Escrito por Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
Jornal - Como surgiu a Antroposofia?
Dr. Paulo - A Antroposofia surge com Rudolf Steiner na Europa. Steiner inicialmente encontrou seu público na Teosofia, mas sempre afirmou que trazia elementos de ordem pessoal que não seguiam a linha teosófica. Ao encontrar esse público ele traz a Antroposofia que teria uma visão do homem como um determinado centro de evolução junto ao próprio planeta. Há uma cosmogênese. Existe uma formação cósmica que Steiner traz sob o ponto de vista antroposófico e que vem relacionada ao ser humano e à evolução do planeta onde a Terra passaria por determinadas fases até chegarmos onde estamos hoje. Temos, aqui, uma relação da evolução planetária e de todos os seres relacionados a ela, centralmente baseada na existência do Cristo. A existência e a importância Dele está relacionada diretamente com a evolução do ser humano e digamos assim de todo o Cosmos. Então é uma visão humana, uma visão cósmica e uma visão cristã com todas as peculiaridades da antroposofia. Através dessa visão do planeta e do ser humano temos uma evolução prática das coisas na história do movimento antroposófico que seria a visão da antroposofia nas mais diversas áreas; na medicina, na pedagogia Waldorf, na agricultura biodinâmica, na arquitetura antroposófica entre outras. Por exemplo, dá para ver a economia sob o ponto de vista da antroposofia, porque Steiner deve ter praticamente falado sobre quase todos os assuntos possíveis no sentido genérico e culminou que algumas áreas se transformaram em áreas profissionais. O movimento fundado na Europa, na Alemanha e na Suíça, onde hoje tem uma representatividade muito grande lá naquela região e aos pouquinhos foi crescendo. Em termos das Américas o movimento da pedagogia Waldorf tem mais representatividade nos Estados Unidos, onde há mais escolas Waldorf. Em termos de medicina, no Brasil. Na Europa tem-se toda uma constituição em torno de prédios, em termos de pesquisas dentro da área médica, da área científico-antroposófica. Há até uma faculdade de medicina na Alemanha.
Jornal - Como é feita a opção pela medicina antroposófica?
Dr. Paulo - Todo médico antro-posófico é um médico alopata que vai fazer um adendo de formação em medicina antroposófica, como se fosse uma pós-graduação. A medicina é praticada pelos médicos e não permite que outros profissionais a exerçam. Não obstante na medicina antroposófica existiu um certo espraiamento de atividades terapêuticas dentro da saúde sob o ponto de vista da antroposofia. Existe a massagem rítmica, que é uma massagem antroposófica, mas é praticada por “técnicos da área da massagem rítmica”; existe a euritmia que inicialmente foi um trabalho corporal sugerido também por Steiner que tanto pode servir como apresentação de palco, apresentação teatral quanto pode ser de um ponto de vista higiênico a ser praticada pela manhã e pode ser colocado na medicina como euritmia curativa. Existe a terapia artística antroposófica, que prevê o curar através de pintura, de modelagem, e existe a pedagogia curativa que é uma derivação terapêutica para pedagogos, para se tratar crianças excepcionais. Isto também existe com formação atual no Brasil. Mas, existem outros ramos também que estão dentro de uma visão antroposofica da saúde.
Jornal - A pessoa para especializar-se na pedagogia precisa ter formação médica?
Dr. Paulo - Basicamente era sugerido que um pedagogo curativo fosse um pedagogo, mas hoje isto é liberado para que outros profissionais façam pedagogia curativa. Então isto está aberto a outras áreas e não é preciso ter uma formação em medicina. A pessoa tem sua formação e pode fazer como se fosse uma pós-graduação. Agora para a medicina antroposófica é necessário ser médico. Porque a gente não difere o que é um médico alopata de um médico antroposófico. Então utilizamos os recursos disponíveis para a medicina como uma complementação de recursos terapêuticos antroposóficos. Essa é a nossa visão.
Jornal - E como é que o senhor se interessou por isso?
Dr. Paulo - Eu era estudante de medicina e estava questionando o curso, questionando bastante a minha formação. Em Juiz de Fora, MG há um núcleo de médicos antroposóficos e, eu fiquei sabendo que haveria algumas palestras para formar um grupo de estudos. Isto em 1986. Aí eu fui e era um grupo de estudos de antroposofia dado por um médico. Eu não gostei, achei nada interessante, meio estratosférico. Passamos um ano inteiro, era um grupo de estudantes de medicina e no ano seguinte entrou-se na parte médica de fato, e eu disse: “que bom, era isso mesmo que eu queria”; caiu a ficha! Aí eu projetei para ir a São Paulo fazer um estágio na clínica Tobias, uma clínica que tinha internação com medicina antroposófica. Era a única do Brasil. Programei-me. Fui fazer a residência médica em São Paulo e depois o estágio na Clínica Tobias. Durante a residência eu fiz o curso teórico, depois fiz o estágio e completei a formação.
