A Inspiração do Artista

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“Desnuda-me a face,

desvela o véu que me cobre os sonhos,

deixa-me voar mais alto,

onde enfim encontrarei

os meus pares, os meus iguais”.

 

O som da escala musical quebra o silencioso vazio do pequeno quarto. Parecem notas agrupadas sem significação melódica.

O Maestro arrasta seus dedos no teclado do piano. Sacode os ombros, deixa-se cair no sofá que lhe serve de leito. Onde estão as letras e músicas que ele deseja reproduzir em canções?

Vai até a pia, embaixo da única janela, enche inúmeros copos com água. Pega o cabo do garfo e bate várias vezes tentando criar uma melodia ou algo que o inspire.

Sente-se desanimar.

Chuta com força os livros e partituras antigas que se acumulam no canto do piano.

O fim do mês se aproxima, teria que pagar o aluguel, saldar o resto de suas contas.

Como?

O dinheiro do último trabalho terminara. Havia meses que não produzia uma só música. Alimentava-se mal. Tentara esticar os últimos tostões ao máximo.

Olha o pulso, instintivamente, para verificar as horas, lembra-se de que vendera o relógio, presente caro do pai na época da formatura. Liga para a amiga, quem sabe se dando uma volta para arejar, não lhe propiciasse uma mudança de humor?

Disca, atende a irritante secretária eletrônica. Deixe sua men...Desliga. Ela não está.

Coloca uma roupa folgada e sai para correr. Com o físico cansado o sono seria por certo reparador.

Checa o relógio da matriz, é madrugada!

Observa as criaturas em andrajos, abandonadas, que perambulam pela noite, arrastando estórias desaparecidas. Procuram um canto para dormir. Não sente medo porque nada tem para ser roubado. Encosta o corpo suado pelo exercício na parede, a endorfina dera-lhe alguma esperança.

Ouve uma voz lamentando-se, é um mendigo que se enfia dentro de uma caixa de papelão como se fosse um saco de dormir...E peço à Virgem Protetora das Artes que não me desampare, ainda voltarei aos meus pares, os meus iguais.

Assusta-se com o pedido do mendigo, pelas suas frases parece pessoa de certa cultura.

Faz menção de falar com ele. Temendo a “vizinhança” que o rodeia, afasta-se.

De volta ao minúsculo apartamento vai até o chuveiro tomar o derradeiro banho quente. Não pagara a conta de luz e deviam estar para cortar o fornecimento de energia. Aproveita o máximo que pode. Lembra-se da mãe e das orações que ela ensinara. Quem sabe talvez exista mesmo uma Virgem Protetora das Artes, como dissera o pobre diabo. Riu-se porque ela não o ajudara muito.

Já no leito ensaia a oração, não consegue recordar... Idealiza que conversa com a Virgem. Sua alma adormece serena.

Não acredita no que faz, mas o desespero supera sua incredulidade.

Nas noites seguintes repete o mesmo ritual, junta as mãos em prece e pede à Virgem que interceda por ele.

Com o passar dos dias, vê-se sem saída para resolver seus problemas. A ansiedade toma conta de seu espírito.

Uma noite, estando cansado de rascunhar colcheias e semicolcheias, resolve deitar-se. Os dedos estão crispados, a alma pulando angustiada dentro do peito. Têm um sono agitado, não consegue posição para dormir. Vira de um lado a outro, finalmente adormece.

Vê-se caminhando por densa neblina, dá mais alguns passos, mas a névoa impede sua visão.

Busca alívio olhando o céu e avista um bando de pássaros brilhantes que seguem na direção do horizonte. A imagem daqueles pontos prateados resplandecendo na luz atrai sua atenção, imagina que os acompanha e imediatamente plana entre eles.

Seguem agrupados, um sentimento fraterno de união, enche seu coração de alegria.

Nota que os pássaros têm no lugar de cabeças de aves, rostos humanos de artistas que ele admira: poetas, músicos, escritores... Prosseguem na mesma direção, mudando a formação do voo inicial, como numa linguagem mútua de entendimento.

Em determinado ponto, enfileiram-se para pousar. O Maestro acompanha o movimento do bando para não se dispersar.

O cenário é branco, todo branco, de uma coloração que vai do opaco ao transparente. Pode perceber que se trata de um jardim rodeando um imenso lago azul. O ambiente convida ao abandono, senta-se às suas margens. Sente-se integrado naquela paisagem. Não se escuta nenhum ruído. Seus companheiros de viagem, os pássaros prateados, permanecem em vigília.

O lago azul crispa a superfície cristalina, desenhando círculos concêntricos que redundam numa fisionomia humana, com feições femininas... Sussurra fitando diretamente o Maestro:

- Sou límpida e insípida como a água, sou a inspiração que convoca todos vocês, artistas do mundo a produzirem, refletindo a minha vibração em suas mentes criativas...

Ela continua soprando sons e palavras que ele nunca houvera escutado.

Transcorrido algum tempo, emudece. O Maestro levanta satisfeito e busca o caminho de volta, dessa vez, sem seus alados protetores.

O sonho repete-se durante muitas noites. Nas manhãs que o seguem, o Maestro levanta bem disposto, com energia para compor. Consegue criar músicas com letras tão melodiosas e raras que obtém muito sucesso.

Oferecem-lhe participação em lugares de grande destaque.

Os dias de penúria ficam esquecidos.

Rememora o episódio do mendigo e tenta localizá-lo sem resultado. Procura as entidades de auxílio ao próximo e encontra-o num leito de enfermaria, como paciente terminal.

Visita o mendigo, acha-o moribundo, com dificuldade para falar:

- Não sei quem é você, mas agradeço sua ajuda e atenção. Soube que é Maestro. Eu também fui músico requisitado, no entanto, perdi-me na vida mundana da cidade e coloquei em segundo plano a disciplina da criação. Tive dificuldade para compor e tocar meu piano. Havia uma época em que a inspiração permanecia constantemente ao meu lado. Acontecia em noites quando eu sonhava com aves maravilhosas voando em círculos sobre águas límpidas...Com o tempo, mesmo me esforçando, não conseguia reviver esse sonho.

O Maestro enche seus olhos de lágrimas, lembra que a inspiração viera de maneira semelhante.

Volta sempre para visitar o mendigo e levar conforto. Chora muito quando aquele pássaro sonhador deixa este mundo e conclui que agora ele poderia voar livremente até o lago azul onde a musa inspiradora de todos os artistas espera ansiosa que seus perdidos pássaros retornem aos ninhos.

Grupo Flamboyant

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