Escrito por Yole Pagano
“Sinto-me sempre uma menina
Presa numa torre pequenina
Que rabisca, pinta e recria
A realidade de cada dia”
Era uma casa arejada. Por todos os cantos o ar recendia a jasmim. Havia inúmeros jasmineiros ladeando os canteiros da entrada.
Quando íamos abrir o portão para algum visitante, ele sempre trazia no rosto aquele olhar meio embevecido pelo aroma da flor que impregnava tudo à sua volta. Minha mãe costumava dizer que até a mais rabugenta criatura abrandava seu mau humor diante daquele perfume.
As três janelas da frente, com suas cortinas transparentes e claras dançavam ao sabor do vento. Os móveis eram os mesmos de muitos anos, traziam um camafeu incrustado nas portas com as iniciais de meu avô, JC. Sobre a mesa, a toalha quadrada bordada, com os riscos de chinesinhos, provavelmente feitos para o enxoval.
As cadeiras, seis, arrumadas nos seus devidos lugares. Sobre o espaldar, a capa, do mesmo tecido do assento. No armário maior, um arranjo de vários matizes e formas coloria o ambiente. O lustre antigo, vindo da outra casa, tinia ruídos de velhas estórias, acusando presenças vazias e saudades. O assoalho de tábuas corridas rangia ao ser pisado. Quando queríamos entrar, na hora sagrada da sesta do meu tio, tínhamos que descalçar os sapatos. O difícil era segurar a vontade de rir diante das caretas que meu irmão fazia ao passar por ele, com a boca aberta e o ronco ensurdecedor.
No fundo, atrás da cozinha, ficavam três pés de jabuticabas. Demoraram dez anos para dar frutos, mas depois deste tempo, todo julho era uma fatura.
A rua era calma, afora a buzina de alguns carros esporádicos. Crianças sempre brincavam na calçada, de perna de pau, pique ou pega-pega. Os jogos com bola foram proibidos desde que houve o acidente com o cachorro da Dona Inácia. As amendoeiras cobriam o chão de folhas multicoloridas, parecendo que o vento queria bordar sempre um novo tapete. Quando chovia, a correnteza da água empurrava aquele monte de folhas, empoçando tudo num chafariz. Brincávamos até aparecer algum vizinho e dar parte do nosso malfeito.
As casas eram próximas umas das outras, tanto que, na hora do lanche, a rua toda cheirava a café e bolinho de chuva. Os pequenos agitavam-se diante da expectativa da merenda.
Lembro-me de que certa vez, depois que todos tinham já obtido o seu quinhão de bolinhos da nossa querida Dita, meu irmão olhou de lado, com gula, para os últimos que restavam.
Fingiu desprezo, mas não se levantava do banco. O irmão mais novo também matreiro, imitou-o.
E nada de levantarem do banco!
O mano velho já estava ficando impaciente. A Dita também, imaginando lá com seus rolinhos, que tanto os meninos escutavam o Seu Josias discursar sobre abelhas.
Acostumada com as malandragens, a esperta Dita não tirava os olhos dos dois. O mano velho pegou sorrateiramente uma jabuticaba, e, espremendo-a, deixou que o caroço gelatinoso ficasse escondido na concha das mãos. Simulou um espirro que esparramou todo o “catarro” bem em cima dos cobiçados bolinhos.
Todos saíram enojados da mesa!
Foi um corre-corre, cadeiras caídas, risinhos escorçados. A única que não fez nenhum gesto foi a Dita, conhecedora das artes do moleque. Chamou mamãe e contou a malandragem.
Meu irmão tinha um respeito todo especial por mamãe. Levou um sermão de mais de meia hora:
- Onde já se viu o primogênito! Aquele que devia dar o exemplo para os mais moços!
Saiu de lá querendo se redimir. Meio sem graça, com a culpa pesando-lhe nos ombros, pegou o caçula pelo braço e montou-o às costas. Disse-lhe que brincasse, que poderia levá-lo até o portão. O menor, antevendo o proveito na expiação da culpa, foi-se calmamente.
No meio do trajeto, já entediado, lembrou-se do vaqueiro Roy Rogers, e pensou que seria mais divertido se o irmão empinasse um pouco. Meio a contragosto, mas tendo que cumprir o trato, o mano velho deu uns pinotes. Entusiasmado, o pequeno pediu que relinchasse, isso daria mais veracidade ao trote do falso cavalo. O irmão consentiu e parecia divertir-se, apesar do peso. O caçula ficou empolgado e lembrou-se de que esporeando os cavalos o trote era mais ligeiro. Danou-se a dar com os calcanhares na barriga da sua arrependida montaria. Foi o que bastou para que os dois se atracassem, rolando no chão. Seu Josias apartava a briga e ria ao mesmo tempo.
Terminaram os dois de castigo, olhando um para o outro com cara de mártir, sem os bolinhos e sem as jabuticabas.
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