Jornal - O senhor falou sobre a questão do Cristo em Rudolf Steiner, como é que ele encara isso, Cristo como um Deus, como encaram os católicos? A formação dele é mais para o espiritismo?
Dr. Paulo - Não, ele é um crítico do espiritismo.
Jornal - A visão dele é proveniente da Teosofia?
Dr. Paulo - Creio que também não. Steiner fala que nós temos quatro corpos. Então o planeta passa por determinadas fases de existência e de dissolução. Cada vez que ele se faz e depois ele se dissolve, cria-se um corpo humano a mais. Então é como se fôssemos evoluindo nesse processo, juntamente com a presença de todas as chamadas hierarquias; encontramos inclusive na teologia católica: anjos, diversos anjos, os serafins, os querubins, os arcanjos, que são chamados de anjos genericamente. Mas isso é conhecimento antigo das hierarquias, que são nove e, esses seres estão relacionados ao desenvolvimento humano. Eles participam tanto da evolução do planeta quanto da evolução do ser humano. Cristo é um Deus acima de todos eles, e também entra aí o processo dos anjos caídos. Desses, na antroposofia são descritos dois: Lúcifer e Arimã que participam no processo de evolução do ser humano. É que na concepção que eles têm na teologia cristã católica esses dois anjos caídos se confundem. Quando se fala Satã na Idade Média seria o Arimã, e não o Lúcifer. Mas seria um contraponto, uma espécie de desafio para a humanidade para superar o que eles trouxeram de grave, porque se não houvesse havido a participação de Lúcifer e de Arimã o ser humano teria uma evolução mais ou menos uniforme levado pelas hierarquias. Quando surge Lúcifer - que seria um ser pouco acima dos seres humanos - nos é transmitido o símbolo da tentação que é a imagem da maçã oferecida por Eva, proveniente da árvore do conhecimento. Então é como se o ser humano fosse meio autômato, como se fosse levado como uma criança pela mão. Lúcifer que quer dizer que vem da luz, trouxe a possibilidade da luz da consciência, e oferece para o ser humano a possibilidade de escolha. Como o ser humano anseia por isso ele se desconecta dessa evolução natural e aí surge a questão do mal. Isso serviria para a gente ter o bem e o mal, mas, por outro lado surge a autoconsciência e surge a questão da liberdade. Porque antes você não seria livre. Agora você é livre e corre perigo de desconectar-se dessa evolução. Agora a humanidade corre esse perigo. Aí entra Cristo no sentido de que Ele interfere nesse processo pelos riscos que a humanidade sofreria. O exemplo do Gólgota representa bem esse ponto de vista espiritual, visível para o processo de cura da humanidade, uma possibilidade. É como se antes Ele fosse um ser que estivesse lá no mundo espiritual e agora ele está no planeta, que passa a ser a morada dele a partir do evento do Gólgota.
Jornal - Arimã não teria uma ligação com os persas?
Dr. Paulo - Já é descrito lá.
Jornal - Lúcifer é citado na terminologia católica e Arimã na persa?
Dr. Paulo - Na terminologia persa são citados os dois, é que para esses povos existe um deus solar – Masda. Em outro ponto da história, há também um Deus solar, visto através de um culto, dos egípcios, bem representado quando eles saem do delta do Nilo para fundar uma nova religião, no começo do rio, mais no interior do continente africano.
Jornal - É Amon-Ra?
Dr. Paulo - Os povos antigos já tinham a noção de Cristo como um Deus ligado ao sol. Eles descrevem isso com nomes diferentes, mas é a mesma entidade espiritual. É claro que essas culturas antigas são cheias de Deuses, mas sempre você vai encontrar um solar e um da escuridão. Muitas vezes o da escuridão é Arimã. Os persas descrevem bem Arimã.
Jornal - Interessante é que há uma terminologia para vários povos que acaba contando a mesma história, e que acaba trazendo o mesmo conhecimento.
Dr. Paulo - É você vai vendo nos gregos, por exemplo. Eles têm deuses mais ou menos humanos, que segundo algumas descrições da psicologia são coisas da nossa vida emocional. São esses demônios pequenos que estão dentro de todos nós. Mas sempre há os mais elevados na hierarquia. E há sempre este deus na hierarquia que é ligado a esfera solar. O livro “Médico de Homens e de Almas” de Taylor Caldwel, fala dos babilônios, de um sacerdote médico que já esperava o Cristo. Muda-se a terminologia, mas seria o mesmo deus e os mesmos anjos caídos.
Jornal - Só muda o nome?
Dr. Paulo - Às vezes só mudam os nomes, a história é a mesma, o fio condutor é o mesmo.
Jornal - Como Rudolf Steiner aborda temas como reencarnação e espiritismo?
