Escrito por Waldomiro W. Peixoto
Sempre que lemos Clarice Lispector a perplexidade toma-nos por inteiro. Em A Maçã no Escuro, a personagem central, Martim, comete um crime - supõe ter matado a esposa - e foge para dar sentido à sua vida que estava - mergulhada na mesmice - à beira do aniquilamento.
A temática - sentido da existência - ocorre também em A Paixão segundo G. H. Só que, desta vez, não existe o envolvimento da personagem central com outras personagens, exceto com uma barata esmagada, mas ainda viva, na porta do guarda-roupa, motivo suficiente para deflagrar todo o questionamento da obra: a essência do ato de existir. Janair, a empregada, é mero pretexto para G. H. se situar em seu universo social.
A abertura do romance (?) já revela ao leitor as incertezas e descaminhos por onde passarão todos os questionamentos ao longo do grande monólogo ("... estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender" - observar o uso do gerúndio, recurso linguístico que a autora usa para sugerir que a busca de G. H. é anterior ao tempo narrativo) até chegar a lugar nenhum, como nos mostra o final da narrativa: "... o mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser."
No livro Clarice Lispector, a autora confessa a Olga Borelli que "viver afinal de contas, é entre dois nadas: antes do nascimento e depois da morte." Se antes é nada, depois é nada, e durante é incompreensão, o que sobra? Busca apenas. Viver, então é buscar. Encontrar é apenas uma probabilidade. Fora daí é o aniquilamento. Liberto pelo nada, o homem fica à deriva. E se humanizar a vida limita o homem - e este é carente de liberdade - o melhor é não humanizar "Eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. É? Também, também”. Humanizar a vida é buscar segurança, é quando "sub-repticiamente uma nova terceira perna que em mim renasce fácil como capim..." Mas a segurança mata! G. H. não busca a segurança, prefere o risco, mesmo que tudo resulte inútil. Não importa o fim, importam os meios, importa o durante, importa a caminhada, mesmo que o nada seja o destino final.
G. H. busca a vida, em sua plenitude. A vida que se metaforiza na barata - esmagada, mas viva! - o seu oposto. Existir para G. H. é um processo em constante mudança que, para ser, vai sendo, contrariamente ao inseto que é, imutável, o mesmo desde sempre. "Há trezentos e cinquenta milhões de anos elas (as baratas) se repetiam sem se transformarem. Quando o mundo era quase nu elas (as baratas) já o cobriam vagarosas." G. H. olhava a barata e não via a barata; via, sim, algo maior, mais completo, mais complexo; via, sim, a vida do inseto, o seu jeito de ser, o ser; via, sim, o existir que ia além, muito além, da sua pequenez. "O que eu via era a vida me olhando (...) é que eu olhava a barata viva e nela descobria a identidade de minha vida mais profunda (...) e eu sentia com susto e nojo que 'eu ser' vinha de uma fonte muito anterior à humana e, com horror, muito maior que a humana”. Era a vida restrita a si mesma, na mesma condição de sua origem. Vida intrinsecamente vida. Da barata ou do homem, iguais. A essência transcende o indivíduo.
A barata, esmagada - mas viva! - na porta do guarda-roupa, liberando a massa branca, metaforiza a essência da vida se manifestando. "O que nela é exposto é o que em mim eu escondo: de meu lado a ser exposto fiz o meu avesso ignorado”. Brota e explode a consciência de existir, do ato de existir em si, do presente absoluto, da vida acontecendo sem fim, sem objetivo, sem transitividade. A vida, assim, agora, era o nada que era o tudo.
A busca obsessiva de um sentido para o ato de existir e o não encontrar tal sentido acaba por desenvolver em G. H. a capacidade de perguntar e a não-capacidade de ouvir a resposta. Daí o seu ato de viver reduzir-se ao ato de buscar, buscar, buscar... As perguntas e as respostas estão latentes no homem, são sentimentos ontológicos, só que as perguntas se revelam e as respostas não. Responder é limitar, limitar é prender, é matar, e o homem tem sede de liberdade e vida. Daí, ele prescinde das respostas, mas não das perguntas. "É mais seguro não fazer jamais perguntas - porque nunca se atinge o âmago de uma resposta. E porque a resposta traz em si outra pergunta. O que é que eu sou?"
Quando G. H. come a massa informe - e viva! - da barata, revela-se o mito de Sísifo que deságua no processo de des-heroização, a missão secreta do ato de viver. "A des-heroização é o grande fracasso de uma vida. Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair."
Essa é a chave: nem todos chegam a fracassar, porque fracassar é trabalhoso. O sucesso é atingir a altura de despencar em direção ao abismo.
É por tal motivo que o questionamento de G. H. a leva à grande revelação: desistir. "Desisto, e terei sido a pessoa humana (...) Desisto e quanto menos sou mais viva, quanto mais perco o meu nome mais me chamam, minha única missão secreta é a minha condição”.
Se Cristo sofreu e morreu para encontrar a vida eterna, G. H. buscou, questionou, sofreu, passou pela sua via-crucis, para desistir da vida e, paradoxalmente, descobrir sua essência. Como nos disse Cristo, "... aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á" (Mt - 16,25).
A via-crucis de G. H. é o caminho único para a revelação. "A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio”. A vida “absolutizada”, eis a conquista de G. H. após dolorosa caminhada em direção a si mesma. E "si mesma" pode ser o nada, o vazio - em suma: a essência.
ARL - Academia Ribeirãopretana de Letras