Escrito por Marcos Zeri Ferreira
Ali fora banheira dos escravos, diziam à boca miúda os habitantes da região. Eles mudaram o curso do rio fazendo um dique com pedras grandes, de tal forma que a água despencava formando uma cachoeira, desembocando numa piscina natural. Lugar de limpar o corpo e a alma oprimida pela violência branca, cheia de saudade, da África distante, da liberdade das savanas, dos ritos e mistérios da floresta. O guia exibia os conhecimentos daquele lugar e região. Atravessou uma pinguela e levou o grupo para o outro lado do rio. Eu fiquei. Disse-lhes que os esperava na volta. Escolhi uma pedra grande e achatada e entreguei-me à fala da natureza, aos segredos da mata e ao barulho característico das quedas. Elas funcionam como um mantra, acalmando o interior, relaxando o corpo. Quando estou frente a frente com uma cachoeira, não resisto. Deixo que ela cumpra suas inúmeras tarefas. Estes lugares são santuários diante dos quais o homem pode purificar-se. Banhar e equilibrar o campo magnético que o circunda e impregna. Entregar-se à força de um volume forte de água, nas costas e na cabeça, mesmo sem nenhum credo, é se deixar batizar pela natureza, descarregar os fluídos inconvenientes que se instalam no corpo, tirando a harmonia interior.
Entretanto, naquele dia, hora e lugar, a cachoeira não seduziu meus bloqueios. Era como se as estórias daquela gente sofrida e esmagada pelo tronco e escravidão, pairasse viva impregnando as árvores, as pedras, a areia no fundo do remanso. Um lamento triste brotava como uma névoa saída do chão e sugava o bálsamo das energias naturais. Inquieto, resolvi deixar o grupo que já estava distante, aprendendo com o guia, os segredos da fauna e flora do lugar. Voltei pela mesma trilha que viera. Uma borboleta azul me chamou a atenção. Eu caminhava e ela ia na frente, como que a me mostrar a saída da mata. Parei. Ela parou uns cinco metros adiante. Reiniciei a caminhada e ela continuou seu voo. Parei de novo. Ela se conteve num arbusto como que à espera. De novo me pus a caminhar e ela continuou me acompanhando. Isto durou até chegarmos a uma bifurcação. Aí, parei. Uma trilha seguia reta e outra à direita. A borboleta azul percebeu a minha indecisão de escolha, e como que a mostrar-me o caminho de saída da floresta, seguiu a trilha da direita. Segui atrás dela, por impulso. Após duzentos metros, a estrada e saída da mata. Ela fez meia volta e sumiu por entre as árvores, floresta adentro.
Como podia uma borboleta azul agir daquela maneira? Tudo aquilo poderia ter um significado. Inflei de contentamento. A ciência não buscava provas concretas para referendar certezas empíricas, temporariamente, irrefutáveis? Por que não poderia incluir nas minhas verdades uma crença que não pertencesse, somente ao ciclo das espécies, incluindo no espaço das coincidências, valores surrealistas? Busquei num dicionário de símbolos, o que aquele inseto da família dos lepidópteros diurnos, poderia representar. Vários eram os caminhos. Para uns povos ela era a metamorfose, a crisálida, saída do túmulo, ressurgindo no voo de uma borboleta. Para os sino-vietnamitas, ela exprime a longevidade todas as vezes que se acerca de alguém ou de um lugar. Para os astecas, entre outras representações, ela é um símbolo da alma, do sopro vital, que escapa da boca do agonizante, de um guerreiro caído nos campos de batalha. E a psicanálise moderna acaba vendo na borboleta, um símbolo de renascimento.
Mas, afinal, o que aquela borboleta azul significou na minha pouca estadia naquele lugar? Minhas dúvidas sossegaram no momento em que eu pude compreender que aquele inseto, de belas asas, fosse o que fosse, guiou-me para fora dali. Eu não pertencia àquele sofrimento dos antepassados. O apelo daquela energia melancólica e sofrida de irmãos torturados pela incompreensão e ganância do colonizador, era muito intenso e escapava da dor compartilhada, que se perdia no tempo, no cabedal de informações, na história decorada de um passeio de final de semana. O meu renascimento deveria ser de outra forma. Não tinha competência para lidar com aquela sensação desconcertante, estranha. Que saísse dali. Fosse em paz.
ARL - Academia Ribeirãopretana de Letras