Escrito por Lílian de Almeida P. B. Sá
O filme “Crianças Invisíveis” (2005), aborda a visão de alguns renomados diretores de cinema como Ridley Scott, Spike Lee, Kátia Lund, dentre outros, sobre as crianças de seus países. Gostaria de que você leitor também pudesse vê-lo, e assim compreender a minha indignação (creio que a de muitos também) a respeito da infância no século XXI.
Na verdade, são histórias onde crianças e jovens encontram-se vitimados pela guerra, pelo preconceito, pelas drogas, pelas doenças, dentre outras condições sub-humanas.
Eles (as) gritam veementemente para o mundo, clamando por uma infância natural e simples...
Eles (as) querem apenas brincar, serem ouvidos, amados e cuidados, com calor genuíno...
Eles (as) querem alimentar-se adequadamente, expressar-se, terem o direito de ir a escola, terem um trabalho justo...
É interessante observar, que os problemas com relação à infância em vários lugares do mundo, independente de raças, etnias, e questões socioeconômicas, são estritamente comuns, e o filme relata estas questões, com muita propriedade.
Hoje, em nosso país estamos cada vez mais perplexos e angustiados com diversos fatores que massacram literalmente a infância, como: a influência da mídia, a indústria de brinquedos eletrônicos, o consumo exagerado, a sobrecarga de atividades, a evasão escolar, e em função disso, muitas das nossas crianças estão se tornando obesas, hiperativas, depressivas, com problemas de sono, atenção, concentração, falta de interesse, além de doenças alérgicas, problemas digestivos, e etc.
Percebemos que todos esses aspectos estão impedindo as crianças de serem elas mesmas, porém, a nossa sociedade e nossa cultura estão abafando o seu ser, a sua alma, a sua verdadeira essência.
Diante disso, me pergunto, até quando iremos nos deparar com os abusos contra a infância? Como enfrentar estes desafios? O que podemos fazer para impedir o desaparecimento do ser criança?
Para se compreender a infância, é necessário olhar para ela de forma abrangente e profunda, e este olhar, não pode ser baseado somente em teorias e discussões meramente intelectuais, mas, precisa também ser pautado nas nossas percepções, intuições, sentimentos e imagens, enquanto cuidadores de crianças. É de suma importância, além dos estudos sobre o desenvolvimento infantil, observar os seus movimentos, a sua gestualidade, a sua dinâmica de relacionar-se com os outros, com ela mesma e com o mundo. Urgentemente, precisamos ir ao encontro da profundidade de cada criança, respeitar o seu processo evolutivo e proporcionar atividades adequadas a sua faixa etária. Precisamos orientar os pais e incentivá-los a darem apoio e afeto a seus filhos. Precisamos olhar para as crianças de forma inteira, ler as mensagens do seu corpo, do não dito, das suas habilidades, medos e dificuldades. Precisamos cuidar da nossa criança interior, oferecer possibilidades de ser ela mesma, e expressar esse ser para o mundo.
Penso que uma infância com alma significa valorizar os gestos, as atitudes, os momentos, as produções de cada criança, e permanecer profundamente em contato com seus interesses, desejos, conflitos e carências. Necessitamos alimentar a sua alma de forma respeitável, através de histórias, músicas, brincadeiras, expressão corporal, atividades artísticas, ambientes aconchegantes, dentre outros, considerando a todo instante, a sua totalidade, a sua inteireza humana (corpo, emoções, mente e espírito). É, oportuno nesse momento atual de indignações, cultivar a confiança e a coragem em nós, e buscar a re-conexão com a nossa alma, aos sinais internos, para podermos transformar a infância, no seu real significado da palavra: meninice, simplicidade, espontaneidade...
Dez Direitos Naturais da Criança
Direito ao ócio: Toda criança tem o direito de viver momentos de tempo não programado pelos adultos.
Direito a sujar-se: Toda criança tem o direito de brincar com a terra, a areia, a água, a lama, as pedras.
Direito aos sentidos: Toda criança tem o direito de sentir os gostos e os perfumes oferecidos pela natureza.
Direito ao diálogo: Toda criança tem o direito de falar sem ser interrompida, de ser levada a sério nas suas idéias, de ter explicações para suas dúvidas e de escutar uma fala mansa, sem gritos.
Direito ao uso das mãos: Toda criança tem o direito de pregar pregos, de cortar e raspar madeira, de lixar, colar, modelar o barro, amarrar barbantes e cordas, de acender o fogo.
Direito a um bom início: Toda criança tem o direito de comer alimentos sãos desde o nascimento, de beber água limpa e respirar ar puro.
Direito à rua: Toda criança tem o direito de brincar na rua e na praça e de andar livremente pelos caminhos, sem medo de ser atropelada por motoristas que pensam que as vias lhe pertencem.
Direito à natureza selvagem: Toda criança tem o direito de construir uma cabana nos bosques, de ter um arbusto onde se esconder e árvores nas quais subir.
Direito ao silêncio: Toda criança tem o direito de escutar o rumor do vento, o canto dos pássaros, o murmúrio das águas.
Direito à poesia: Toda criança tem o direito de ver o sol nascer e se pôr e de ver as estrelas e a lua.
“Todo adulto tem o direito de ser criança” (Rubem Alves)
Pedagoga e Psicopedagoga, Formação em Pedagogia Waldorf, Arte-Educação e Socioterapia