Brinquedos Artesanais

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“Os brinquedos nos dão testemunho de uma vida autônoma. Eles são um mudo diálogo entre a criança e o povo”.

Benjamin, 1984

As relações que permeiam o universo infantil, o brincar e o brinquedo, ao meu ver, merecem novas reflexões e percepções sobre o assunto. Categoricamente, necessitamos (educadores, pais, etc) de uma sensibilização genuína ao olharmos para estes aspectos, e assim resgatarmos a nossa própria experiência de quando fomos criança. Tomar consciência desse processo requer mudanças em cada um de nós; na verdade, precisamos resgatar o espírito lúdico em nossas vidas e reaprender a brincar. A partir desse contato com a “nossa criança interior”, talvez consigamos olhar e reeducar as nossas crianças com  profundo amor, seriedade e respeito, e oferecer a elas brinquedos que participam efetivamente da elaboração do eu em formação. Pode-se assim, compreender este período como um aprendizado essencial para o desenvolvimento humano.

Atualmente, vivemos num mundo excessivamente industrializado, onde o brinquedo moderno é difundido de forma contundente, sendo seu principal objetivo o de atingir um consumidor infantil. Estes brinquedos são, na maioria das vezes mecanizados, elétricos, armados, e formulados com materiais sintéticos, como os brinquedos de plástico, por exemplo, que possuem uma aparência artificial, ilusória e anti-estética. A criança que acolhe esses brinquedos acaba perdendo gradativamente a sensibilidade, o potencial criativo, exigindo estímulos cada vez mais fortes para brincar. Não raro a vemos desinteressar-se rapidamente pelos brinquedos de última geração e “inventar” brincadeiras com objetos variados que elas mesmas “transformam”. Segundo Tizuko Kishimoto, (2000), “a criança procura o brinquedo como uma necessidade, e não como uma distração. É pelo brinquedo que a criança se revela. As suas inclinações boas ou más, a sua vocação, as suas habilidades, o seu caráter, tudo que ela traz no seu eu em formação, torna-se visível pelos brinquedos que ela executa”.

Em função disso, penso que os brinquedos devem ser os mais simples possíveis, fáceis de se transformar com o uso da imaginação (blocos de madeira, bonecas de pano, fantoches de dedo, tricô ou crochê, entre outros) possibilitando às crianças o desenvolvimento de sua fantasia. Os brinquedos devem ser um incentivo, e passíveis de serem elaborados e não um produto já acabado. É importante que estes brinquedos sejam confeccionados com diferentes materiais naturais como tecidos variados de algodão, malha de algodão, lãs, feltro, madeira. Por serem materiais vivos, fornecem calor e permitem o verdadeiro significado da vida, pois a percepção sensorial transmitida por eles proporciona à criança, confiança e segurança no mundo dos adultos. Para Passerini (1998), “A força da imaginação criadora só se mobilizará e ampliará se a criança for respeitada em suas necessidades reais, entre as quais se inclui o brincar e o ouvir histórias. Para ela, a atividade lúdica relaciona-se a objetos ou brinquedos que, não muito elaborados ou definidos, lhes ofereçam a possibilidade de imaginar”.

Portanto, ainda que vivamos no século XXI, em plena era da ascensão tecnológica e industrial, os brinquedos artesanais devem continuar a fazer parte da vida infantil, pois a criança inconscientemente procura brinquedos simples que proporcionem o despertar criativo e espontâneo da infância. Segundo Brougère (1992), “olhar para o brinquedo é se confrontar com o que se é ou, ao menos, com a imagem do mundo e da cultura que se quer mostrar à criança. O brinquedo é um objeto que traz em si uma realidade cultural, uma visão de mundo e de criança”. Tanto a história do brinquedo quanto as nossas próprias experiências pessoais da infância permitem que se compreenda que, ao longo dos séculos, a criança e o brinquedo tiveram diferentes significados, portanto, é de suma importância, hoje, refletir sobre quais deles estão presentes nas brincadeiras infantis, nas escolas, casas, e espaços recreativos.

Nesse sentido, devido à realidade que a indústria cultural do brinquedo nos revela, convido você, leitor, a observar este cenário e a responder algumas questões básicas: Concordo com os tipos de brinquedos oferecidos às crianças? Estou disposto a fazer algo para mudar esta realidade?  É possível oferecer a criança elementos lúdicos que ajudem a elaborar o seu desenvolvimento integral – cognitivo, afetivo, emocional? Os brinquedos artesanais são, ao meu ver, indispensáveis para o desenvolvimento sadio da criança, uma vez que possibilitam a ela segurança, confiança, auto-estima, enfim, permitem a autonomia necessária para a construção do adulto, que ela será.

Pedagoga e Psicopedagoga

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