Escrito por José Roberto Ruiz
Homeopata e Mestre em Pediatria pela USP
Jornal – Quais são suas áreas de atuação?
Dr Paulo Ramos – Além da Pediatria clínica, atuo em duas frentes que dizem respeito principalmente à área social. Um trabalho é o Ribeirão Criança da Prefeitura de Ribeirão Preto, que vai completar dez anos no próximo ano; e agora, também na Prefeitura, temos desenvolvido um projeto para adolescentes, de aprendizagem profissional. Este é um trabalho bastante interessante e traz algumas alternativas que são vistas até por outras comunidades como inovadoras, que ajudam a auto-estima e promovem o que é chamado de protagonismo social. O adolescente construindo sua própria história, dentro da comunidade. Esse é um trabalho de que participo e ao qual me dedico muito; ele acaba ampliando o que é considerada a atuação habitual do Pediatra. Não é muito comum pediatras estarem envolvidos com projetos sociais, assim. Eu conheço muitos projetos em várias cidades e as pessoas se surpreendem quando ficam sabendo qual é a minha formação profissional.
Jornal - O programa atende a uma classe social específica de adolescentes?
Dr. Paulo Ramos - Ele atende a adolescentes cujas famílias enfrentam problemas, famílias que estão vivendo situações de dificuldades não apenas sócio-econômicas, mas problemas de relacionamento, alcoolismo, envolvimento com drogas, o que gera um universo em que é bastante difícil encontrar respostas prontas. Então é necessário ser muito criativo. São necessárias alternativas que possibilitem a esse adolescente crescer. Nós buscamos formar estruturas de apoio, redes sociais, inclusive para que os adolescentes consigam estar no programa e consigam continuar no programa.
O trabalho tem sido bastante gratificante. Mesmo com pouco tempo, o programa de aprendizagem, que chamamos de “Braços Abertos”, foi premiado, já foi considerado pelo Ministério do Trabalho no ano passado como modelo de aprendizagem para todo o Brasil. Nós fomos a Brasília e participamos de um seminário exatamente para mostrar o programa para o Brasil inteiro.
O Ribeirão Criança já havia obtido um prêmio também muito importante há alguns anos, logo depois da sua criação, que foi o prêmio Criança e Paz, do Unicef, mostrando que é um programa que tem um impacto grande, bem organizado, bem pensado. Isso tudo dá uma satisfação muito grande e abre portas, permite uma visão um pouco mais ampla da atuação do pediatra. São focados outros determinantes, outras visões, uma visão holística da pessoa, da criança, da família, o que é muito útil.
Por conta dessa experiência também fui convidado e trabalhei durante alguns anos dentro da Febem. Era o Projeto Amanhã, com a participação do juiz da infância e juventude Dr. Paulo César Gentili, do promotor que é o Dr. Luiz Henrique Pacini Costa, da Sueli Danhone da Casa das Mangueiras e durante algum tempo desenvolvemos algumas oficinas de arte-educação, esportes, informática. Trabalhamos com a TV Futura que trouxemos para a Febem de Ribeirão, e foi um processo muito gratificante que criou oportunidades para os adolescentes buscarem novos caminhos. Dando prosseguimento a esse projeto com a Febem, em 2002, nós abrimos uma frente aqui fora, “no mundão”, como dizem os adolescentes. Dentro da Febem é um trabalho e fora da Febem o esforço é o apoio ao jovem, o retorno à escola, a entrada no mercado de trabalho. É trabalhar para que eles se insiram e participem.
Esse trabalho que se chama “Projeto Atitude” é desenvolvido por um grupo que nasceu no Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia da USP e que está atuando no Ribeirão Criança. Eles atendem a adolescentes e jovens que tiveram passagem pela Febem. É um desafio grande, enorme, mas acho que estamos aprendendo bastante.
Jornal - A dificuldade maior é os adolescentes se adaptarem ou a aceitação da sociedade?
