Boa Companhia

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É um livro “sui generis”, que acabo de receber, uma antologia de haicais, da Companhia das Letras.

Há alguns anos, escrevi um artigo, “O Mestre das Letras”, sobre esse tipo de composição poética de que o professor Cyro Armando Catta Preta é mais do que um mestre, é o “Príncipe dos Haicais”, no dizer de Abel Pereira, também poeta.

Essa  deliciosa antologia, para os olhos e para a alma, foi organizada por  Rodolfo W. Guttila, que fez  um prefácio precioso, falando dos haicais desde as origens, no século VII d.C. e suas variações com o passar dos tempos, até as formas atuais.

E, para orgulho de todos nós, ex-alunos, e do povo de Orlândia, nosso professor Cyro figura na Boa Companhia de poetas como Guilherme de Almeida, Drummond, Oswald de Andrade, Paulo Leminski, Haroldo de Campos, para citar nem meia dúzia dos poetas que estão na antologia.

Haicai quer dizer, simplesmente, poema de dezessete sílabas, assim dispostas: um verso de cinco, um de sete e outro de cinco sílabas. As variações, entretanto, são muitas, especialmente nos dias atuais.

O professor Cyro pertence à linha de Guilherme de Almeida, o Príncipe dos Poetas Brasileiros. Para mim, que desde jovem me encantava com esse Príncipe e declamava seus poemas em nossas festas no G.E.O., às vezes chego a confundir os dois, e, sem favor algum, lendo todo o livro citado e já tendo lido também todos os do prof. Cyro, continuo preferindo os dois, exceção de um ou outro haicai de outros poetas.

Neste livro, convém assinalar que nem tudo que foi publicado é, a rigor, um haicai, só se dermos o desconto de modernos; são pequenos poemas, sem preocupação com o número de sílabas e de versos, nem de estrutura, muitos não têm rima, nem título e, às vezes o próprio tema não atrai.

Os do prof. Cyro são perfeitos, nada falta e consegue mesmo de um tema banal,  fazer um poeminha imenso em seu significado, desses que fazem a gente parar e ficar olhando não sei quê, enquanto as ideias saltam desenfreadas na cabeça. E  quase sempre com rimas e títulos que até antecipam o tema a ser meditado como em “Desolação”: Fim de estrada. / Só. / Sem espaço para os passos. / Adiante e atrás: pó.”

Noutro, cujo tema parece demasiado banal, leva-nos de volta  às brincadeiras da infância: “Reminiscência: A vaca amarela / abriu os olhos, mugiu / pulou a janela.” Faltou apenas o “quem quiser que conte outra”, que as crianças acrescentavam.

Num outro ainda, as palavras em –inha, a rima em –oou formam um epicédio melancólico, porém carinhoso, mais ainda se pensarmos no título sugestivo: “Libertação: A vizinha voou... / avezinha bem velhinha / desengaiolou...”

Os eternos problemas do ser humano, sempre abordados por poetas e prosadores, também se encontram nos haicais do prof. Cyro e que são verdadeiras joias de criação, tão pequeninos e carregam tanta beleza, sabedoria, lirismo, plasticidade, uso e domínio total dos múltiplos recursos da linguagem.

Não é fácil, ao contrário do que parece, o pequenino poema, ou, como o chamou o Professor, uma ocasião, poemirim. Só os grandes poetas conseguem escrevê-lo com  arte e técnica.

Os exemplos dos haicais do Prof. Cyro são poucos nesta antologia que, aliás, não segue nenhum padrão, há muitos poemas de alguns poetas e bem pouco de outros, mas é uma antologia que faltava para os amantes da poesia, tenha ela a roupagem que tiver. E todos estão na “boa companhia” de Cyro Armando Catta Preta, nosso Mestre e Príncipe dos haicais.

ARL, UBE e ALCA da AFPESP

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