Carolina Machado de Assis e Aracy Guimarães Rosa

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Quem não conhece a expressão popular: “Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”?

Numa posse da Academia Ribeirãopretana de Letras, um neoacadêmico muito conhecido e respeitado citou essa frase durante seu discurso de posse, corrigindo-a; para ele, a mulher vem à frente do homem, puxando-o pela mão e citou também duas mulheres que tiveram papel importante para que aquele momento de sua carreira acontecesse: a esposa, claro, incentivadora de todos os momentos de sua vida e esta modesta professora que lhe despertou o gosto pela literatura, o que me alegrou e honrou muito. Fatos assim, digo sempre, são as rosas da carreira espinhosa de professor de um país que não se importa com ele.

As duas mulheres citadas no título, pelos sobrenomes, já sabem os leitores quem são. Ambas foram muito importantes para seus famosos maridos, por isso vou falar delas, uma vez que eles estão sendo mais festejados ainda do que habitualmente são, por causa dos centenários, de morte de um e de nascimento do outro.

Sobre seus maridos já se disse e repetiu tudo o que eles merecem, ambos imensos autores que honram a nossa literatura, o mulato que chegou até as fundar e a presidir a Academia Brasileira de Letras e o doutor poliglota que tinha medo de tomar posse nessa mesma Academia, embora desejasse fazer parte dela.

Voltando às duas insignes mulheres: Carolina Augusta Xavier de Novais, portuguesa do Porto e irmã do poeta Faustino Xavier de Novais, amigo de Machado de Assis, casou-se com ele em novembro de l869 e foi a companheira mais que perfeita durante trinta e cinco anos para o marido. Apresentou-o aos clássicos portugueses, acompanhou toda a sua produção literária, ajudando mesmo na revisão de textos, pois era bastante culta e de classe social mais elevada. Quando morreu, em 1904, Machado começou a morrer também; viveu mais quatro anos, saudoso, autobiografando-se mais ou menos no Conselheiro Aires, de seu último livro, Memorial de Aires, publicado em 1908, ano de sua morte.

Contam os biógrafos que o escritor era visto à tardezinha, sentado em frente a sua casa, de mãos dadas com Carolina, seu único amor, parece, pela vida afora.

Aracy Carvalho Guimarães Rosa, brasileira, paranaense, nasceu, como seu marido, em 1908, e parece que ainda está viva; filha de mãe alemã e falando perfeitamente a língua materna e outras mais, foi funcionária do Consulado Brasileiro em Hamburgo, Alemanha, onde conheceu o cônsul Guimarães Rosa, seu segundo marido.

Como trabalhava na seção de vistos para estrangeiros, juntamente com o marido salvou muitos judeus do extermínio nazista. Enfrentou também o Estado Novo de Getúlio Vargas e, por ocasião do A-I 5, deu abrigo a vários intelectuais brasileiros perseguidos.

Israel gravou o nome de Aracy (o único feminino) no Museu do Holocausto, entre os dezoito diplomatas homenageados.

Eis as duas grandes mulheres que, se não vieram à frente puxando os maridos pelas mãos, lado a lado sempre estiveram e os ajudaram a ser o que ainda são e serão sempre: Machado, “o maior escritor negro de todos os tempos”, no julgamento de Harold Bloom, o crítico literário mais popular do mundo, autor de Os 100 autores mais criativos da História da Literatura (Machado é o único brasileiro dos 100), e Guimarães Rosa, “o mago da linguagem”.

“Nos dois, o domínio impecável da língua, o estilo cativante, o ritmo preciso. Os dois são inimitáveis.” (Frei Betto)

E as duas, imagino, foram muito felizes com companheiros tão especiais de cuja vida participaram ativamente.

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