Lina Bo Bardi, Arquitetura e Vida

“Foi quando esperávamos naqueles momentos de pesadelo,

em que as casas começaram a ruir que nos apercebemos

 que elas ´eram humanas´,

que eram o ´espelho´ do homem, que eram ´o homem´.”(Lina Bo Bardi)

 

Ela foi a arquiteta responsável pelos projetos do MASP, do SESC Pompéia e da Casa de Vidro. Você talvez já saiba de quem se trata. Interessei-me em conhecer sua obra e cheguei a compreender alguns aspectos da mulher e da artista. Acompanhe-me.

 

União de arte e vida

 

Acontece atualmente uma exposição na Casa de Vidro, O interior está no exterior, com curadoria do suíço Hans Ulrich Obrist que inclui essa casa em um circuito internacional de artistas e suas moradias. Segundo Danilo Miranda, diretor do SESC, essa participação de Lina (1914-1992) marca o reconhecimento internacional de sua obra.

A Casa de Vidro (1950) é um projeto feito para ser a residência do casal Lina Bo e Pietro Maria Bardi, jornalista e museólogo. Ela abriga hoje muito da coleção de arte adquirida pelo casal e é também a sede do Instituto Lina e P. M. Bardi (1990) cujo objetivo é promover o estudo e a pesquisa da cultura brasileira, nas áreas da arquitetura e da arte. Tombada em 1987 como patrimônio histórico, tornou-se visita obrigatória para arquitetos internacionais e fonte de pesquisa para estudiosos.

Quem foi a mulher que a idealizou? Lina nasceu em Roma, em 1914. E já ousou na forma e no conceito desde o trabalho de final do curso de arquitetura. Mudou-se para Milão para escapar do ambiente professoral da cidade, buscando parcerias que lhe dessem espaço para crescer à sua moda. Ocupou-se também de figurinos e cenografia para cinema e teatro.

É descrita como pessoa inteligente, debatedora, ousada. Não titubeou quando Pietro a convidou para uma viagem à América do Sul, com o objetivo de abrir mercado para obras de arte. Eles fizeram muito mais. Fizeram sua vida no Brasil.

E o que ela trouxe na bagagem faz diferença na compreensão de sua obra. Sua origem era uma Europa cheia de feridas. A experiência de guerra e de luta pela sobrevivência lhe deram motivos para viver no Brasil, onde poderia construir uma obra que não caberia na Europa. Daí ter abraçado com carinho o novo país, a ponto de confessar que o Brasil “é o meu país de escolha e por isso meu país duas vezes. Eu não nasci aqui, escolhi esse lugar para viver.”

Em seus escritos, questiona aspectos da arquitetura moderna entre os quais a função e a forma, o papel da história e da memória das cidades, o lugar do saber técnico e erudito. Tinha uma visão política e crítica de tudo o que parecesse passadista, formal e acadêmico. Natural, portanto, que criticasse o gesto meramente decorativo. Seus textos testemunham os questionamentos sobre a arquitetura do século XX.

Ela foi ainda mais longe, atribuindo à “arquitetura o papel de construir uma nova realidade, de transformá-la e ao homem”. Em artigos estão claros seus ideais ligados ao papel social da arquitetura e do urbanismo.

Mas, talvez a Casa de Vidro, que é uma prova de sua capacidade criadora e artística, possa ganhar uma importância diferente se relacionada à sua vida.

Em seus textos ela expressa que “esta residência representa uma tentativa de comunhão entre a natureza e a ordem natural das coisas, opondo aos elementos naturais o menor número de meios de defesa.” Nesse projeto, o alinhamento com a ordem natural das coisas pode representar um valor maior aceito, de acordo com os preceitos a partir dos quais sua autora concebe a arquitetura. Porém, em outro artigo, ela fala da função de uma casa que: “deve ser para a “vida” do homem, deve servir, deve consolar e não mostrar numa exibição teatral, as vaidades inúteis do espírito humano.” Ou seja, essa interpretação indica uma função essencial e de uma ordem mais pessoal.

Sob a perspectiva da história de sua vida e de como ela veio ter ao Brasil, tenho motivos para levantar a hipótese de que o projeto da Casa de Vidro seja o mais importante de sua carreira profissional. Claro que respeito a grandeza dos projetos do MASP e do SESC. Entretanto, o projeto de sua moradia pode ter proporcionado a ela a fundação de seus desejos mais internos, na cidade e no país de sua escolha. Daí então, podemos entrever a mulher desenrolando na obra a sua biografia, junção que representa a manifestação de algo maior de nossa natureza.  Levo em conta para essa interpretação a sensibilidade que existe na descrição dessa função: a casa é a “vida” do homem e deve servir e consolar.

E isso é o que ela precisava quando atravessou o mar em direção ao Brasil.

 

A pesquisa para este texto foi realizada na biblioteca do MASP (visitas agendadas), que conta com farto material a respeito da arquiteta e artista.

 

PS: Matéria a respeito da exposição O interior está no exterior, com entrevistas e informações:

http://mais.uol.com.br/view/xiddtuwnvlqs/metropolis--a-casa-de-vidro-de-lina-bo-bardi-0402CD193464C0A14326?types=A&.

 

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