A poltrona

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Procurara incessantemente por todos os cômodos. Descobrira nichos, gavetas secretas nos armários. Rasgara sem piedade os colchões de todas as camas. Fora até a cozinha, fuçara sais e açucares, espalhara todos os alimentos sobre a mesa na ânsia desatinada da procura.

Estancado, encostou-se à parede. Pendeu o corpo desanimado. Onde poderiam estar? Reviu as cenas do dia anterior. Apertos de mão, condolências, os tapinhas nas costas, os olhares maliciosos dos vizinhos e comadres encrenqueiras. De quando em quando, perguntavam-lhe a respeito de sua situação, como ele ficaria sem os parentes queridos.

Como explicar a todos? Não sabia direito o que estava sentindo. Era uma espécie de vazio, cheio de rancor e náusea. Fora o último descendente, a ele couberam todas as dores e sacrifícios. Tivera que arcar com todos os riscos que a convivência diária exigiu.

Quantas vezes seu corpo ansiara pelos copos do bar da esquina, os passeios sem horário de retorno, as conversas no clube com os amigos. Há quanto tempo ele não fazia mais isso? Ora! Afinal não era tão velho assim, seus 30 e mais anos poderiam prolongar-se ainda por muitos.

Olhou pela janela, através das cortinas de crochê (estas, odiadas desde a infância) e puxou-a, espremendo-a contra a parede. Escancarou a janela. Como era bom respirar o ar limpo daquela manhã preguiçosa! Nada de afazeres intermináveis, nada de lavar ou levar ninguém, nada de resmungos...

O sofrimento de ambos fora intenso, a doença minara qualquer espera por melhora, mas ele cumprira corretamente todos os rituais. Nunca havia se queixado! Também, de que adiantaria? Quem lhe daria ouvidos?

Ninguém da família viera ao funeral. Mandaram-lhe dinheiro, algumas sugestões e não apareceram. Eximiram-se de partilhar as perdas e a fixação daquele momento. A ele sempre cabia a pior tarefa. Sua vida se perdera por entre dedos... Sorriu ao lembrar-se que enfim poderia dispor dela como quisesse.Sentia-se revigorado.

Acomodou-se na farta poltrona que abrigava os doentes. Respirou profundamente.

Alguma coisa pulou dentro dele, de um salto, pegou a tesoura da cozinha e começou a rasgar o assento. Nada...Ergueu a poltrona e desfez o forro... Milhões de notas jorraram, ele inebriou-se com elas, jogava-as para cima e gargalhava, festejando a conquista. Deitou-se entre os maços de notas e esboçou um largo sorriso que pretendia manter pelo resto de seus dias.

Um vento forte entrou pela janela aberta, levantou o dinheiro pelos ares...ele se pôs a correr e tentava agarrar, mas não conseguia segurar tudo que rodopiava. Lá fora, os meninos que estavam jogando bola, alvoroçaram-se ao ver o dinheiro voando, apinharam-se à janela aos gritos de – Gente! Está chovendo grana! A algazarra foi tamanha, gritavam e colocavam as notas nos bolsos, nas camisetas, recolhiam o máximo que podiam. Os mais ousados enfiaram-se dentro da casa. Não demorou muito para que outros os seguissem. Os transeuntes que foram verificar o barulho logo se misturaram aos meninos na cata ao dinheiro esparramado. Ele esperneava, urrava...não sabia se fechava a janela, chamava a polícia ou batia no populacho ensandecido. Só se viam corpos debatendo-se uns contra outros, mãos, pés, sapatos...

Quando os últimos saltaram de volta para a rua, ele, resignado, aproximou-se da poltrona esfacelada e sacudiu o encosto, caíram umas poucas notas e dois insetos com asa voaram juntos pela fresta da janela ainda entreaberta.

Grupo Flamboyant

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