Escrito por Edson Garcia Soares¹, Ana Carolina Segato Rizzatti², Elaine Reis³
O sistema de medicina indiano, o ayurveda (do sânscrito ayus, “vida”, e veda, “conhecimento”), criado há aproximadamente cinco mil anos, tem como principal preocupação o equilíbrio do organismo, pregando que a boa saúde é resultado direto de viver em harmonia com o Universo.
Tudo começou em torno de 3000 a.C., no Vale do Rio Indo, Índia, na cidade de Mohenjo Daro. Descoberta por arqueólogos em 1922, tinha instalações sanitárias tão avançadas como as do Império Romano, que só surgiriam 2500 anos depois. O conhecimento de higiene lá gerado sobreviveu à sua destruição por volta de 2000 a.C., influenciando a medicina que começara a surgir na Índia. Arianos vindos do centro da Ásia, em meados do segundo milênio a.C., conquistaram o Vale do Rio Indo, impondo seus valores à civilização lá existente. Eles introduziram um sistema de divisão social em castas e a religião baseada nos Vedas. Os Vedas, tradições transmitidas oralmente e depois compiladas em textos sânscritos, foram produzidos pelos brâmanes, casta que detinha a sabedoria cultural e religiosa dos arianos. Além de religiosos, esses textos contêm a fonte do conhecimento médico que constitui a base do ayurveda.
Os três primeiros Vedas – Rig Veda, Yajur Veda e Samaveda – ligados ao misticismo bramânico ortodoxo, contém descrições de práticas médicas baseadas em rituais mágicos e cultos a divindades. O quarto Veda – Atharvaveda – foi composto por brâmanes dissidentes em contato com a cultura autóctone da Índia, nas florestas, fundando o movimento aranyaka (de aranya, “floresta”), com linguagem mais objetiva e com referência mais direta à fitoterapia.
A partir do século 5 a.C., invasões e guerras levaram a transformações sociais, diminuindo a influência brâmane com assimilação de valores de outras culturas, particularmente o budismo. Os monges budistas propiciaram o intercâmbio entre a medicina ayurvédica e a medicina chinesa. Entre os séculos 2 a.C. e 2 d.C. surgiram os tratados médicos Caraka Samhita e Sushruta Samhita, onde são descritos os conhecimentos de anatomia, fisiologia, fitoterapia e cirurgia que formam o substrato do ayurveda. O conhecimento anatômico descrito nesses tratados deve-se ao fato de que os pioneiros do ayurveda dissecavam cadáveres, o que foi proibido na cultura ariana e cristã por muitos séculos.
Entre os séculos 10 e 12 acabou a era de ouro do ayurveda, com invasões de muçulmanos que impuseram seu sistema médico. Alguns textos foram preservados por monges que fugiram para o Tibete e Nepal. A tradição ayurvédica foi resgatada no século 16 quando o imperador mongol Akbar ordenou a compilação do conhecimento indiano. A ocupação da Índia no século 19 pelos ingleses, que reconheciam como legítimas só as práticas médicas ocidentais, novamente ameaçou de extinção ao ayurveda. Em meados do século 20, o movimento nacionalista indiano, liderado por Mahatma Gandhi, estimulou a busca pelas raízes do ayurveda, e seu renascimento. Hoje há cerca de 400 mil médicos ayurvédicos na Índia.
Enquanto a medicina ocidental “pode ser compreendida pela visão analítica característica do pensamento científico, o ayurveda se baseia em uma concepção holística do mundo, na qual o todo não se resume à soma das partes”. Para o ayurveda, a pessoa saudável é aquela que consegue equilibrar os quatro componentes da vida: corpo, sentidos, mente e alma. “Tudo é imensamente simples e, ao mesmo tempo, impossível de ser entendido em sua plenitude”.
A base metafísica da medicina ayurvédica – doutrina Samkhya – admite uma relação entre o microcosmo do interior do homem e o macrocosmo do mundo material, sendo um o espelho do outro – purusha. Nós e o Universo somos constituídos da mesma substância. É importante viver em harmonia com a natureza e cuidar da saúde. O ayurveda é mais preventivo que curativo. Geralmente usa exercícios, nutrição equilibrada, meditação, ervas, ioga e massagem.
