Biodança para deficientes visuais

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“O homem não é só um olho”. Essa frase foi dita pela psicóloga Marlene Taveira Cintra.  Vale ressaltar que ela é deficiente visual por problemas congênitos. Ela e mais duas irmãs. É uma mulher de aparência delicada, mas ao olhá-la e principalmente ao ouvi-la e ao observar seus movimentos sentimos a força de que é movida. Decidiu fazer de sua deficiência um aliado. Talvez tenha se baseado no exemplo de sua mãe que não se abalou com o aparente “problema” das filhas. Ao contrário tomou-o como um desafio divino, uma forma de aprendizado e de crescimento, segundo nos contou a própria Marlene. Essa mulher admirável decidiu mudar a vida de outros deficientes visuais e parece encarar essa missão com muito zelo e principalmente com muito amor. Ela se empenha em prepará-los para a vida e para sua inserção na sociedade. Não é por acaso que ela é a Diretora da ADEVIRP – Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto.

A ADEVIRP conta com aproximadamente 173 alunos e atua nas áreas de educação especial com alfabetização pelo sistema Braille, leitura e escrita ampliadas, reforço escolar, aulas de inglês, espanhol, recreações e lazer. Conta com Oficinas Profissionalizantes tais como oficinas de informática e em fase de implantação o telemarketing; educação musical e cultural, vocalização, instrumentos musicais, grupo musical, literatura, poesia, dança de rua, balé, sapateado e biodança. Na área de Saúde possui atendimento psicológico, oftalmológico, fonoaudiológico, ortopedia, treinamento da visão subnormal, fisioterapia, musicoterapia e terapia ocupacional.

Dentre as várias atividades oferecidas aos deficientes visuais destacamos abaixo o trabalho que vem sendo realizado pelo Werner Robert Schmidek, Médico - Prof Associado apostado da Fac. Medicina da USP, Facilitador de Biodanza (*) credenciado pela International Biocentrie Foundation, de acordo com suas próprias palavras.

Uma utopia? Uma temeridade? Uma grande intuição? Foi com estas dúvidas em mente que decidi enfrentar um dos grandes desafios da minha vida.

Em 2003 eu estava terminando a minha formação de Facilitador de Biodanza. Um processo longo, que se completa com a realização de um certo número de sessões de biodança supervisionadas por Facilitadores-Didatas, sessões estas, idealmente realizadas com um grupo de iniciantes.

Mas, onde conseguir um grupo iniciante? E aí veio a intuição: por que não um grupo de deficientes visuais? Localizei a Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região (ADEVIRP), cuja Diretora, a psicóloga Marlene Taveira Cintra imediatamente se encantou com o desafio e me abriu as portas da Instituição para o projeto.

E foi aí que começaram as reais dúvidas: como efetivamente fazer sessões de Biodança com pessoas cegas ou que quase não conseguem ver?! Felizmente, um estágio inicial feito em São Paulo com a Facilitadora Rosely Cunha que já realizava um trabalho de biodança com deficientes visuais me apontou diversos limitantes e peculiaridades úteis a um projeto dessa natureza.

ADEVIRP, biodança e as crianças

Decidi trabalhar com as crianças, um grupo que achei mais facilmente adaptável à biodança. Antes de iniciar o trabalho efetivo, propus formar um grupo de monitoras; dando a elas uma experiência básica de biodança e só então incluir, para cada monitora disponível, uma a duas crianças com visão reduzida (não cegos totais). Com o nosso grupo inicial de sete monitoras e doze crianças, comecei então a montar aulas de biodança. Tive que adaptar não apenas o modo de demonstração dos exercícios propostos como também as formas de execução de diversos dos exercícios usuais. Por exemplo, num exercício de "olhar o rosto do outro" em dupla, a visão tinha que ser substituída pelo tato, por vezes com surpreendentes resultados. Criamos também novos exercícios (como, por exemplo, o de "fadas madrinhas", em que, na fase de desativação da aula, cada monitora sentava no chão, aninhando uma, duas ou até três crianças no colo e embalando-as, o que quase invariavelmente as adormecia; um exercício que, dado ao seu caráter afetivo, tomou-se rapidamente um "must' nas aulas).

Felizmente, as minhas supervisoras, as psicólogas Marina Silveira (minha "mãe" na Biodança) e Maria Luiza Appy (Diretora da Escola Paulista de Biodanza), certamente captaram da minha proposta, bem mais o espírito biocêntrico, do que a ortodoxia metodológica das sessões.

