Drogas – pela legalização

PDFImprimirE-mail

HTML clipboard

A recente prisão de um grande traficante colombiano no Brasil, em sua mansão perto de São Paulo me chamou a atenção por uma declaração dele, feita na TV: a de que a sua prisão não mudará em nada o estado das coisas. Ele sai e entrarão outros na mesmíssima situação. Essa obviedade tão transparente é bastante relevada pelo nosso comportamento de não lidar a fundo com muitas questões, tais como o porquê do consumo das drogas. Parte de nossa população tem o desejo de consumir drogas: há as “legais” como álcool e cigarro e seus reconhecidos malefícios. As demais drogas são consideradas “ilegais” e são essas as causadoras de vários outros problemas, tais como os traficantes. Creio que no mundo ocidental, Pablo Escobar foi o primeiro mega traficante, pois foi o pioneiro e tinha habilidades para construir a sua organização criminosa com requintes, até ser morto pelos norte-americanos sob traição de seus pares. Com o seu fim ocorreu um processo fragmentário de produção e venda de cocaína, metamorfoseando o processo para uma outra complexidade. A condição atual é que temos vários grupos, em vários lugares, guerreando entre si por esse poderoso “mercado” de venda de drogas. Se há consumidores ávidos por utilizarem algumas substâncias, alguns estarão tentados a serem produtores e fornecedores. Como é ilegal, o negócio é de maior risco. Mas as possibilidades de lucro são enormes, pois o produto não é fácil de ser encontrado e assim o preço final, pago pelos usuários é alto. Como a cadeia da produção ao consumo é muito distante, caso da cocaína, é necessário que se tenham vários seres humanos envolvidos, o que gera serviços informais. Se há muito rentabilidade financeira, isso estimula o aparecimento da concorrência, alavancada pela ganância e assim aparecem os diversos grupos de traficantes. Essa disputa “empresarial” é manejada pelas mais diversas formas de violência, que habitualmente vemos nas nossas ruas ao vivo e a cores, ou comumente na mídia que busca audiência mostrando violência. Uma digressão: os instrumentos usados nas TVs para darem mais audiência, são a violência e sexo. Naturalmente os terrenos legais, governos, polícia e sistema judiciário são instados a combaterem essa ilegalidade com vários recursos. Porém aqui há um desnível. O tráfico de drogas gera muito dinheiro e com isso cria muito poder de compra em termos de corrupção. Estima-se que o colombiano citado no início do texto tenha movimentado em torno de 20 bilhões de reais no Brasil. Policial é mais fácil comprar, pois é categoria de salários baixos... Advogados e juízes em realidade são melhor remunerados, mas a ganância fala alto e assim parte desses profissionais acaba cooptados pelos traficantes. Há pouco uma juíza e seu marido no Mato Grosso foram presos com a suspeita de que tenham facilitado a liberação de um grande traficante preso na região. Divulgaram um diálogo grampeado, entre o marido da juíza e o traficante após ele já ter sido solto´, revelando um grau de intimidade. Já foi detectado que esse traficante fez três depósitos na conta bancária da juíza. Como necessariamente, o alto volume de dinheiro precisa ser legalizado, propiciam-se os esquemas das variadas maneiras de “lavagem” de dinheiro. Portanto esse dinheiro também servirá para comprar outros funcionários públicos dos três governos. E claro, há também o financiamento da classe política com os mesmos objetivos. Naturalmente, comprar políticos não é difícil, pois ao contrário das demais instituições de classe, aqui a maioria é corruptível, desonesta, entre outras qualidades negativas associadas. O universo dos políticos é o terreno de psicopatas ou de seres humanos que estão a caminho de serem. Na classe política vive toda a sedução de tudo do que é ruim associado. E aqui no nosso querido Brasil, há a chaga do excesso de cargos de confiança que ampliam esse parasitismo social que vai criando outras mazelas. Em torno de um grande parasita social, vão se agregando vários micro-parasitas esperando o seu naco imoral. A população está repleta de oportunistas esperando sua vez. Como a manutenção da produção e comércio de drogas são ações de riscos, o narcotráfico implica em trazer segurança física ao seu negócio. Nesse caso são necessárias as mais diversas armas para proteger essa estrutura ou para eliminar com todas as formas de violência os oponentes: sejam traficantes inimigos ou a polícia. Isso engendra o contrabando de armas – e vale repetir que para isso é preciso comprar mais funcionários públicos, policiais, juízes, etc.. – ampliando a corrupção. O crime nunca se isola, ele se associa com outras formas delituosas em que se vão criando elos. Vemos isso na interface que existe entre os banqueiros do jogo do bicho no Rio de Janeiro, com a sua migração para outras formas de jogo ilegal, tais como caça-níqueis. Uma máfia comunica-se com a outra e dividem territórios e fazem conchavos para exercício de seus poderes. Em algum momento esses brigam entre si, alguns chefes são mortos e outros vão