A massagem ayurvédica é uma técnica de massagem profunda que integra manobras de tração e alongamento dos tendões e ligamentos, com a estimulação de diversos pontos e órgãos vitais. Tem sua eficácia comprovada na eliminação de toxinas e no combate ao estresse físico, emocional, mental e energético. Ativa a irrigação sanguínea, particularmente pela drenagem capilar e ativa a drenagem linfática. Dessa maneira, atua sobre os músculos, melhorando a sua nutrição e oxigenação e eliminando as toxinas acumuladas. Atuando sobre a pele, melhora a sua irrigação, estimulando as glândulas sebáceas e nutrindo os folículos pilosos dos pêlos e cabelos. Age também sobre os demais órgãos e sistemas do organismo.
O aumento do fluxo sanguíneo ocorre independente da atividade cardíaca, a qual, paradoxalmente, diminui. Os movimentos manuais repetidos fazem circular endorfinas e aumentam a capacidade imunológica pela revitalização dos linfócitos T-killer. Há recuperação rápida da fadiga e diminuição da dor e do estresse, dando sensação de bem-estar e relaxamento profundo do corpo.
A massagem ayurvédica age principalmente no relaxamento do organismo e na manutenção da saúde. Ela está indicada no alívio de dores musculares, dores reumáticas, problemas de coluna, vícios posturais, enxaqueca, estresse, depressão e síndrome do pânico, entre outras, além de fortalecer o sistema imunológico. É recomendada como terapia complementar nos tratamentos para transtornos físicos, emocionais, mentais ou espirituais. Essa massagem é contra-indicada em gestantes que não estão acostumadas a receber massagem, pois as manipulações podem prejudicar o bebê. Porém, existe uma adaptação após o 3° mês de gestação, que poderá se estender até o final da gravidez. Também não é indicada para pacientes com câncer porque pode ocasionar fraturas ósseas em pacientes com metástases ósseas subclínicas, ou seja, ainda não diagnosticadas. Deve-se evitar a realização dessa massagem em estados febris nos processos inflamatórios, ou então, evitar massagens vigorosas em locais inflamados ou com feridas cutâneas. Pacientes aidéticos e comatosos em estados terminais também não deverão ser massageados com essa técnica.
Desde que indicado o seu uso, recomenda-se pelo menos uma sessão por semana durante dez semanas. Cada sessão deve durar em média 50 minutos, acrescentando mais 10 a 15 minutos, no final, para o repouso do paciente. A massagem deve ser realizada no chão, sobre um colchonete, usando óleo vegetal, como forma de melhor deslizar as mãos sobre o corpo do cliente e propiciar aprofundamento mais eficiente no toque.
A massagem ayurvédica trabalha em todo o corpo físico. Tecnicamente utiliza-se massagem com os pés – caminhando nas costas do cliente – , com as mãos – palma, dorso e pontas dos dedos – , com o antebraço e o cotovelo. Ela é composta por movimentos suaves que são sempre direcionados no sentido das extremidades para a cabeça, podendo se inverter nos membros superiores. Nas regiões cardíaca e tímica a massagem ocorre com movimentos do centro para a periferia torácica. Já no abdome a massagem é feita por movimentos giratórios no sentido horário.
No campo físico, as disfunções da coluna vertebral diminuem, podendo até haver correção completa, pois o manuseio e o alongamento dos tendões e músculos devolvem ao corpo sua postura normal. Como parte integrante da filosofia védica, a massagem ayurvédica visa estimular todos os chakras maiores e menores do corpo. Como resultado das massagens, muitas pessoas relatam que observam que seus olhos passaram a ter mais brilho, sua pele ficou mais limpa, luminosa, enfim, que uma nova luz passou a brilhar em todo o seu ser.
Referência Bibliográfica: Rezende, Rodrigo. Ayurveda. Super Interessante: 203: 52-59, 2004.
¹ Médico com formação holística de base da UNIPAZ
² Bióloga com formação em massagem ayurvédica
³ Terapeuta holística, com formação e especialização em Yoga Massage Ayurvedic com a Mestra Kusum Modak. Coordenadora do Avathar Instituto de Formação Holística em São Paulo.