Escrito por Nilva Mariani
Quando se pensa nesta estação, que acabou de chegar, vêm imagens desgastadas: céu cinzento, melancolia, chuvas friínhas, folhas que caem... Mas o outono pode ser dourado e flamejante também, com uma das mais belas manhã que se pode apreciar.
A mais deslumbrante manhã de outono, fúlvida e luzente, chovendo um despropósito de ouro, aconteceu diante de meus olhos extasiados, naquele parque, em longes terras.
A imensa peneira dourada do sol fazia vazar, mansamente, entre fios de luz que também escorriam com suavidade, centenas de folhas, não amarelas, mas de ouro, folhas em forma de estrelas, que se desprendiam das árvores todas elas flamantes. Árvores que antes davam estrelas verdes, agora de ouro, chovendo, chovendo sobre as pedras ainda úmidas do orvalho da noite anterior.
Todo o bosque incendiava-se. E, em cada fissura deixada pelas copas das árvores, infiltrava-se um raio de sol; em cada espaço, entre os troncos negros, brincava de esconder outro raio travesso; nas pedras, nas pequenas poças de água brilhava e tremeluzia mais ouro.
O bosque cerrado, de troncos carvoentos e árvores amarelas, chorava de emoção... As folhas rolavam continuamente como lágrimas quietas, mansas e sem súplicas.
Arrepiava-se o lago, quando elas o tocavam. Beijava-as o vento, tentando consolá-las com sua voz sussurrante.
Por todo o espaço, a luz chamejante e sorridente... e a música do vento nas folhas... e a risadinha irônica e leve da cascatinha, cujo destino é sempre rolar, só que, às vezes, ela suspirava, olhando as folhas tão altas e distantes; agora estavam ali, todas, rolando como ela, rolando como as lágrimas que, sem perceber e sem motivo algum aparente, vieram pôr um gosto acre em meus lábios.
De repente, os plátanos ficaram mais bonitos ainda, pareciam árvores de Natal, pois, em cada galho, em cada folha chuviscada de sol, minhas lágrimas se transformavam em bolas de diamantes que faiscavam e tremeluziam.
Como disse um poeta, a vida pode ser linda, vista através de uma lágrima...