Dr. Paulo Ramos - As duas coisas são verdadeiras. Eles às vezes têm dificuldades em aceitarem nossos valores e existe até um preconceito deles com relação ao que consideram o mundo do nosso lado. E “deste lado de cá” observamos, também, um preconceito muito grande, das pessoas de um modo geral. A relação com a polícia tem suas dificuldades. Nós temos feito um esforço com o comando da PM, um esforço de aproximação com esse projeto e não é muito simples, até porque alguns policiais já participaram de ações contra esses mesmos adolescentes. Há situações difíceis, de policiais que morreram em conflitos com adolescentes, as famílias ainda sofrem muito e nós ficamos sensibilizados com essa dor, então não é muito simples, mas achamos que é preciso buscar caminhos. Se fecharmos todas as portas, a violência só crescerá. Daí a nossa preocupação de tentar essas alternativas.
Jornal - Os profissionais que participam ou querem participar desse programa devem procurar alguém em especial?
Dr. Paulo Ramos – Os programas são abertos à participação. Nós já temos o apoio de muitas pessoas, inclusive empresários que oferecem vagas para adolescentes. Pode parecer que isso é raro, mas posso dizer que não é tão raro assim. Há pessoas que querem ajudar. Por exemplo, na hora em que um empresário oferece uma vaga ele sabe que não vai só exigir o trabalho do adolescente, ele vai ter que dedicar um pouco de atenção, apoio, ajudar o adolescente a repensar sua vida futura e nem sempre é muito fácil. Às vezes o adolescente é pressionado para voltar para o mundo do crime, das drogas, uma disputa que é desproporcional.
Os empresários que apostam na possibilidade de ajudar têm um grau de gratificação muito grande porque eles se sentem felizes com o resultado que a maioria consegue. E há empresários que se envolvem com a busca de escola, com a questão relativa a transporte e outras coisas.
Também é possível contribuir com os outros projetos. Nós temos pessoas que doam brinquedos, alimentos, material escolar. Os voluntários trazem o entusiasmo às oficinas de arte, educação e esportes. Há um grupo de profissionais que propôs a formação de uma escola de pais, alguns dias atrás. Eles querem oferecer seu conhecimento para ajudar as pessoas em coisas como administração doméstica. São economistas, administradores que se dispõem a ajudar as pessoas a administrarem o orçamento. Há nutricionistas que querem ajudar com orientações sobre os alimentos. São grupos que podem ser organizados rapidamente e que gostariam de ajudar. Vamos conseguir. Há uma possibilidade enorme e é muito interessante. Porque a população pede isso. Quando fazemos reuniões de pais eles gostam demais de participar, porque conversamos sobre dificuldades, o cuidar de filhos, de suas casas, do relacionamento. O ouvir atentamente, falar uma palavra, fazer uma orientação, podem ajudar bastante e trazer conforto. Eu acredito muito nisso.
Na vida temos que ter disposição para aprender. Quem quer ajudar na cura precisa saber entrar no universo do outro. Você tem que estar muito disposto a aprender com a dificuldade que o outro tem e que é diferente da sua. Isto está na essência tanto dos trabalhos comunitários quanto dos trabalhos sociais de que tenho participado, bem como dentro da própria Medicina. A capacidade de aprender, de ver a vida sob o ponto de vista do outro. Você apreende o quanto a angústia, o medo, a ansiedade são concretos, reais. Não é algo imaginário, é algo que tem repercussão na vida daquela pessoa.
Estou fazendo formação em terapia sistêmica com um grupo alemão, dentro do pensamento de Bert Hellinger. Essa formação acrescenta ferramentas importantes na atuação profissional, com abordagem mais holística. Na formação floral, por exemplo, o mais importante não é o remédio floral, o mais importante é a visão de saúde e de doença, a perspectiva que se tem do ser humano e do terapeuta. Isso sim é muito importante. O grande problema de tratamentos que não curam no que diz respeito aos florais é que algumas pessoas evitam enxergar o todo, elas se concentram nas gotas e acham que essa é a solução para todos os males.
Jornal - Tenho notado a comparação com a medicina tradicional, as gotas vão curar a minha dor específica.
Dr. Paulo Ramos – Nesse caso, o uso está errado, o propósito, o diagnóstico, a interpretação dos sintomas. E a cura começa com um bom diagnóstico.
Jornal - Existe um desconhecimento por parte da pessoa e uma negligência do terapeuta em informar corretamente?