Dr. Paulo - Há dois anos um importante líder religioso dos judeus, em Israel, disse que ele achava que quem morreu no holocausto, foram os que causaram malefícios importantes no passado, mostrando que parte dos judeus acredita na reencarnação. Quem não acredita na reencarnação é de visão cristã ocidental. Todas as culturas orientais são reen-carnacionistas, porque se parte do princípio de que uma vez que Lúcifer e Arimã entraram nesse processo, a humanidade começa a correr riscos. Significa que quando você morre, há uma oportunidade de se voltar para o mundo espiritual, entrar em contato de novo com essa realidade espiritual, digamos assim evolutiva e voltar ao planeta para seguir aquilo que você arquitetou para o seu desenvolvimento. Quando você morre, você recapitula sua vida e cria intenções para o futuro. Então isto faria na visão de morte a formação de um carma futuro. Mas o que Steiner distingue entre espiritismo, e o espiritismo tem digamos assim uma existência recente na história da humanidade, é que ele diz que todas vivências de ordem espiritual nunca serão feitas de maneira concreta, da forma como a gente descreve no mundo atual. Há um livro do Chico Xavier em que ele descreve o mundo com ruas, casas e, Steiner diz que percepções como essas são reais do ponto de vista espiritual. Esse tipo de percepção seria um distúrbio. É interessante notar que existem muitos médiuns que estão freqüentemente doentes. Então do ponto de vista antroposófico se alguém é médium, em primeira instância, pode ser um distúrbio. O processo de clarividência dentro do que o Steiner propõe é de que você tenha experiências espirituais mas, que você esteja plenamente consciente de si mesmo. Se você estiver entrando em um transe ou se você estiver alterando o seu estado de consciência, você está correndo um perigo, porque significa que você está perdendo controle da sua própria individualidade, perturbando sua completa consciência de vigília. Para ter a percepção espiritual dentro da antroposofia é preciso estar plenamente consciente, até por uma questão de preservar sua saúde. Se você tem um processo onde está enevoando sua consciência, então está correndo risco, isso significa um distúrbio. Steiner critica, ou se opõe ao espiritismo onde você faça descrições de ordem espiritual muito “concretas”, como se descrevêssemos o mundo que vemos. Isso seria um erro, um erro de clarividência, porque ele descreve que as vivências espirituais não podem ser descritas do ponto de vista concreto. Para chegar mais perto do que ele descreve, você teria percepções cromáticas, teria coloridos dos mais diversos matizes. Talvez o que mais se aproximasse dessa vivência de uma realidade espiritual, de uma maneira torta e perigosa, são as experiências com alucinógenos como o LSD. Algumas pessoas que usam o LSD descrevem cores maravilhosas, vermelhas, lindas, misturadas com amarelos o que é uma alucinação. Seria alguma coisa mais próxima disso didaticamente falando.
Há pessoas que entram em surtos psicóticos nesses diversos movimentos esotéricos similares; há histórias de pessoas que acabam se desintegrando. Não é uma crítica, elas poderiam adoecer animicamente em outras oportunidades, mas quando você começa a mexer com essas coisas você começa a mexer em ambiente de risco. É o poder do inconsciente. Sabe-se lá o que tem dentro de cada um de nós. Então o ideal seria os exercícios meditativos onde você está sempre muito consciente e onde se tem, nos ensinos antroposóficos, exercícios preparatórios para se fortalecer internamente. E quando se faz exercícios meditativos continuados sugerimos que freqüentemente você volte a aos exercícios preparatórios porque eles protegem sua integridade. Se você está fazendo exercícios meditativos e começa a ouvir vozes, essas coisas assim ou parecidas, podem ser processos alucinatórios; sugiro ir correndo para o médico.
É claro que hoje existem variadas técnicas que prometem “benefícios” ou “capacidades espirituais”, rapidamente. Dizemos que isso é um risco imenso, seguir esses “atalhos”. Isto é muito freqüente no meio esotérico e/ou não convencional; é de uma leviandade impressionante. Por exemplo, alguém vai fazer um curso de Do-In no fim de semana e depois se sente um terapeuta em Do-In e começa a praticar. Percebe-se este imediatismo e isto é um perigo.
Jornal - Rudolf Steiner aborda os chacras em seu trabalho?
Dr. Paulo - Nos exercícios meditativos ele aborda os chacras. Isto está descrito em linguagem bem acessível nos livros dele, mas não há uma linguagem de alinhar chacras, equilibrar chacras, isso ou aquilo. Na realidade ele descreve os chacras como pontos de desenvolvimento, então você tem exercícios que você faz, de acordo com esses chacras. Há uma relação com os órgãos e com as glândulas. Por exemplo, existe uma relação de escala musical com cada glândula. Então há uma relação direta do ponto de vista fisiológico, e os exercícios do ponto de vista meditativo que você utiliza de acordo com esses chacras, mas sempre nesse processo, há os exercícios preparatórios internos só para fortalecer. Não significa nenhuma evolução espiritual, é só um fortalecimento interno. Steiner deixa isso muito claro que toda vez que você faz os exercícios meditativos, que são exercícios interiores, você corre um risco muito grande de tornar-se um profundo egoísta. É que você faz meditações que são cada vez mais fortes e nada mais se passa lá fora e, você se torna um grande egoísta; então você deve tomar muito cuidado. Ele fala isso claramente. Para cada passo que você dá do ponto de vista interno você tem que dar quatro do ponto de vista moral. Então só você praticando a moralidade, o altruísmo, e sendo correto com as pessoas lá fora é que você pode fazer o exercício interior. Mas se você almeja tornar-se um ser mais evoluído somente pelo caminho meditativo o risco de você pender para o erro é muito grande. É o risco de um caminho egoísta.
