Escrito por Antônio Carlos Tórtoro
“Reconheço a felicidade pelo barulho que ela faz a partir”.
Jacques Prévert
É uma tradição que me traz felicidade. Em novembro, já começo a pensar na confecção do presépio que ficará exposto na minha sala de jantar até o dia sete de janeiro do Ano Novo: um dia após o Dia de Reis.
Por volta de 1992, eu mesmo fiz as peças, uma a uma, de argila: pintei-as com esmalte.
O modelo utilizado foi o de um outro presépio: o que meu pai montava todo Natal, em minha casa, quando ainda eu era criança e só colocava a mão nas imagens com autorização e sob supervisão de alguém mais velho.
Eu e meu pai fizemos e desfizemos muitos presépios. Cada peça, ao ser colocada, tinha uma história que era contada e recontada: foi assim que me interessei pelo Novo Testamento (e, depois, pelo Antigo).
Lembro-me, inclusive, dos presépios que o vi montar sob uma escadaria da residência da família Biagi, quando ainda Baudílio era vivo, ali, perto do prédio do Estadão.
Muitos são os nascimentos do Cristo em minha memória e muitas foram às vezes em que, no Dia de Reis, logo de manhã, colocávamos as imagens, todas, em torno da manjedoura e bem perto dela, para significar a chegada dos Reis Magos. Com a presença constante de Gaspar, sempre ali, ao lado do Menino Jesus, aprendi a nunca ter preconceito de cor.
Aprendi a importância da reunião dos membros da família, com José e Maria, sempre ajoelhados aos pés de Jesus: e, assim, o amor pelas crianças.
Aprendi a importância dos mais humildes, de tanto posicionar o pastor e suas ovelhas no mesmo espaço reservado ao nascimento do Filho de Deus.
Aprendi a amar os animais, o jumento e a vaquinha, porque os vi aquecendo Jesus, anos e anos, nos presépios da minha casa.
Aprendi a olhar e admirar o céu, a areia, os coqueiros, visitando o presépio que, na vitrine das Lojas Diederichsen, era tradicionalmente visitado pelas pessoas que passeavam pela cidade nos dias que antecediam o Natal.
Aprendi, com o plantio no momento certo, das sementes de arroz, ainda em casca, que existe um momento certo de plantar, para que brotos saudáveis e resistentes possam aguentar o passar dos dias: assim era obtida a erva verde que permeava as dunas de areia, do presépio de imagens quase em tamanho real.
Na maior parte das famílias, hoje, falta algo: falta um presépio?
Termino de escrever este artigo e já começo a pensar no meu presépio 2004, desejando que cada leitor faça de seu coração uma manjedoura onde o Cristo possa renascer, mais uma vez, ou até nascer, quem sabe, pela primeira vez, de uma série de muitas.
ARL - Academia Ribeirãopretana de Letras