Falar de poetas

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É bem mais agradável do que falar  do “Grande Nojo”, segundo Cony ou da “náusea e do horror”, conforme Érico Veríssimo. Já abordei esses dois assuntos, que vêm a ser o mesmo, embora a distância temporal entre esses escritores seja bem grande. É que qualquer pessoa de bem sente-se enojada até o limite e horrorizada só de pensar o que a falta de caráter e a ambição desmedida podem fazer com um país.

Os poetas são pessoas especiais, bonitas por dentro, mesmo que não sejam por fora. Enchem a alma da gente de emoções, de beleza, e, muitas vezes, com seus versos, lutam por ideais pelo povo ou pela nação.

Oswald de Andrade (11/1/1890 - 22/10/1953), se fosse vivo, teria completado há pouco, cento e dezesseis anos. Ele disse, certa vez: “Viajei, fiquei pobre, fiquei rico, casei, enviuvei, casei, divorciei, viajei, casei... já disse que sou conjugal, gremial e ordeiro. O que não impediu de ter brigado diversas vezes à portuguesa e tomado parte em algumas batalhas campais. Nem de ter sido preso treze vezes.” Por isso, pode-se imaginar a vida tumultuada que ele levou.

“Em várias flamas variamente ardia”, como diria Camões, entretanto não apenas em flamas amorosas; as brigas a que Oswald se refere podem também ser entendidas no campo da literatura: brigas com a gramática tradicional que ele subverteu, com o léxico, cujo número ele aumentou, criando neologismos curiosos, como : “Beiramávamos em auto”; “losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam o verde dos montes interiores; com a estrutura tradicional do romance, usando uma técnica de montagem em Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, que corresponde, em pintura, ao cubismo, numa “prosa telegráfica”, no dizer da crítica, que utiliza a linguagem em vários níveis; com a técnica teatral, que renovou, tornando-se um dos marcos iniciais do teatro moderno brasileiro; com a poesia, que procurou dessacralizar, através de uma linguagem coloquial em que o humor e a ironia despertaram ora os aplausos dos críticos, ora os mais acerbos comentários.

Oswald de Andrade foi uma das personalidades mais expressivas do Modernismo brasileiro: jornalista, poeta, romancista, teatrólogo e professor de literatura na USP; sempre irrequieto e atuante, mesmo nos últimos anos de sua vida, cheios de dificuldades econômicas e de saúde, ora elogiado, ora criticado (ainda hoje), permanece  à espera de estudos mais profundos que revelem realmente quais as qualidades de sua obra e sua contribuição para a literatura brasileira.

Também nascido em janeiro (9/1/1920) e falecido em outubro (9/10/1999), João Cabral de Mello Neto pertence à chamada “geração de 45”, cronologicamente, e destacou-se por uma linguagem seca e concisa, pela elaboração do verso “nítido e preciso” e por outra vertente de sua poesia, a social em que focaliza o Nordeste e os dramas que afligem sua gente.

Também ele pretendeu desmistificar a linguagem poética e introduziu novos temas na poesia, a crítica social, sem sentimentalismos, em O cão sem plumas, O rio, Morte e vida Severina; interessou-se também pelos temas históricos em Auto do Frade, sobre o Frei Caneca.

João Cabral pretendia ser crítico literário, daí, talvez a lucidez com que aborda, nos próprios versos, o ato de fazer poesia.

No início, sofreu influência de Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade, mas, aos poucos, foi emergindo seu estilo inconfundível, antilírico e racionalista.

O sertão nordestino é uma constante em sua obra. João Cabral é natural de Recife e passou a infância e a adolescência em contato com engenheiros e todos que trabalham com a cana-de-açúcar. Dessas experiências de vida sua obra está impregnada. Hoje, João Cabral é considerado um dos poetas mais inventivos e originais da literatura brasileira. Sua obra Morte e vida Severina, com música de Chico Buarque, é a mais conhecida do público, teve muitas apresentações, inclusive no exterior, sendo premiada na França, no tempo do TUCA, Teatro da Universidade Católica.

U.B.E., Academia de Letras Ciências e Artes da AFPESP

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