Jornal - Você me lembrou Campbell, sobre o mito do herói. Segundo ele o herói deve retornar para transmitir às pessoas o que ele aprendeu na sua jornada interior.
Dr. Paulo - As pessoas ficam nesse processo de acharem que estão evoluindo espiritualmente e nosso meio social está repleto, de pessoas que se acham “espiritualizadas”, que fazendo exercícios meditativos assim e assado estão em comunhão com o mundo espiritual e se comportam como se fossem verdadeiros gurus e se sentem no direito de melhorar a vida dos outros, de opinar sobre a vida dos outros, porque eles se acham muito bons, eles já “chegaram no céu”.
Também não podemos menosprezar de forma alguma a evolução científica convencional, temos que ter uma visão crítica do que são as unilateralidades dela. Deste modo quando alguém me pergunta: vocês são vegetarianos? Eu falo não, eu como carne. Aí se espantam, porque estão buscando alguém que não comeria carne nunca. O ideal é ser vegetariano, mas há pessoas que optam pelo vegetarianismo que vão adoecer seriamente. Assim, para ser vegetariano, em uma visão antroposófica, não adianta querer, você tem que poder ser vegetariano. Há pessoas que adoecem.. E esse é outro ponto também que Steiner deixa claro: se você não faz esses exercícios espirituais corretos e você é vegetariano, você corre risco de adoecer. Algumas pessoas têm que comer carne, o que para elas é a morte, mas eu falo: você tem que comer carne, senão você vai cada vez adoecer mais. Isto depende da constituição das pessoas, de diversos fatores, de temperamentos e de algum problema que a pessoa esteja vivenciando. Já tive colegas, até médicos antroposóficos, que optando pela alimentação vegetariana, precisaram comer carne porque adoeceram, por exemplo, com um tipo de anemia. Antroposoficamente, eu diria assim: o ideal é ser vegetariano, mas, nem todo mundo pode. Há várias coisas que são ideais para as quais não temos estrutura e nem somos o tipo de pessoa apta para fazer. Algumas pessoas não podem meditar porque elas podem entrar em surto. É desse ângulo que eu vejo. Algumas pessoas não podem fazer terapia verbal, psicoterapia. A pessoa jamais poderia ter uma psicoterapia verbal, porque vai acentuar determinado tipo de problema, então teria que fazer abordagens corporais. Para outras o ideal é uma psicoterapia verbal mesmo, e não tocar no corpo, porque isso vai suscitar um monte de coisas. Então há vários lados, nem isso, nem aquilo, nada de radicalismo.
Jornal - As pessoas falam tanto em respeito e não respeitam e querem nos pegar e nos transformar naquilo que elas acham correto.
Dr. Paulo - Na realidade quando a pessoa usa esse discurso, existe um preconceito. Ela é preconceituosa, então se ela tem uma postura de jogar pedra, digamos na ciência, é a mesma postura de uma pessoa da ciência jogando pedra. Os dois não se comunicam, os dois são preconceituosos. Porque existem evoluções dentro do ponto de vista da ciência que são fantásticas e há muita gente boa no meio científico que faz autocríticas, que está sempre no processo de revisão.
Jornal - Há a questão da cultura, as pessoas acham que estão centradas em determinado tipo de teoria e de repente elas não precisam mais ver nada.
Dr. Paulo - É a tendência de parte dos seres humanos que se desenvolveram com uma visão sectária. Aí o sectarismo faz você cair para o dogma como se aquilo fosse a grande verdade e você se torna o dono da verdade e começa a fazer proselitismo, que é uma coisa que perturba todo mundo. Você começa a doutrinar e corre o risco de perder a autocrítica. Há outro problema sério que é o você parar de estudar. O que é estudar? Quando você estuda, você reflete, você questiona, você pondera. Isso é que eu chamo de estudar, não você decorar livro. É o “poder comparar”. Então ciência é uma questão que a gente traz dentro da antroposofia que é a seguinte: é uma profunda saúde da razão, isso é um ângulo que a gente preconiza, por isso a razão do exercício meditativo onde tem que se estar muito bem autoconsciente. Se você vai se tratar através da consultoria biográfica, você se aprofunda na sua consciência para transpor a um futuro onde se palpa o seu chão e o delimita. Se você for refletir sobre o mundo deverá haver o máximo possível de uma razão límpida, clara, através da qual o pensamento vai até o fim para sair um pensamento correto, um raciocínio adequado e no qual você também enxergue os diversos pontos de vista. Steiner diz que nas observações você vê um determinado problema ou qualquer coisa de doze ângulos diferentes, então significa que quando você vai reunir um grupo de pessoas para falar de determinado tema, aquelas pessoas que às vezes são discordantes de você são aquelas com as quais você aprenderá muito. É preciso valorizá-las ao extremo, porque elas vão aguçá-lo, vão despertá-lo, acordá-lo. A partir do momento em que você é questionado, você vai comparar o que você tem de bagagem e o que o outro está trazendo.
