Escrito por Rita Marciano Mourão
Não, hoje não posso cantar a beleza que a poesia traduz.
Hoje paira sobre meus sentimentos um farfalhar de asas negras
que trazem aos meus lábios um gosto de sangue.
Do meu poema singelo e desarmonizado peço perdão aos poetas
que mostram sonhos e encantos com versos ritmados.
Não, não há como falar de forma poética
enquanto em todos os cantos existem homens aflitos
e crianças abandonadas nas calçadas do mundo.
Suspensa no ar uma letal angústia derrama discórdia e medo
nos corações que em segredo soluçam.
Dói-me negar aos meus versos o ritmo que faz mais belo um poema,
mas hoje a realidade é o meu tema.
Não, não há como repousar sobre meus sonhos
quando existem corpos esquálidos ao meu lado,
se os fantasmas deixam-me atordoada
ante a dor de um coletivo desamor.
Que me perdoem os poetas nesta hora em que me foge a inspiração
e a razão fala por mim.
Resta-me a crua realidade que acentua o meu desespero
ante a expectativa de um milagre.
Mas devo dizer que não vou retroceder e nem ficar muda
enquanto houver súplicas e vociferações.
E porque amo a vida e a poesia
espero que um dia a paz seja o meu tema
e o mundo revestido de esperança
seja um concreto e eterno poema.
De AMOR!