A certeza da insegurança

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Uma pessoa pela qual tenho muita admiração é Montaigne. Não conheço muito sobre ele. Li com atenção, degustando cada palavra os seus Ensaios e foi isso que me deu tal admiração. Em diversas oportunidades ele comenta que não tem certeza. Há uma coisa decidida que torna sólidos alguns homens e mulheres. Michel de Montaigne não era assim, o que não quer dizer que não tinha consistência ou que à sua maneira em si não incluísse solidez. Como sabemos, a água é fácil de ser penetrada, mas quando se apresenta sob a forma de gelo é bastante dura. Montaigne gostava de Pirro, filósofo cético grego que considerava impossível conhecer a verdade. Admiro-me frequentemente daqueles que têm certeza, porque em geral sou igual a Montaigne (talvez por isso o admire, porque nisso eu sou igual a ele), no fato de que é raro que eu tenha a certeza de algo. Tenho visto tantas vezes minhas certezas se esvaírem no ralo da realidade... Insegurança? Pode ser. Que bom!

Uma vez um estudante fez uma consulta comigo, queria ser médico, mas queixava-se de ser uma pessoa insegura. Fiquei feliz de ver uma pessoa que se reconhecia insegura, pois estava aberto a questionar a própria conduta. Pobre de quem, vivendo em um mundo como o nosso, em uma época como esta, mantém-se como um rochedo resistindo à força das águas do tempo, firme, incólume, incapaz de se desviar, porque incapaz também de se deslocar, de mudar o ângulo de visão, de perceber o mundo ao redor. Brigitte Bardot, há muitos anos disse que "apenas os idiotas não mudam de idéia". Toda intransigência é idiota. Estas certezas são resultado do conforto psíquico que a certeza nos dá. Não são poucos aqueles que se encastelam em suas certezas, tornando-as muralhas de defesa con   tra o mundo tão sólido, tão forte, tão sutil, tão fluido que aí está a nossa volta (e dentro). As muralhas com que se protegem frequen            temente têm como tijolos altas doses de arrogância.

Já aquele jovem, questionando suas condutas permitia-se cres             cer, se abria à possibilidade de melhorar, não tendo a posse da verdade, estava aberto a recebê-la. Veja você se é possível a um ser humano conhecer a verdade. Podemos aproximar-nos dela ou afastar-nos. Talvez em muitas situações em que pensamos estar longe da verdade, ela está logo ali, debaixo dos nossos pés. Aliás, tenho a sensação que a verdade está todo o tempo sob os nossos pés. Mas não é muito frequente que estejamos atentos à textura, ou à temperatura do piso.

Em ciência esta coisa da verdade é algo incrível. Nos disse Karl Popper que só pode ser considerado científico aquilo sobre o que pesa a possibilidade de ser provado como falso. Genial! E, no entanto, nós médicos tantas vezes dizemos: "É assim", "Não é isso", “Isso não é científico” (e usamos a palavra científico como sinônimo de verdadeiro). E definimos a vida dos nossos clientes pelas nossas certezas. Ou pelo conforto intelectual (na verdade emocional) que nos traz tais certezas que são expressões do nosso limite de conhecimento naquele momento e não da verdade absoluta. Tratamos medicina como se fosse certeza e receitamos medicamentos como se fossem absolutamente seguros porque foram testados. Esquecemos de dizer ao cliente que aquela substância que aplicamos tem demonstrado que leva a resultados bastante positivos nos casos semelhantes ao que ele apresenta. Achamos que como o resultado em 100 pessoas foi o esperado, em nosso cliente também o será. Quando eu era estudante, estagiando na Maternidade Tsylla Balbino, vi uma mulher muito agitada, sofrendo com um parto difícil, ser tratada com uma medicação tranquilizante. O médico disse à enfermeira: "aplique 10 mg de tal medicação que ela se acalmará". Foi feito, e a mulher espancou o médico e foi muito difícil segurá-la. Que Deus me proteja destas certezas!

Fonte: Jornal Corpo Mente – Feira de Santana – maio/2003.

Médico Caetê-Açu (Vale do Capão)

Palmeiras - Ba

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