aparecendo, pois a tentação da relação dinheiro – poder - status é grande. Os assim observados jovens armados que fazem vendas das drogas são a parte de baixo na hierarquia de venda desse mega-negócio. São como soldados, habitualmente estão na ponta do risco e uma vez mortos, são facilmente substituídos nessa engenhoca de moer seres humanos. Usei termos aqui que lembram a descrição de um projeto empresarial. E é. Fernandinho Beira-Mar tem características de um super empresário, ele demonstra ter as características que se busca em um empreendedor. Ele é uma pessoa que faz a gestão de um negócio de alto risco e digamos foi bem sucedido, até ser preso. Com a triste ressalva de ser um empresário do mal, de usar de altas capacidades humanas para explorar o que há de pior. Não resisto à divagação de que é da mesma escola de um Renan Calheiros e seus companheiros do senado (ou de Aloísio Mercadante e sua declarada omissão...), cada um agindo no seu terreno de podridão... Para uma boa análise da questão da violência – muito entrelaçada com o narcotráfico - leiam os textos de Alba Zaluar, antropóloga estudiosa do assunto. De seus estudos, vários dados foram utilizados  - e  pena! Deturpados - na escrita do livro que gerou o premiado filme Cidade de Deus. Se o desejo intrínseco de vários seres humanos leva ao consumo de diversas drogas que por fim os leva a algum efeito nocivo á sua existência, não faz sentido proibir. Faz sentido que todos nós possamos auxiliar evitando vários males. Então a proibição gera corrupção, degeneração e violência. Assim não proibamos mais as drogas. Tragamo-las para o terreno da legalidade. Acabemos com o narcotráfico, seus exércitos, sua violência e seu poder de corrupção. Já não bebemos álcool em qualquer lugar? Beber álcool não é chique? Não existe a enologia, não é fino beber e debater vinhos considerados finos? Por que não a “maconhologia”? Nos constrangeria, uma roda de pessoas publicamente fumando maconha e debatendo num papo cabeça as diversas características de suas variedades? Expus esse argumento em uma rodada de companheiros de jogo de futebol. Muitos ficaram irritados com a minha proposição pois alguém disse que “beber um pouco não faz mal para ninguém”. Isso é mentira, claro. Podemos beber álcool porque ele dá até status. Que diferença tem cometer barbaridades estando alcoolizado ou sob efeito de um LSD? A gente tem uma imensa capacidade de colorir nossa própria demagogia, nossos subterfúgios. Alguém pode me contra-argumentar que a liberação das drogas leva ao aumento de consumo. Seguindo minha linha de pensamento de não proibição, os governos poderiam produzir as drogas e comercializá-las em hospitais e postos de saúde, incluindo uma “mera” latinha de cerveja. Já garantiríamos controle de qualidade, garantia de procedência. Quaisquer drogas estariam à venda em ambientes relacionados ao cuidado da saúde humana. Para comprar quaisquer drogas, do álcool a quaisquer outras você precisaria ter 21 anos: com essa idade cada um é dono de seu nariz e responde plenamente pelos seus atos. Para adquirir, seria necessário seu RG e comprovante de residência. Isso geraria os dados que os sistemas de saúde necessitam para saber onde localizar o consumo e quem está consumindo, também criando dados para rastreabilidade.  O dinheiro que entraria com a venda das diversas substâncias, já ficaria no local para tratar os seus dependentes. Quem consumisse drogas financiaria o tratamento de quem almeja se livrar da dependência. Vejo a liberdade da compra de substâncias psicoativas como a liberdade de qualquer adulto usar de formas de se autodestruir. O cigarro, por exemplo, faz isso de uma maneira bem gradativa. O adulto tem essa liberdade. Mato-me aos poucos, fumando e bebendo álcool de maneira contumaz, pois são as formas aceitas socialmente. Posso ir contra essa tendência, buscando tratamento adequado quando eu me dispuser a isso, como uma escolha estritamente pessoal. Sem coerções. Contudo, quando alguém sob uso de qualquer droga lesa outra pessoa, a punição deve ser severa e rápida. Estando eu sob efeito de qualquer droga, se eu causar algum mal a alguém ou ao patrimônio público, que eu seja punido por isso de maneira intensa e sem demora. Não tenho quaisquer direitos de lesar as outras pessoas, em qualquer nível, seja físico, moral, patrimonial. Não é difícil capacitar a polícia a suspeitar de que alguém esteja sob uso de drogas. Não é difícil aos profissionais de saúde confirmarem isso, auxiliando o sistema jurídico, quando alguém drogado esteja em situação de provocar malefícios a outrem.  É claro que outras medidas seriam necessárias para serem agregadas nessa proposta. Não pretendo aqui fechar todo o pacote. Quero nesse artigo apontar uma direção, uma mudança de rumo. Almejo estimular uma reflexão, tirar das brumas parte das nossas hipocrisias, criar um debate, mobilizar ações conjuntas e exaradas conscientemente para mitigar esse mal criado e alimentado por nós todos os dias.

Clínica Médica e Reumatologia Antroposóficas. Consultor Biográfico

Banner
Banner
Banner
Banner