Dr. Paulo Ramos - O que se observa é que existe muita gente competente, que estuda muito e isso ajuda muitas outras pessoas. Mas, algumas pessoas querem os florais trabalhando como remédios alopáticos, um tratamento que combata uma doença ou sintoma. O princípio fundamental do floral é a harmonização, o equilíbrio da pessoa. Você não combate a doença, mas ajuda a pessoa a encontrar o seu equilíbrio, seus canais de cura. Você não vai tratar nenhuma doença que esteja acometendo a pessoa, você vai ajudá-la a encontrar a forma de se curar, de restabelecer o bem-estar, o equilíbrio. A abordagem não é muito simplista, vou tentar explicar. Por exemplo, o pânico, para as pessoas que sofrem de crises de pânico, dizemos que além da coragem, ela precisa desenvolver a capacidade de fazer bem para alguém. Quando se é capaz de fazer algo de bom seja para outra pessoa, ou para a vida, há um equilíbrio em relação ao medo. Aparentemente não há paralelo entre uma coisa e outra; mas fazer o bem tira a pessoa do medo, ao alimentar o sentido transcendente da vida.
Na terapia floral, sempre existe algo que depende da própria pessoa, uma mudança de atitude, algo novo que precisa ser feito. Em todos os desequilíbrios que a terapia floral trata é necessário que a pessoa saia da inércia. Ela precisa agir positivamente.
Outro exemplo, uma pessoa controladora e autoritária, que se sente inconformada porque as coisas não acontecem como ela havia planejado e passa mal, tem crises de hipertensão ou problemas de coluna, eventualmente pode ser alguém que precisa aprender a dar liberdade ao outro, que deve permitir que o outro viva a própria vida, livre do seu controle. Isso traz cura, traz alívio. E alguém pode perguntar se isso é tão importante assim. Realmente é muito importante. Organicamente essa pessoa poderia desenvolver doenças físicas, mentais. Então a terapia floral vai ajudá-la a ter consciência do que ela está fazendo com a própria vida. À medida que adoece, está sendo mostrado o que está fazendo com sua vida e qual é a mudança de atitude necessária, pois não existe cura sem mudança de atitude.
Eu acho que a grande característica de sermos humanos é que nós temos a dimensão do fazer. Nossos atos concretizam a nossa existência, eles permitem criação a partir do mundo abstrato, aquilo que nós fazemos e não fazemos deliberadamente é o que há de mais concreto na nossa existência. O que fazemos é transformador. Para a existência humana, a função primordial do ser humano, me parece, é a de transformar em atos aquilo que está no coração, no pensamento.
Jornal - Na realidade as pessoas querem uma varinha mágica. Elas não querem se envolver. Quando o que se pede delas é exatamente que elas se envolvam.
Dr. Paulo Ramos - A grande crise da medicina ocidental é que ela não consegue ser financiada com os recursos existentes. O custo do sistema de saúde, em qualquer país, é muito alto, e no Brasil temos um sistema que por lei deve ser universal, tem que atender a todos com os melhores recursos, a melhor tecnologia.
A pessoa fuma e vai ao médico e quer que exista um xarope que cure sua tosse, a pneumonia que possa ter, o enfisema e o câncer que poderá ter. Então é o remédio que vai ter que curar, e o paciente vai tomar o remédio e continuar fumando.
Esqueci-me de dizer que o médico tem que atender nos primeiros minutos em que o cliente chegar ao Posto de Saúde. Quer dizer, uma pessoa fumou a vida inteira, está com febre há sete dias, mas quer ser atendida nos primeiros minutos, e o médico tem que atender rapidamente, os exames devem ser pedidos logo e feitos com urgência, o remédio tem que sair rapidamente para voltar para casa e fumar. Esse é um raciocínio presente.
Geralmente os gerentes dos sistemas de saúde, ao longo desses anos todos no Brasil, entenderam que temos que ampliar o número de prontos-socorros, ampliar o número de vagas para pronto atendimento, mais leitos de hospital, dispor dos remédios mais caros que existam no mundo, dos exames mais sofisticados. Entretanto o resultado que se consegue não significa mais saúde. Os ambulatórios e os hospitais não são de saúde, eles estão remediando doenças, mesmo porque a esmagadora maioria das moléstias não são curáveis.
