2008 – Ano do compromisso social

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Viver em uma sociedade onde as diferenças sociais são tão alarmantes faz-nos refletir, diariamente, sobre o nosso papel social. O homem possui muitas qualidades admiráveis: a inteligência, a capacidade de amor, solidariedade, fraternidade, dentre outras que o caracterizam como humano. Infelizmente, muitas vezes outros aspectos ficam exacerbados e, quando isso ocorre, temos um resultado negativo tanto no que se refere ao desenvolvimento individual como no social.

Na época moderna surge o pensamento baseado nas ciências naturais, através do qual tudo é observado isoladamente, os acontecimentos passam a ser vistos como fenômenos desconectados entre si, explicados por leis mecânicas causais. Essa forma de pensar é utilizada na vida econômica moderna, apesar de inadequada para esse campo de atuação. Suas conseqüências surgem a partir de modelos do passado e que são reduplicados na atualidade. Bos (1980) em seus seminários sobre “Desafios para uma pedagogia social” (1986) explicou que as hierarquias empresariais de diretor, gerente, chefe, superior, operários foi instituída no Egito antigo e, mais tarde, na organização dos exércitos e na igreja. Atualmente, verificamos que as relações de mercado são estabelecidas de acordo com esses princípios e as ações das pessoas são dirigidas exclusivamente para um mercado financeiro no qual a identidade do sujeito não aparece, mas somente a mercadoria que ele produz ou vende. A China e seu mercado econômico têm sido um exemplo marcante em relação a esse aspecto.

O tipo de modelo acima levou o ser humano a lidar de forma mecanicista com seu trabalho e com aquilo que produz, pensando no lucro que terá e não na trajetória social de sua “matéria prima”. Dessa forma, o homem aprendeu que precisa cuidar de seu bem estar. Produzir ou vender seu trabalho implica em ter condições pessoais de adquirir bens. Essa visão trouxe o egoísmo ao ser humano, o qual ficou desconectado de um contexto de implicações sociais mais amplas, aspectos ligados à cooperação não são estimulados, ao contrário, cada um tem se isolado cada vez mais com receio de perder seu espaço no mercado de trabalho. As escolas, de um modo geral, estimulam esse egoísmo e competitividade nas crianças desde cedo, tornando-as aptas tecnicamente, mas não no que se refere ao amadurecimento social, área em que outras habilidades deveriam ser desenvolvidas, tais como: autoconhecimento, percepção das necessidades dos semelhantes, visão abrangente do mundo e da sociedade e cooperação, além de outros aspectos mais específicos que podem levar o homem a gerir sua própria vida e colaborar com o desenvolvimento social sustentável.

No mundo pós capitalismo tornaram-se cada vez mais discrepantes as diferenças sociais, culturais e econômicas. No último mês, com a proximidade do Natal, pude constatar a euforia das pessoas para adquirir bens, comprar presentes, alimentos especiais para comemorar o seu Natal e o Ano Novo. As ruas estavam congestionadas e as lojas abarrotadas. Infelizmente, as ações sociais não crescem nessa proporção!

O que desejo a todos os leitores é que em 2008 utilizem uma das máximas de Rudolf Steiner, qual seja, “O bem estar humano é tanto maior quanto menor for o egoísmo”. O homem na medida em que precisou estar junto dos demais para poder sobreviver, percebeu que necessita viver em grupo para atender suas necessidades de alimentação, proteção, educação, dentre outras. No entanto, o que não era esperado é que desenvolvesse tão intensamente seu egoísmo, buscando em seu trabalho, exclusivamente, seu crescimento pessoal e de seus familiares mais próximos. Esse tipo de comportamento tem afastado o homem de sua essência humana tornando-o mais egoísta e voltado para si próprio.

Para o homem superar sua motivação egoísta é necessário que olhe interessadamente para o outro. Se as pessoas conseguirem superar sua motivação egoísta, através do “olhar para o outro”, haverá, certamente, uma abrangência para vários setores de sua vida: familiar, de trabalho e social. Para que o egoísmo ou interesse próprio deixe de ser o que nos comanda, temos que nos interessar de forma amorosa pelo que fazemos, assim como acreditar em nossos ideais, reconhecendo o valor e significado social da empresa onde trabalhamos ou de nosso próprio negócio. Não há como separar ações pessoais e atos profissionais, apesar de muitos julgarem que sim.

Crescer financeiramente, desenvolver habilidades, contribuir para um desenvolvimento social sustentável é possível na medida em que notamos as necessidades de nossos semelhantes, que precisam ser a razão de nosso trabalho. Acreditar em nossos ideais e identificarmo-nos com a instituição na qual trabalhamos é o primeiro passo para o sucesso.

“O bem de uma integralidade de pessoas que trabalham em conjunto será tanto maior quanto menos o indivíduo exigir para si os resultados de seu trabalho, ou seja, quanto mais ceder destes resultados a seus colaboradores, e quanto mais suas necessidades forem satisfeitas não por seu próprio trabalho, mas pelo dos demais”.

Rudolf Steiner

Fonoaudióloga clínica e professora universitária. Especialista em Linguagem, Mestre e Doutora pela FFCLRP-USP. Formação em Antroposofia: Medicina Antroposófica, Quirofonética, Biográfico.

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