A paixão proibida de Camilo Castelo Branco

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Poder-se-ia falar em paixões proibidas como na novela que a Band está exibindo, baseadas na obra do escritor português, porque Camilo teve várias, inclusive uma freira, porém uma só – Ana Augusta Plácido – foi tudo para ele: alegria, felicidade, humilhação, desgraça, maldição, e, acima de tudo, a mulher fiel que o amou até a morte, suportando com coragem uma vida tormentosa sob todos os aspectos.

Casada por imposição do pai com Pinheiro Alves, um rico corretor de barcos e diretor de banco, mais velho do que ela vinte e tantos anos, Ana conheceu Camilo num baile e ambos se apaixonaram perdidamente. O termo aqui não é força de expressão, é tradução do que foi a vida dos dois. Por cometerem adultério, estiveram presos, tendo passado por vários e vexatórios julgamentos. O marido de Ana a deserdou juntamente com o filho que ele não reconheceu. Ana sofreu retaliações de toda a sorte por parte da sociedade e do marido que exigia também que ela se internasse num convento, e, antes de morrer, amaldiçoou Camilo e ela até a quarta geração.

Mesmo depois de tanto sofrimento, nunca foram completamente felizes. Contam os biógrafos que Camilo era excessivamente ciumento, o que fez da vida de ambos um verdadeiro martírio, embora Ana Augusta proclamasse: “Vivo de ti e para ti.”

Separaram-se e se uniram diversas vezes e moraram em várias cidades, por causa da situação: ora presos, ora em liberdade, Ana Augusta no convento e Camilo tentando ficar perto dela, ora fugindo do marido ou da polícia, escondendo-se em casa de amigos.

Após a morte de Pinheiro Alves, Camilo e Ana instalam-se em São Miguel de Ceide; têm dois filhos, Jorge, que é doente mental e Nuno, um devasso, como se dizia na época, tanto, que o pai o expulsou de casa. O filho dito de Pinheiro Alves, mas que deveria ser de Camilo mesmo, morre de pneumonia.

É tão dramática a vida do casal que daria não apenas um romance, mas vários; em alguns pontos, assemelha-se a Amor de Perdição, uma das obras mais conhecidas de Camilo, e que foi escrita na prisão, onde escreveu também muitas outras.

Ana Augusta Plácido também era escritora e tradutora, porém muito inferior a Camilo, por isso suas obras são praticamente desconhecidas: Luz coada por ferros e Herança de lágrimas.

A produção de Camilo é imensa, mais de cem obras entre poesia, historiografia, crítica literária, memórias, novela passional, romance, jornalismo, conto... Foi, parece, o primeiro escritor português a viver exclusivamente da literatura.

Camilo nasceu em Lisboa, em 1825; ficou órfão aos dez anos e passou a morar com parentes, em Trás-os-Montes, até os dezesseis, quando se casou. Logo depois, porém, abandonou a mulher e uma filha e foi para o Porto e Coimbra para estudar; desistiu e passou a dedicar-se à literatura, tornando-se um dos mais importantes escritores portugueses do século XIX e alto expoente do “Ultra-Romantismo”.

Embora o passional seja a tônica de suas novelas e romances, eles não têm cenas de sexo de nenhuma espécie, apenas sugestão, quando se faz necessária; então as cenas que a TV exibe são criações dela e não do autor, para atrair um público interessado em cenas dessa natureza; aliás, a não ser muito esporadicamente, a literatura do século XIX aborda a vida sexual do jeito que a televisão e o cinema o fazem.

Por isso é que dizem que a novela é baseada na obra tal. Descontando as falsificações, esse recurso de utilização das obras literárias acho muito válido, pois tem levado, como tenho visto, muita gente a ler os livros que são utilizados e que, de repente, aparecem nas relações de livros mais vendidos.

Isso é ótimo, faz o povo ler mais e também comparar a literatura com a telenovela, o cinema, o teatro, conforme o meio que a utilizou.

Camilo se matou aos sessenta e cinco anos, (em l890), ao saber que, dentro em pouco, iria ficar completamente cego. Ana, que ficou sozinha com Nuno, confessa: “Fiquei muito quebrantada, porque eu o amei como a um deus!... Não posso consolar-me da perda(...) A minha vida é o que há de mais profundamente amargo e triste(...) Temos passado, eu e o Nuno, tardes inteiras fechados no salão, em frente ao retrato de Camilo, a falar dele e a chorar.”

Quem quiser saber mais sobre a vida dessas pessoas tão ilustres quanto infelizes, têm os seguintes livros, entre muitos outros: Dois anos de agonia, livro formado pelas cartas de Camilo e Ana, Os Amores de Camilo, de Alberto Pimentel e O Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro.

Um outro livro, ainda, obra mediúnica, psicografada por Yvonne A. Pereira, relata o porquê da cegueira de Camilo e de todos os sofrimentos pelos quais passou. Trata-se de MEMÓRIAS DE UM SUICIDA, da Federação Espírita Brasileira.

Professora e Escritora

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