Jornal - Não seria interessante que as pessoas fossem elucidadas sobre a questão do que é realmente saúde?
Dr. Paulo Ramos - Parece-me que isso seria muito complexo, porque as pessoas que utilizam o sistema e os profissionais que trabalham nele acreditam nessa forma de abordagem. Acreditam no superpoder do antiinflamatório, na potência do antibiótico como uma bala mágica. Há ainda a questão da remuneração que é muito baixa. Mesmo nos convênios, a consulta clínica é mal remunerada. Na verdade, o que deveria ser valorizado é a consulta. Em compensação, para um exame complementar pode ser pago o que mesmo que para vinte, trinta consultas. Em um procedimento cirúrgico, você multiplica isso por muitas e muitas vezes. A pressão econômica é muito forte até nas nossas escolas médicas. Alguns professores fazem treinamentos fora do Brasil e aprendem a utilizar os equipamentos mais sofisticados. Quando voltam do exterior, suas pesquisas e suas aulas mostram a necessidade de utilizar esses procedimentos, de importar tecnologias. Os estudantes e os médicos acabam sendo influenciados por esse tipo de raciocínio nas aulas e nos congressos. A imprensa vira e mexe mostra que saiu um novo equipamento e a população é convencida a achar que isso é fundamental. É um matiz cultural muito complexo.
Será que nós que somos profissionais com uma visão de saúde mais preventiva, menos invasiva, estamos um pouco mais preocupados com a capacidade de cura que existe nas pessoas, será que nós não deveríamos ocupar mais o espaço de divulgação? Ir às escolas, participar de reuniões, participar de projetos sociais, trabalhar com palestras?
Este Jornal, por exemplo, é um excelente modo de levar essa informação, essa visão a muita gente. Este é um processo de transformação a longo prazo. Mas tem que ser feito.
Temos que ter uma visão mais holística.
Quando falamos em campanha de paz, todos trabalhando a favor da paz, numa cultura de paz, a favor da vida, incluímos nisso o pessoal da saúde. Porque a paz é saúde também, a paz é uma expressão forte de saúde. Paz e saúde mental andam juntas. As pessoas que promovem a guerra são as mais desequilibradas, as mais imaturas. Veja a violência no trânsito, quanto mais violência há no trânsito, mais se tem a expressão de desequilíbrio de uma determinado grupo populacional, menos paz está no coração das pessoas.
Devemos ter uma participação mais ativa nessas questões de paz, de ecologia, saúde holística. Precisamos defender mais o acolhimento das pessoas pelos profissionais de saúde, mais dignidade de vida nas condutas terapêuticas propostas. Será que precisamos de tantos remédios, tantos exames, tantas internações, tantas cirurgias?
Quando se toma como exemplo algumas cidades do Brasil, e o número de cesarianas chega a ser muito superior ao número de partos normais, isso não é um bom sinal, é um mau sinal. Deveria ser um escândalo, um sinal de baixa qualidade de saúde, de violência. Muitos médicos dizem que é a paciente que pressiona porque tem medo do parto normal, mas nós temos que orientar essas mulheres em relação ao medo que elas têm, em relação à dor que elas sentem. Hoje existem técnicas e recursos que previnem, que diminuem bastante o sofrimento da mulher no parto. Se nós temos um sistema que não ajuda a mulher a ter parto normal na nossa sociedade e isto pode trazer conseqüências desastrosas para a mulher e para o bebê, deveríamos reagir.
Jornal – Cesarianas fariam parte de um processo sedentário?
Dr. Paulo Ramos - A falta de exercício contribui, mas há uma questão cultural de que o parto cesariana causa menos dor, sendo que a mulher depois da cesariana sofre bastante, com a cicatrização, com o tempo que tem que ficar de repouso, com as próprias dores que acaba tendo, a quantidade de medicamentos que acaba tomando, o risco que se tem, a cicatriz permanente. Mas, há outros componentes a serem considerados.. Nós não sabemos até que ponto a dieta dos nossos dias que é mais calórica e contém maior quantidade de componentes, pode estar aumentado a desproporção entre o tamanho da criança e o da mãe. Outra questão também são os hábitos de vida da mulher. O estresse, o ter pouco contato com o bebê durante a gravidez.
