvimento material existiram outras formas de se procurar extrair a potencialidade curativa dos reinos da natureza. Os alquimistas procuravam o que eles chamavam de quintessência curadora das substâncias. Realizavam processos de mistura e de destilações sucessivas em que procuravam sutilizar a substância, procuravam libertar a substância curadora das amarras que a prendiam na materialidade. Ao mesmo tempo em que se libertava a substância, elevava-se espiritualmente também o ser humano que realizava o trabalho, e obtinham-se medicamentos que aliviavam o sofrimento dos homens.
A humanidade mergulhou no materialismo e esqueceu o caráter espiritual das substâncias, medicamentos e doenças. No ápice desta época materialista surgiu a Homeopatia através de Samuel Hahnemann preconizando uma forma de preparar medicamentos em que a substância material, ao invés de ser concentrada como na alopatia, deveria ser utilizada, diluída, até que não restassem traços detectáveis da materialidade original. Este é o processo farmacêutico da dinamização em que a matéria prima original é submetida a processos alternados de diluição e movimentos rítmicos.
De forma geral, a Homeopatia parte da substância em seu estado natural, no caso das plantas o extrato alcoólico – tintura mãe – e realiza o processo da dinamização sem submeter a matéria prima provinda da natureza a outros processos farmacêuticos prévios à dinamização. Mas já na Homeopatia existem alguns medicamentos em que esses processos são realizados, como por exemplo, o Causticum, o Hepar Sulphur, a Coffea tosta, etc.
Os processos que modificam e transformam inicialmente a substância são os mais característicos do patrimônio de medicamentos desenvolvidos a partir dos conhecimentos da natureza e do ser humano dados pela Antroposofia. Esses processos podem ser ordenados, de acordo com a atividade preponderante, em:
Processos de calor: Utiliza-se toda a gama possível de graduação de calor obtendo-se uma substância transformada que pode ser utilizada como tal ou que pode ser dinamizada. Vai desde a infusão (água fervente vertida sobre a planta), passando pela decocção (cozimento da planta), digestão (maceração a 37° C), destilação (aquecimento até a evaporação e posterior condensação dos componentes voláteis), torrefação (aquecer até torrar como se faz com o café), carbonização (fazer o carvão), incineração (aquecer até eliminar todas as substâncias orgânicas obtendo-se as cinzas) até a sublimação ou destilação de metais.
O laboratório Weleda, pioneiro na preparação de medicamentos antroposóficos, utiliza preferencialmente processos de calor.
Processos de luz: Extratos aquosos de plantas são submetidos a processos de alternância rítmica de calor – escuro e frio – luz, resultando numa fermentação láctica controlada em que ocorrem alterações na composição química do extrato da planta permitindo que este se conserve sem a necessidade de se adicionar algum conservante.
O laboratório Wala é o pioneiro nas preparações farmacêuticas segundo os processos de calor e luz.
Processo do quimismo: Dinamiza substâncias que estão se formando, que se encontram em um estado transitório entre duas substâncias prontas e configuradas, no chamado estado de transição que ocorre nas reações químicas quando os reagentes já se desassociaram, mas os produtos da reação ainda não se formaram. É um método bastante adequado para se juntar substâncias de origens diferentes de forma que continuem uma unidade, como por exemplo, um metal uma planta e um órgão animal.
Indicações para esse processo podem ser encontradas em muitas das comunicações e indicações de Rudolf Steiner (fundador da Antroposofia). A elaboração do processo como descrito acima vem sendo feita nos últimos 20 anos pelo trabalho de pesquisa e desenvolvimento da Sirimim Aprimoramento da Arte Farmacêutica apoiado pela Associação Beneficente Tobias.
Os processos farmacêuticos complementam ou enfatizam a ação de uma substância de origem natural ou ainda dirigem um processo terapêutico específico para um determinado órgão ou quadro patológico.
Estudar os reinos da natureza, compreender a essência de cada ser natural para através disso entender qual processo farmacêutico é o mais adequado para cada substância e qual processo é o mais adequado para a finalidade terapêutica desejada é o trabalho de pesquisa da Farmácia Antroposófica.
Medicamentos podem ser obtidos da natureza concentrando-se e materializando as substâncias, tornando-as ainda mais terrestres ou ou trabalhando-se as substais terrestresder a esstrabalhando-se as substâncias num sentido contrário, de sutilização, de espiritualização, que coloque as substâncias da natureza em um estado semelhante àquele de sua origem, mas transformado pelo trabalho humano, humanizado. Assim o farmacêutico antroposófico, como um moderno alquimista, trabalha ao mesmo tempo na sua autotransformação e na redenção das substâncias da terra, proporcionando medicamentos que contribuem para a transformação da Terra e do homem.
A Farmácia Antroposófica fundamenta-se nos conhecimentos da Antroposofia, ciência do espírito, criada por Rudolf Steiner. Através desta conhece-se a origem comum do ser humano e dos reinos da natureza. Enquanto o homem foi evoluindo até chegar ao estado no qual se encontra atualmente na Terra, foi segregando uma parte de si mesmo que se encontra hoje nos reinos da natureza. O que existe no mundo exterior, um mineral ou uma planta, é algo que o ser humano também tem ou pode ter em si, mas no homem essas substâncias estão sujeitas à atuação de sua própria espiritualidade (liberdade) humana, por isso podem se deteriorar ocasionando as doenças. Nos reinos da natureza, essas substâncias estão em estado puro, podendo ser utilizadas como remédio para o que se danificou na substância humana.
(Textos copiados do Informativo da SBMA – ARTE MÉDICA , Novembro de 2003)
Farmacêutica da Sirimin
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