Ciranda de Pedra – O romance

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Publicado em l955, é o primeiro romance de Lygia Fagundes Telles, já conhecida e premiada por seus contos.  É considerado também um dos dez melhores romances da literatura brasileira, pelo professor José Aderaldo Castelo, da USP, que o julga tecnicamente perfeito; poucos romances há considerados tecnicamente perfeitos, isto é, nada falta, nada sobeja, como, além desse, São Bernardo, de Graciliano Ramos, O Encontro Marcado, de Fernando Sabino e alguns outros.

Ciranda de Pedra – o título se deve a uma ciranda de anões de pedra, de mãos dadas, no jardim de um palacete suntuoso “guardado” por dois ciprestes à entrada; esses elementos já vão definindo um dos ambientes em que se passa a história, narrada com perícia em terceira pessoa, mas com onisciência apenas em Virgínia, personagem principal; todos os ingredientes da ficção narrativa, enredo, ambiente, tempo e personagens se intricam inseparavelmente.

Os outros ambientes, a casa de Laura, onde Virgínia mora, com o“ tio Daniel” e uma empregada, no começo, modesta, atmosfera carregada de tristeza e doença, a de Conrado e Letícia, separada por uma cerca de fucus  da mansão de Natércio, o ambiente principal, e, ainda o colégio onde Virgínia se enfurna e de onde sai transformada, tudo trabalhado com coerência e verossimilhança, revela a grande romancista que é Lygia Fagundes Telles. Seus outros romances Verão no Aquário, As Meninas e As Horas Nuas, embora muito bons, perdem em qualidade para o primeiro.

Virgínia domina a cena, no meio de tantas personagens. Tudo se organiza em torno dela: seu drama de filha de um adultério que ela só descobre quando adolescente e não entendia porque tinha de viver pobremente e separada das irmãs ricas, cuja vida invejava; a ciranda que, para ela, representava as irmãs e os amigos que não permitiam que ela entrasse também nela, como desejava; quando abriram para ela, oferecendo-lhe as mãos e os braços, já não lhe interessava mais, porque havia descoberto a falsidade de tudo e era, enfim, outra pessoa.

Até o nome da personagem principal foi escolhido com capricho pela autora, sabendo que o nome é a primeira forma de caracterizar uma personagem: Virgínia; apesar de passar por duras provas e situações amargas, permaneceu quase o que o nome sugere: virgínia, isto é incontaminável, pura.

Por isso não entrou na ciranda depois de conhecer cada “anão”, de desmitificá-los, Virgínia se libertou e partiu em busca de si própria, de sua realização como ser humano, porque, como ela mesma diz, “mais importante que nascer era ressuscitar.”

Não sei se a novela acabará assim, Virgínia despedindo-se de Conrado que fica olhando-a afastar-se. Provavelmente não, novelas precisam de final feliz para os espectadores. No romance, não ficamos sabendo o que acontecerá com cada um, fica a critério do leitor, porque, afinal, “os semideuses eram apenas cinco criaturas humanas, dolorosamente humanas”, como Virgínia concluiu, e tudo poderia acontecer.

As adaptações para filmes e novelas de obras literárias muitas vezes deturpam tanto a original que apenas de longe lembram a obra. Tomara que Ciranda (não apreciei muito a primeira adaptação, o livro é melhor), em segunda edição televisiva conserve mais as qualidades que tornaram o livro em dos melhores da literatura brasileira.

UMA CURIOSIDADE: Há muitos anos, aqui mesmo em Ribeirão, quando Lygia visitou a faculdade em que eu lecionava, falando sobre esse romance que os alunos haviam acabado de ler, explicou a origem dele; um dia passeando pelo bairro em que morava em São Paulo, Higienópolis, viu um palacete que estava sendo demolido e parou para olhar: havia dois ciprestes na frente e uma ciranda de anões de pedra no jardim, exatamente como ela descreve no romance; gostou do cenário e pensou em escrever um conto, só que ele tomou outro rumo e se transformou nesse romance magnífico, profundo e humano.

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