ADEVIRP, biodança e os adolescentes

Mas então, paradoxalmente, enquanto se completava a etapa de aulas supervisionadas que inicialmente me levou à ADEVIRP, começou o meu real trabalho de Biodança com os deficientes visuais. Paralelamente ao grupo de crianças que continuou, fui instado pelos adolescentes da Instituição a abrir um grupo também para eles. Apesar da minha relutância inicial em trabalhar com esta faixa etária, o êxito da Biodança com eles foi enorme, o que me levou não só a ir expandindo este grupo, quanto também a abandonar a restrição inicial de aceitar apenas pessoas com visão reduzida. Inicialmente apenas alguns, mas hoje mais da metade dos participantes do grupo de jovens (agora adolescentes e também adultos jovens) são cegos totais.

ADEVIRP, biodança e o Método de Trabalho

Das muitas monitoras, que gradativamente foram buscando outras atividades, só restou uma e este ano o grupo de crianças, também por uma incompatibilidade de horários, acabou sendo suspenso. Mas, boa parte dos seus integrantes iniciais agora já está incorporados ao grupo de jovens o qual, com um elenco que oscila entre 15 e 2O participantes, já está no seu quarto ano. Anualmente, por diversas razões, há entradas e saídas de alunos, sendo que assim, mais de quarenta pessoas já tiveram um contato direto com a Biodança. Por outro lado, alguns deles permanecem no grupo quase desde o início, o que já lhes garantiu, até aqui, um total de mais de 15O horas efetivas de Biodança.

Com estes grupos, procuramos trabalhar fundamentalmente a auto-estima, a coragem de se expor em movimentos não usuais a eles, a criatividade e a confiança no grupo. Exercícios ativos, tais como andar sozinho com assertividade, andar em dupla com um guiando o outro (mesmo entre os cegos totais), andar de costas, saltar “como canguru” ou “como saci”, dançar em dupla, brincar de manequim (em que uma das pessoas da dupla é movimentada pela outra e colocada em posições diversas e estranhas) ou brincar de pêndulo em trios (com um no meio, sendo movimentado pelos outros dois, mesmo se forem cegos), grito de identidade ("eu sou ... !"), estão entre os mais freqüentes. Mas também os exercícios de "crescimento a partir da semente", de rodas concêntricas em que cada pessoa gradativamente "olha" (com as pontas dos dedos) o rosto das outras, a "fila de massagens" (em que cada uma das pessoas faz suave massagem no pescoço e ombros da pessoa à sua frente) e diversos tipos de relaxamento individuais e automassagens estão entre os preferidos. E também, obviamente, as rodas, atividade muito característica da Biodança, marcando a união do grupo. Seja no início e no final, com rodas mais ativas, de cumprimentos entre todos, seja de rodas mais introspectivas e afetivas, de braços na cintura uns dos outros e a cabeça, por vezes apoiada no ombro dos parceiros ao lado.

ADEVIRP, Biodança e seus resultados

Olhando retrospectivamente, percebo que as minhas preocupações metodológicas com as eventuais restrições impostas pela privação da visão, gradativamente foram se dissipando. Mais e mais sinto válida a ambiciosa proposta básica inicial do projeto, a de mostrar a eles que, ao invés de se sentirem "deficientes" eles deveriam se sentir "pessoas normais com problemas visuais". E a resposta aos desafios cada vez maiores que lhes proponho, mostra com clareza o quanto é válida esta afirmação.

O resultado prático dessa transformação, fazendo surgir jovens cada vez mais ágeis, corajosos, autoconfiantes e criativos, possivelmente se reflita em atividades bem diversas daquelas da Biodança, tais como, a participação vitoriosa em atividades esportivas, em concursos de poesia ou, como aconteceu recentemente, a participação desenvolta no palco do Theatro Pedro II no show da cantora Elba Ramalho. Mas talvez o mais gratificante efeito dessas mudanças de postura seja a mais eficiente inserção de vários dos jovens no mercado de trabalho, tornando-os desse modo, cidadãos plenos e independentes.

A Biodança tem se constituído assim, não só numa “das mais prazerosas atividades da ADEVIRP” (como eles mesmo afirmam), mas também, certamente, num importante elemento de re-inserção social, extrapolando não só os limites das sessões de biodança quanto os da própria Instituição.

Agradeço à minha intuição, à Marlene pela confiança e aos meus "jovens amigos da ADEVIRP" que certamente me ensinam muito mais do que eu posso ensinar a eles.

Finalizando, a ADEVIRP precisa da colaboração de todos. A ajuda pode ser em dinheiro através de depósito na conta corrente: 1786-8 da agência 2891-6 do Banco do Brasil, ou em gêneros alimentícios. Além disso, é bem vinda a participação voluntária de profissionais, tais como: psicólogos, pedagogos, professores da educação e da saúde, ou, de qualquer pessoa que queira disponibilizar uma parte de seu tempo para convívio com os portadores de deficiência visual daquela instituição.

(*) A BIODANÇA (Biodanza - Sistema Rolando Toro) é um sistema de integração afetiva baseado em atividades vivenciais (não verbais) desencadeadas pela música, pelo movimento e por contatos.

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