Jornal - Que tipo de leitura temos em Rudolf Steiner?
Dr. Paulo - Ele tem livros que foram publicados por ele e tem várias conferências que foram transcritas. Ele deixa bem claro que ele colocou aquilo dentro de uma cultura européia. Ele nasceu lá, ele vivia lá e lá era o centro cultural da época. Então ele diz que sua linguagem está inserida num contexto europeu. Algumas pessoas criticam-no por causa disso. Esses primeiros livros são livros de difícil leitura, você tem que fazer um exercício intelectual muito forte, ele fala que isso já é um exercício preparatório. Existem outros que tem uma linguagem mais acessível, por exemplo, o livro meditativo que ele lançou é de linguagem totalmente acessível e de fácil compreensão. Então os primeiros livros vão fazer você quebrar um pouco a cabeça para entender. Ele dá muita importância ao raciocínio, até porque como ele se doutorou em filosofia ele traz muito esta questão de um pensar sadio. Seria esta a questão básica da antroposofia. Ele mesmo fala que você fazendo este exercício já está fazendo o preparo interno. Quanto às suas diversas conferências são de fácil acesso e enfocam outros assuntos.
Jornal - Que ligação é estabelecida entre Goethe e a antroposofia?
Dr. Paulo - Bem, Goethe viveu duzentos anos antes de Steiner. Em um determinado momento da vida de Steiner foi-lhe sugerido por um professor que ele organizasse o espólio de Goethe, que tem um grande peso na cultura alemã e aí ao levantar o espólio e ler toda a obra de Goethe ele descobriu que ele tinha uma metodologia de observação da natureza que hoje chamamos de goetheanismo. Steiner descreve a metodologia de Goethe, só que o Goethe não deixou isto metodizado. Exemplifiando, Goethe chegava na janela e falava que ia chover em duas horas e, exatamente em duas horas caia um temporal. No Nordeste há umas pessoas com esta capacidade - saiu uma reportagem no jornal “O Estado de São Paulo”, que conseguem antever chuva com dois anos de antecedência. Eles superam qualquer computador, qualquer coisa. São indivíduos que tem essa capacidade. Rudolf Steiner chama isto de capacidade imaginativa. Como, por exemplo, o DAIME. O DAIME é feito de plantas de lugares geograficamente distantes. Existiu alguém que descobriu que pegando uma planta do nordeste, outra do cerrado, uma da Amazônia e misturando tudo, isto teria um efeito, mas se tomasse separadamente não aconteceria coisa alguma. Do ponto de vista médico é uma beberagem alucinógena. Ela só é alucinógena porque você fez a mistura. Então, alguém teve a percepção de saber que essas plantas de locais geográficos muito distantes no Brasil, dariam uma beberagem que vai levar você, sob o ponto de vista médico, a ter alucinações e que dentro da concepção do Santo DAIME, você vai entrar em contato com o mundo espiritual. Então o goetheanismo seria essa metodologia de você ler na natureza o que ela está querendo dizer. Há cursos para desenvolver esta metodologia. Isso serve para você fazer pesquisa de planta medicinal, observar a planta na natureza durante algum tempo, vai ver a relação dela com seu habitat; assim vai se fazendo uma observação contínua até o momento em que ela diz para você: eu sou isso.
Jornal - Foi o que aconteceu com o Dr. Edward Bach.
Dr. Paulo - Creio que sim. Ele teve uma percepção que chegou a esse ponto, conseqüentemente ele tinha essa capacidade. No caso dele imagino que seja inato, assim como Goethe desenvolveu todas as pesquisas dele. O Steiner metodizou o que o Goethe nunca tinha metodizado. Mas isto do ponto de vista da evolução steineriana seria o primeiro passo, você ter essa capacidade. E é uma discussão entre nós na medicina antroposófica de usar o goetheanismo dentro da medicina, mas isso não está estruturado. É claro que a gente acaba tendo insights dentro da medicina, mas eu penso que isso tem a ver com o desenvolvimento de qualquer médico. Você observa isso em qualquer médico alopata, com o envelhecimento ele vai tendo uma “percepção” intuitiva muito forte e às vezes por intuição ele faz a coisa certa, mas dentro da antroposofia isso é exercício nosso, exercício consciente ativo.
Jornal - E a biografia do ser humano em Rudolf Steiner?