Ter pouco tempo para o bebê durante a gestação talvez estimule menos a criança.
Jornal - Essa é uma visão mais holística?
Dr. Paulo Ramos - É mais holística principalmente se considerarmos que o movimento do bebê dentro do útero é um fator estimulante da contração uterina. O movimento de nascimento não é somente passivo, em que o bebê é expulso, mas se sabe também que o bebê tem movimentos que são ativos, ele também se movimenta em direção ao nascimento e estimula a contração uterina. E um bebê muito pouco estimulado provavelmente teria mais dificuldades de nascer por parto normal?
Jornal - E o seu trabalho com floral? Como se insere neste contexto?
Dr. Paulo Ramos - Uso muito a filosofia, o raciocínio que embasa o trabalho floral. E todo o restante do atendimento até os remédios que vou usar, mesmo os remédios alopáticos, passam por uma visão mais holística, que a terapia floral traz. Uma visão do ser como um todo, o ser que está em busca do equilíbrio. Nos cursos e no livro “Sintonias Florais”, sistematizei esse raciocínio, mostrando algumas pontes com a filosofia oriental, o estudo de chacras, a acupuntura, a psicologia de Jung. Juntamos um pouco desse conhecimento, sistematizando em sete sintonias que facilitam o atendimento para compreender o que está acontecendo com a pessoa. Muitos que têm usado o livro dizem que ele tem ajudado bastante e que facilita o atendimento.
Jornal - Onde é que pode ser encontrado o livro?
Dr. Paulo Ramos – Alguns exemplares ainda estão disponíveis em farmácias. Ele foi escrito para aqueles que estudam florais, com uma linguagem que talvez não seja tão acessível a quem não conhece o assunto. Eu não queria que pensassem que iam encontrar a cura no livro, mas sim que os que tivessem acesso ao livro pudessem aprofundar um conhecimento. Assim acabamos divulgando o livro apenas entre pessoas que davam cursos de florais, para ser usado mais como material de apoio. Mandei alguns livros para grupos de estudos, pessoas que estavam pesquisando chacras.
Estou trabalhando num projeto de um outro livro, mais didático, mais simples, para leigos em geral, para professores, com algumas dicas, sem remédios, para lidar com situações práticas. Quero concluí-lo rapidamente. Já tenho muita coisa escrita. Será um livro de fácil manuseio, de fácil consulta, com algumas coisas bem básicas da terapia floral, para uso no dia-a-dia.
Jornal - Há projetos para cursos este ano?
Dr. Paulo Ramos – Tenho pensado nisso, mas queria um curso mais acessível a um maior número de pessoas, com custo mais baixo e com a participação de outros terapeutas.
Penso que poderíamos trabalhar para massificar mais a medicina holística, voltando à idéia inicial dessa entrevista. Imagine juntar as pessoas interessadas em fazer cursos de floral e as interessadas em ministrar, dividiríamos em etapas do mais básico até a formação terapêutica dependendo do interesse do grupo.
Há um princípio que deve ficar muito claro em curso sobre terapia floral: se não existe mudança de atitude, ou seja, se eu continuar a fazer as coisas exatamente como fazia, vou ter as mesmas doenças que sempre tive. Elas devem piorar, devem ficar mais crônicas, devem ficar mais intensas. Ou a elas se somarão outras, quer dizer, vou continuar doente. E não só fisicamente, também do ponto de vista mental, do ponto de vista energético. As doenças energéticas são difíceis de serem percebidas pelos leigos no assunto, mas elas também existem. Nós não adoecemos somente no físico e no mental. Existem coisas mais sutis nesse processo de adoecimento. Mesmo que a ciência não consiga codificar isso e dar nomes, há desordens que são muito gritantes, muito visíveis.
Jornal - Em um e-mail por nós recebido, foi feita uma colocação sobre o atentado de 11 de setembro nos Estados Unidos, dizendo que o acontecido na nossa realidade já ocorrera no plano “espiritual”.
Dr. Paulo Ramos - Pela própria maneira como a humanidade tem conduzido a sua existência, acredito que sim.
