1900 – O bonde elétrico, uma revolução!

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Impressões e instruções de Machado de Assis aos usuários do novo bonde

Ocorreu-me compôr certas regras para uso dos que freqüentam os bonds. O desenvolvimento que tem tido entre nós este meio de locomoção, essencialmente democratico, exige que elle não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extractos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez:

Art. I – DOS ENCATARRHOADOS

Os encatarrhoados podem entrar nos bonds com a condição de não tossirem mais de trez vezes de uma hora e, no caso de pigarro, quatro. Quando a tosse for tão teimosa que não permita esta limitação, os encatarrhoados têem dous alvitres: - ou irem a pé, que é bom exercício, ou metterem-se na cama. Também podem ir tossir para os diabos que os carregue. Os encatarrhoados que estiverem nas extremidades dos bancos devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no proprio bond, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.

Art. II – DA POSIÇÃO DAS PERNAS

AS pernas devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se prohibem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares e fazel-os occupar por meninas pobres e viuvas desvalidas mediante uma pequena gratificação.

Art. III – DA LEITURA DOS JORNAES

Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéos: também não é bonito esncostal-o no passageiro da frente.

Art. IV – DOS QUEBRA-QUEIXOS

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circumstancias: – a primeira quando não for ninguem no bond, e a segunda ao descer.

Art. V – DOS AMOLADORES

Toda pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguem, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidencia, se elle é assaz christão e resignado. No caso affirmativo, perguntar-lhe-há se prefere a narração ou uma descarga de ponta-pés: a pessoa deve immediatamente pespegal-os. No caso, aliás extraordinario e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazel-a minuciosamente, carregando muito nas mais triviais,  circumstancias, repetindo os dictos, pisando e repisando as cousas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.

Art.VI – DOS PERDIGOTOS

Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo as occasiões, em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Tambem podem emittir-se na plataforma de traz, indo o passageiro ao pé do conductor, e a caa voltada para a rua.

Art. VII – DAS CONVERSAS

Quando duas pessoas, sentadas a distancia, quizerem dizer alguma cousa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras e, em todo caso, sem allusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.

Art. VIII – DAS PESSOAS COM MORRINHA

As pessoas que tiverem morrinha podem participar dos bonds indirectamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado  para outro. Será melhor que morem em rua por onde elles passem, porque então podem vel-os mesmo da janella.

Art. IX – DA PASSAGEM ÀS SENHORAS

Quando alguma senhora entrar, deve o passageiro da ponta levantar-se e dar passagem, não é porque é incommodo para elle ficar sentado, apertando as pernas, como porque é uma grande má criação.

Art. X – DO PAGAMENTO

Quando o passageiro estiver ao pé de um conhecido e, vir o conductor receber as passagens, notar que o conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou difficuldade, deve immediatamente pagar por elle: é evidente que, se elle quizesse pagar, teria tirado o dinheiro mais depressa.

Fonte: (respeitada a ortografia) - Fascículo nº 7, vol. I - 1900/1910 - NOSSO SÈCULO, Publicação Semanal (1980/1982).

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