Dr. Paulo - Ela parte do princípio de que já que somos seres espirituais, e aí também a antroposofia tem uma base reencarnatória. Quando você vai estudar a biografia você parte do momento zero. Você olha o seu momento de nascimento e não faz nenhuma elocubração quanto ao conceito de reencarnação, ou seja, para trás, embora a gente tenha este conceito, além do carma. Então, parte-se do princípio de que você tem o momento inicial que é o do nascimento, no ambiente familiar, no ambiente de uma determinada cidade e a partir disso você vai construindo sua própria vida à medida que vai crescendo, sendo que sendo criança, você não tem muita noção de si mesma. Tudo é meio enevoado. Você não sabe quem é, do que gosta e do que não gosta. Então você tem um determinado preparo na vida até que o seu eu, que é sua individualidade suprema, ou que pode ser chamado de espírito, nasça para a sua própria vida. Até então você estava formando seu próprio corpo, você estava crescendo, desenvolvendo o seu próprio corpo e você não é dono de si mesma. Então, há o ponto em que paramos de crescer fisicamente e nos tornamos donos de nosso próprio nariz. Chega uma hora em que se está pronto, digamos assim. Estando pronto fisicamente vem uma segunda etapa de vida que significa ir para o mundo e fazer o contato dos relacionamentos. Buscamos fora de nós um contato diretamente com as outras pessoas do mundo. É como se buscássemos um certo feedback, um espelho de nós mesmos no contato recíproco. Aparamos então algumas arestas. Estamos naquele processo de experimentação e busca, então isso seria uma segunda fase de vida. E a terceira grande fase da vida seria quando já nos desenvolvemos fisicamente, já nos desenvolvemos nos relacionamentos humanos e nesse primeiro ciclo de vida absorvemos muito, crescemos, recebemos dos pais, a educação, tudo isso. Na segunda faz-se uma troca porque você recebe e oferece e na terceira é como se você realmente estivesse pronto no sentido de que agora você é uma pessoa adulta e aí se vai para o mundo, sabendo quem você realmente é, o que você tem de muito bom e o que você tem de debilidades. O que permite a você exalar o que você tem de genuinamente bom. E isso, essas fases tomei como três grandes fases. Elas se fazem em ciclos de vida de sete anos, chamados de setênios. Então nos três primeiros setênios de zero a vinte e um anos você cresce, absorve o mundo, de vinte e um a quarenta e dois anos é a questão do relacionamento com o mundo para você se amadurecer psicologicamente e, pós quarenta e dois anos e daí para frente mais três setênios você pode ir para o mundo e firmar-se como individualidade consciente de si mesma. Assim, numa ascendência biográfica em uma linha de autodesenvolvimento, isto significa que todas as dificuldades, sejam trazidas pelo mundo ou advindas de suas próprias dificuldades, te denotam como co-participante disso tudo. Então tanto nos problemas internos quanto nos problemas externos você é tanto o ator que está lá no palco, quanto é o diretor. Você sente isso a partir do momento que você faz o levantamento biográfico. Aí se pode ter a seguinte percepção: “puxa fui eu que abri a porta para esse determinado tipo de problema”. Isso é muito interessante, porque muitas vezes você saí do papel de vítima que é uma tendência do ser humano. Existe também um processo através do qual se enxerga as doenças. Os distúrbios são referências de aprendizado interno porque a doença te segura, ela te prende um pouquinho e ai há oportunidade de fazer uma introspecção, uma observação de si mesmo e a partir de quando você souber o que te diz o teu adoecer, então se dá um passo para frente. É claro que um adulto faz isso através de uma crise existencial. Eu estou com quarenta anos, pego uma doença grave, fico dois meses parado ou, de repente eu quebrei a perna, tenho o “azar” de ter quebrado a perna. Depois de dois meses eu recomeço a minha vida com dificuldade; passados dez anos do evento, rememoro-o e eu observo que se não tivesse quebrado a minha perna dez anos atrás não teria tomado determinado rumo, então eu observo que aquilo é positivo. A criança faz isso muitas vezes através de febre, ela se modifica várias vezes através de febre. Se você às vezes deixa uma febre evoluir por si mesma - com cuidados claro - e quem é pai pode observar isso, às vezes uma criança fica com febre sete dias, passado algum tempo depois da febre, ela fez uma aquisição anímica, ou uma qualidade motora. Não sabia fazer determinada coisa, passada a febre ela cresce e se desenvolve. Isso é uma realidade. Dá uma espichada e adquire uma habilidade, seja motora ou intelectual. A biografia é assim. O levantamento biográfico serve para quando estamos doentes, com uma crise existencial, para se autoconhecer. Tentamos achar o seu fio de linha na nossa vida e assim podemos olhar de novo para o futuro. Sempre essa temática. Se eu estou em crise neste momento, se estou passando por um sufoco, o que isso significa para mim na história da minha vida e de que maneira eu me coloco lá no futuro! Isto vai demandar um ato de coragem. Toda vez que você olha para o futuro, você vai para o lado incerto, mas de certa maneira isto tudo está dentro de nós, fomos feitos para evoluir. Estamos sempre ligados a buscar coisas novas. Cada vez que você tem uma determinada crise e a supera, você vai ter teoricamente a possibilidade de ter outra crise lá na frente para você passar por um outro degrau. Não significa nunca que você está pronto; uma vez galgado um degrau você procura outro degrau para continuar evoluindo.