Jornal - Carl G. Jung em entrevista ao New York Times, em 1912, comentava que todo efeito tem sua causa e que os americanos a fim de realizarem seu grande império haviam sacrificado muitas coisas belas e que para edificarem um mecanismo tão grandioso estavam correndo perigo, o perigo de serem destruídos (C. G. Jung: Entrevistas e Encontros – Editora Cultrix).
Dr. Paulo Ramos - Isso tem sido falado sistematicamente, e um graduado militar americano disse há pouco tempo que os Estados Unidos podem ganhar a guerra contra o Iraque, mas eles vão perder a paz. Porque a rigor o belicismo gera desequilíbrio – e este é um princípio que o floral trabalha –. Entre os palestinos e israelenses acontece coisa semelhante. Eles vivem uma situação de lado a lado bastante tensa, cuja solução é difícil, com certeza, mesmo porque as diferenças são muito pequenas; e quanto menor a diferença, maior a disputa. O sofrimento que eles vivem é muito grande, mas a capacidade de saírem desta situação é muito pouco desenvolvida. A complexa solução do conflito dependeria de mudanças de atitudes bilaterais. Enquanto um dos lados achar que é o único certo e que todo o mal está do outro lado, não há solução possível. O esforço deve ser coletivo, todos querendo a paz. E o custo da paz é menor que o custo da guerra.
Os Estados Unidos foram se consolidando como potência econômico-militar, porque a economia e o militarismo deles estão muito associados, sendo muito importante a produção e venda de armas. Entre eles é muito forte esse pacto que existe entre o militarismo e a economia. Talvez não exista período da história americana moderna em que ele tenham vivido sem conflito. Eles estão sempre alimentando ou administrando um conflito e esta é uma característica americana forte.
Jornal - Parece que este ciclo está chegando ao fim.
Dr. Paulo Ramos – Dizem que o fim de uma potência começa com o declínio moral. Até a eleição fraudulenta do presidente Bush colocou sob suspeita o sistema democrático de que aquele país tanto se orgulhava.
A grande questão da guerra hoje é econômica, não pode faltar petróleo barato e o recurso bélico que têm é muito grande. Em 2002, a economia americana viveu os piores indicadores de toda a sua história, com uma balança que bateu recorde de déficit.
A situação colocada pela Coréia é mais perigosa para o mundo do que aquela do Iraque, porque a ameaça da Coréia contra a humanidade, no momento atual, é maior do que a do Iraque.
A questão é muito complexa, mas não podemos ficar alienados enquanto cidadãos do mundo e enquanto profissionais da saúde. Temos que ter uma postura de defesa da paz. Isso é integrante da nossa missão enquanto profissionais da saúde. Não podemos viver dentro de ilhas, de paraísos próprios, circunscritos aos nossos consultórios.
Mas há pessoas cada vez mais envolvidas com esse processo holístico. Hoje em dia, os programas que trabalham com prevenção, com profilaxia têm cada vez mais espaço. Há programas de entrevistas, programas de orientação que mostram que as pessoas querem isso, que gostam disso. É um aspecto bastante positivo de transformação, mas não acredito que seja a curto prazo a não ser que coisas muito grandes aconteçam.
Jornal - Essa guerra pode ser o grande catalisador.
Dr. Paulo Ramos - Pode ser, porque a própria manifestação pela paz no mundo inteiro é algo inusitado e nos confere a condição de cidadãos do mundo. Porque a pessoa que está protestando na Inglaterra, em Nova Iorque, em Sidney, aqui no Brasil, de certo modo ela se irmana numa ação em defesa do Planeta, da humanidade, da dignidade. Observe que não é um protesto apenas contra a guerra, mas também a favor da paz e entre esses dois pratos da balança existe grande diferença. Talvez essa ameaça de guerra esteja dando ao mundo uma condição muito importante, que é a globalização, mas não a globalização da economia e sim a globalização da defesa do equilíbrio, da ecologia, da paz, da saúde. Com o novo governo brasileiro, com o Lula, espero que também façamos a diferença no mundo, cuidando mais de quem mais precisa. Caminhando em busca da qualidade de vida e da saúde.
Quem sabe, com a iminência de mais uma guerra, estejamos dando o primeiro passo, no Brasil e no mundo, para a transformação de algo que era fundamentalmente desequilibrador.