A dor do outro, de todos nós

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Tenho abordado apenas temas literários neste espaço, mas o atentado na Espanha fez renascer feridas que ainda medram dentro de cada um de nós. Feridas ressurgidas quando alguém se deu o direito de tirar a vida do outro e de aniquilar a felicidade dos que o amavam. Todos nós, hoje, estamos sofrendo a dor dos espanhóis e não existe argumento que nos impeça de somatizar deles o sofrimento.

A história do homem não tem sido outra senão a história de suas guerras, coletivas ou particulares, envolvendo massa incontável de pessoas ou a própria individualidade. O homem tem vocação infindável para procurar o Bem e praticar o Mal. Busca um e encontra o outro. Ah, o homem, esse ser partido! Vítima e algoz.

O tempo passa e ele não percebe – e é tão claro e fácil de perceber – que suas guerras – coletivas ou particulares – nunca terão fim se não respeitar as diferenças que nos mantêm vivos e nos particularizam, sejam de ordem física, biológica, religiosa, filosófica ou cultural.

No dia 07 de março, o Mais! da Folha publicou uma matéria “O Cisma do Ocidente” sobre a diferença de poder entre os EUA e a Europa. Inevitavelmente foram abordados subtemas como Guerra Fria, bipolarização de poder, imperialismo, concentração de riqueza, globalização, poder da Informação, ocidentalismo e fundamentalismo, desaguando sempre no “samba de uma nota só”: terrorismo e segurança internacional. Calcada nos depoimentos de Samuel Huntington e Anthony Giddens, cientista político americano e sociólogo inglês respectivamente, essa matéria mostra que a interferência dos poderosos na autodeterminação dos povos pode ser a grande causa da violência internacional e da escalada do terrorismo, na medida em que esses povos não aceitam, em nenhuma hipótese, o “american way of life” ou o “de quem quer que seja of life”. São palavras de Huntington (que repetem Rousseau): “o mais forte nunca é tão forte o bastante para ser sempre o senhor, a menos que transforme a força em direito e obediência em dever”. É nesse transformar ‘força em direito’ que pode haver a chave da compreensão para tanta violência entre os povos. As palavras de Giddens, o sociólogo, dão o contraponto e nos remetem a outra possível causa da violência internacional, que fragiliza tanto as nações e ameaça tanto as sociedades organizadas e – aparentemente – estáveis: “os fundamentalistas são sujeitos que afirmam só haver um modo de vida válido e que os demais têm que sair da frente”.

Alguém, em sã consciência, pode ver diferença entre os dois lados?

Após o atentado de 11 de março na Espanha, o escritor Antonio Muñoz Molina escreve que “não existe nada mais frágil do que a vida humana, nada é mais fácil de destruir do que os mecanismos delicados que mantêm em funcionamento uma cidade, as pessoas de bem que vão ao trabalho todas as manhãs e que não têm culpa dos delírios homicidas, dos fantasmas sanguinários que nascem do fanatismo religioso e ideológico”. (Folha, p. A-26, 14/03/04 – domingo).

Se todas as nações do mundo – umas mais outras menos poderosas – não se conscientizarem de que é preciso respeitar as diferenças, principalmente culturais (a base de um povo é sua cultura), de que existe um Concerto Universal acima de ambições particulares e de ideologias político-econômicas, o mundo sempre conhecerá a insânia, a desordem, o caos e a Dor. Sim, porque a morte é a desorganização de qualquer tecido e a sua chegada prematura, de forma insana, só pode resultar na Dor. A dor do outro é a minha dor, é a dor de todos nós. Fora dessa identificação, fora dessa empatia, não haverá salvação para o homem. Enquanto o demônio for o outro, não existirá harmonia entre indivíduos e povos. A salvação do outro é a minha redenção.

Um dia, todos nós sofremos a dor dos hebreus antes da Libertação. Milhares de anos depois, nós sofremos a dor das vítimas do holocausto. Algumas décadas depois sofremos a dor do Onze de Setembro, e a seguir a dor dos iraquianos. No presente, a dor dos espanhóis, já chamada por alguns de a dor de Onze de Março.

Quem será a próxima vítima da intolerância? Continuará até quando o homem sendo o lobo do homem?

ARL - Academia Ribeirãopretana de Letras

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