Jornal - Aprendemos que dá para fazer, dá para cair e levantar de novo.
Dr. Paulo - Exatamente. Esses sete anos no adulto não funcionariam tão marcadamente quanto com a criança. Mas funciona para todos nós. Durante algum tempo damos um valor imenso para alguma coisa, ou para algumas pessoas e depois de algum tempo elas passam a não ter tanta importância. Isto significa que muitas vezes encontramos determinadas pessoas na vida que são importantes: vamos buscá-las, ou elas aparecem na nossa vida e chega um momento em que elas vão embora. E aí significa que você passa para uma outra fase, você está diferente e isso é uma realidade. É sempre uma metamorfose. Percebemos o que isso significa pessoalmente nas nossas vidas. Do ponto de vista das relações conjugais, das nossas relações com os filhos, por exemplo, nas relações entre casais, nunca vão ser as mesmas. Elas vão estar sempre passando por modificações porque nós estamos ficando diferentes e eles também. Todo mundo vai ficando diferente.
Jornal - Esse trabalho com a biografia em quanto tempo dá para fazer?
Dr. Paulo - Ele é feito individualmente em encontro semanal até terminar toda a biografia da pessoa. Aí claro que há alguns trabalhos internos relacionados a isso, ou, pode ser feito em pequenos grupos de três pessoas, onde começamos no início do semestre e vamos até terminar a biografia de todo o grupo. Aí é um trabalho do grupo, o trio junto comigo, vamos caminhando em torno de uns três meses mais ou menos num encontro semanal. Há trabalhos artísticos a serem feitos. Há o trabalho de escrever a própria biografia também.
Jornal - Esta terapia em grupo dá certo, não é um pouco estranho trabalhar com pessoas estranhas?
Dr. Paulo - Não, não é. A princípio pode até dar uma certa estranheza, com sentimentos que nossa privacidade vai estar sendo devassada, mas se as pessoas superarem esse temor vale a pena fazer em grupo. É uma oportunidade ímpar de você ouvir a história de outra pessoa. Dificilmente a gente tem essa oportunidade, isto não é passado na televisão, visto num teatro. Trata-se de alguém contando de viva voz. Com isso você obtém um monte de insights sobre a sua própria vida e você sai um pouco da esfera egoísta e olha um pouco para o outro. Você começa a olhar de uma outra maneira para as outras pessoas, assim como também quando você ouve a história das outras pessoas, você pode de uma maneira bastante suave oferecer algo para a pessoa em troca no sentido de alguma observação e, aí, quando se faz isso em pequeno grupo, existe uma interação que acaba se tornando muito rica. Você se olha através da história do outro. Isto acaba sendo uma experiência muito positiva e, é uma oportunidade também das pessoas abrirem o coração, de uma maneira madura o que permite que surjam bastantes coisas interessantes, como por exemplo: não existem estórias humanas desinteressantes. Às vezes em nossas relações de antipatia e simpatia a gente gosta ou não de determinadas pessoas, ou, a gente exerce mais ou menos isso, ou a gente acha que algumas pessoas são desinteressantes, mas se você permitir que as pessoas contem as suas histórias pessoais, você vai ver que todas são muito interessantes, que há todo um colorido bastante individual e acaba que às vezes você tem um feedback com isso..
Jornal - E para as pessoas que tem dificuldade em se lembrar do passado?
Dr. Paulo - A maior dificuldade em lembrar está relacionada aos primeiros sete anos, mas durante o processo de contar as histórias, acabam acontecendo insights, reminiscências, lembranças. Evidentemente algumas pessoas não se lembram de determinadas fases, mas também não nos preocupamos em ter tantos detalhes. O importante da biografia é você fazer um panorama geral e, nesse panorama geral você perceber o fio que conduz a sua vida inteira. E aí todo mundo se percebe, mesmo as pessoas que tem uma certa dificuldade de autodirecionamento. Elas percebem que existe uma história com determinados caracteres e a partir disso elas tem uma noção maior de si mesmas e, podem projetar o futuro diferente. Entendeu? Elas falam: “eu caminho para esse lado, ou vou ter esse tipo de comportamento” e, a partir dessa consciência ela diz: “não, agora vou trabalhar o meu futuro” de uma maneira bastante consciente, para evitar isso ou aquilo. Faz-se uma escolha bastante rápida e diferente da psicanálise onde se escarafuncha o problema. Achamos que há determinados problemas que devem ser esquecidos mesmo. Não importa o detalhe, importa o todo. É um panorama geral, é como se você subisse em uma montanha e conseguisse ver a história da vida inteira, com uma visão do alto.
