Escrito por Nilva Mariani
O artigo dizia que hoje não se tem tempo mais para ler romances, porque são muito longos. Essa ideia de que o romance consome muito tempo seria de Camile Paglia, também comentada numa edição do “Mais” da Folha de São Paulo. O mundo hoje é da pressa, da televisão, do cinema, do videogame e tantas outras coisas que incluem rapidez. Então é tempo de ler poesia.
Curiosa colocação. Está correta, colocando-se o tempo como mediador entre a arte literária e os entretenimentos citados cada vez mais convidativos. Todos, porém, consomem tempo, mais, ou menos, mas consomem. E tempo é uma questão de preferência. Cabe à pessoa decidir se prefere um seriado ruinzinho na televisão, desses importados a granel, um programa de auditório, uma novela ou ler um bom romance ou outro livro mais útil e interessante que tais programas.
A poesia ganha espaço nessa competição porque consome menos tempo, a não ser que se queira ler Os Lusíadas ou A Divina Comédia.
Hoje não mais se escrevem poemas épicos e epopeias, especialmente tão longas como essas. Mesmo no conceito moderno de épico, em que o “eu” do poeta funciona como uma espécie de grande tela onde se projetam os “eus” da Humanidade, ou, se se quiser, o “eu” essencial de todo homem”, conforme o professor Massaud Moisés; os poemas são mais curtos e seus temas são universais, nascem das inquietudes humanas, dos eternos problemas fundamentais que afligem o ser humano.
O mesmo poeta pode ser ora lírico, expressando emoções e sentimentos comuns à maioria das pessoas, ora épico, mergulhando em profundidade no “eu”, para transcendê-lo e tentar abarcar toda a Humanidade. Poetas como Fernando Pessoa, Cruz e Sousa, Baudelaire, Walt Whitman e tantos outros.
São poetas que merecem ser lidos sempre, mesmo que tomem o tempo de um romance, voltando à ideia inicial. Ou então, ler devagarinho, um poema por vez, sentindo-o, impregnando-se dele, sempre que o tempo permitir, mas não deixar de ler. Um antigo mestre dizia que a literatura é a rainha das artes e a poesia a pedra mais preciosa de sua coroa. E literatura é uma arte temporal, não nos esqueçamos.
O artigo, a que me referi no início, diz ainda que hoje é o dia D da poesia, como uma vingança contra a prosa, mas que é preciso reaprender a ler poesia. De fato. Há gente, entretanto, que nunca leu poesia, gente que se considera razoavelmente culta, boa classe social e educação. Nem sequer imagina o que está perdendo ou deixando de ganhar em aprimoramento do espírito, sensibilidade, beleza, cultura...
Uma vez, num curso de reciclagem para professores, li um poema como gosto de fazer, declamando, com toda a sensibilidade que o texto exigia e de que eu era capaz, e disse aos alunos-colegas aos quais fazia a palestra, que assim é que deveriam ler os poemas para seus alunos, expressivamente, para que o entendessem bem, porque os alunos não sabem ler poesia. Uma jovem professora perguntou então: “Mas quem tem coragem?” Francamente...na hora, o impacto foi tão grande que demorei a responder. Assim nunca haverá hora e vez da poesia, nem para essa professora de Português que tem vergonha de ler para seus alunos.
Infelizmente, como tudo na vida, há professores e professores. Por isso, conheço outras que até estimulam os alunos a escreverem poemas, orientando-os, fazendo concursos de composição e interpretação e publicando, depois, antologias das turmas. Assim, como dizia um ex-colega e amigo que já se foi para outros planos, ”nem tudo está perdido”.