Jornal - É um dar-se conta de que tudo é importante?
Dr. Paulo - Sim, também. Porque há tendências a acharmos que a nossa vida é terrível, de justificarmos os problemas colocando a culpa na vida. Aí, caímos num grupo biográfico e vemos que a história de uma pessoa é trágica, tragédia atrás de tragédia. Às vezes nos deparamos com pessoas que superaram um câncer; tiveram grandes problemas na vida e estão lá inteiras, sorrindo, bem humoradas. Isto é uma lição de vida. Aí você diz: vou mudar meu discurso.
Jornal - Aí essas pessoas entram em contato com o senhor, como é que o senhor veicula isso?
Dr. Paulo - Eu não tenho veiculado porque não tenho tido muito tempo, mas para o ano que vem já estou me estruturando para isso. Eu havia feito essa tentativa anteriormente só que foi um projeto muito grande para Ribeirão Preto. Seria um processo de formar um grupo, colocar onde tem hospedagem e em quatro dias terminar o processo. Mas não deu certo, porque acho que é muito ambicioso para o momento. Então abri essa oportunidade de fazer semanalmente onde as pessoas me procuram e falam da intenção. Assim que eu tiver três pessoas para formar o grupo, pessoas dispostas a assumir um compromisso de caminharmos juntos por um período de três meses, responsabilidade esta fundamental para a continuidade dos trabalhos. E trabalhamos também o individual para quem não quer o grupo. Reunimo-nos toda semana até montar toda a biografia. Eu sugiro fazer o de grupo, é muito mais rico. As pessoas que quiserem podem entrar em contato comigo.
Jornal - Como presidente da Terra Viva o que pode nos contar sobre suas atividades.
Dr. Paulo - Dentro da Terra Viva eu já estou buscando há alguns anos colocar uma fórmula administrativa que é a trimembração social do Rudolf Steiner. Ele faz uma comparação da sociedade com o ser humano. Essa analogia do ser humano com a natureza que é organizar de uma maneira adequada e saudável o âmbito da produção material, seja ela qual for, o fluxo disso e o consumo que seria o término disso tudo. Então a idéia é que você produza, tenha o fluxo e o consumo. Do ponto de vista agrícola há o produtor agrícola, o distribuidor e o consumidor do produto. Conseguimos ver isso dentro da sociedade, onde nós nos encaixamos. Portanto, eu como médico sou puramente consumidor. O quê eu produzo de material? Nada. Então, para a sociedade do ponto de vista de um produtor, eu sou um consumidor e, do ponto de vista antroposófico eu sou sustentado pela sociedade, porque a comida, a roupa, bem... eu não produzo nada disso. O professor pega uma criança e o que ele oferece a ela nem ele vai observar a não ser que ele encontre o ex-aluno quando ele estiver com mais idade, mas teoricamente ele vai dar aula acreditando que está preparando um bem espiritual para aquele ser humano lá na frente. Então, digamos assim, o professor ainda é mais consumidor desse ponto de vista, da linha espiritual, do que o médico.
Dentro da Terra Viva estou buscando isso, que a gente reúna os produtores agrícolas, os distribuidores e os consumidores até fazer uma relação mais justa e sair um pouco desta loucura em que está a economia selvagem em que a gente vive, onde as pessoas ditam por determinada força de poder o preço das coisas. E numa associação como esta você vai buscar o que é justo para todas as pessoas, o que cai dentro do conceito de desenvolvimento sustentável atual. O projeto da Agenda 21 foi montado em 92 no Rio, foi bombardeado agora na África do Sul e não saiu nada. É o respeitar a natureza, fazer uma produção respeitando a natureza, ser ecologicamente correto. Aí você tem que fazer um alimento sadio para o ser humano, preservando a natureza e as relações econômicas têm que ser justas. Dentro da Terra Viva, não é permitida a exploração do ser humano. Então você não parte do principio de que alguém vai ter lucro, você parte do princípio de justiça. Então por isso achamos que vai haver uma relação social mais correta, vai haver um alimento bom, alimento orgânico e vai baixar o preço. Hoje o alimento orgânico é caro porque os supermercados sabem que o público que consome é diferenciado e jogam o preço lá para cima; uma profunda distorção. Com a Terra Viva achamos que vai melhorar esse aspecto e já entramos em contacto com a Prefeitura. No início deste ano vai sair a feira. A Prefeitura está engajada no projeto também. Devemos ter um entreposto para a produção das cestas. Eu já penso em uma entrega domiciliar. As pessoas ligam, montam a cesta e ela vai para a casa delas; assim também como a feira livre só de produtos orgânicos. É uma associação aberta para todos. As reuniões da Terra Viva são todas as quartas-feiras às 19h15 no Sebrae. Estamos numa fase de organização interna. Temos a intenção de fazer um processo de conscientização muito grande.