Alfabetização – Aspectos Históricos e Alguns Pontos para Discussão

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Uma das questões constantes que têm sido objeto de preocupação da escola, dos pais e da sociedade de maneira geral diz respeito à alfabetização.

Inicialmente, apresento um breve histórico da alfabetização, colocando alguns pontos para reflexão, e, posteriormente, estarei disponível para responder às questões que me forem feitas.

O modelo escolar de alfabetização nasceu há pouco mais de dois séculos, precisamente em 1789, na França, após a Revolução Francesa.

Analisando a evolução da investigação e do debate em relação à alfabetização escolar, nos séculos XX e XXI, é possível definir, em linhas gerais, quatro períodos.

O primeiro período corresponde, aproximadamente, à primeira metade do século XX, quando a discussão se dava estritamente no terreno do ensino.

Buscava-se o melhor método para ensinar a ler. O debate mais candente travou-se entre os defensores do Método Sintético (o caminho sintético tem seu ponto de partida no estudo dos elementos menores da língua: fonema, sílaba), e os do Método Analítico (partem de elementos significativos da língua: texto, frases, palavras, e através da decomposição, chega-se aos elementos menores).

No Brasil, desde a década de 40, optou-se pelo denominado “Método Misto”, que traz características tanto das metodologias sintéticas de alfabetização quanto das metodologias analíticas.

O segundo momento, cujo pico foi nos anos 60, teve por centro geográfico os Estados Unidos. A discussão das idéias sobre alfabetização foi levada para dentro de um debate mais amplo em torno da questão do fracasso escolar. São desse período as teorias que hoje chamamos “teorias do déficit”. Supunha-se que a aprendizagem dependia de que pré-requisitos (cognitivos, psicológicos, perceptivo-motores, lingüísticos...) e que certas crianças por não dispor dessas habilidades prévias não aprenderiam. O fato de o fracasso escolar concentrar-se nas crianças de famílias mais pobres era explicado por uma suposta incapacidade das próprias famílias proporcionarem estímulos adequados.

O terceiro período começa em meados dos anos 70, marcado por uma mudança de paradigma advinda das contribuições das Ciências Lingüísticas, Ciências da Educação, Psicologia, dentre outras.  Até então, o enfoque concentrava-se nas questões relacionadas ao “como ensinar a ler e a escrever”. Passou-se, então, a buscar-se entender como as crianças aprendem a ler e escrever e o que pensam a respeito da escrita.

Um trabalho de investigação que desencadeou intensas mudanças na maneira de os educadores brasileiros entenderem o processo de alfabetização foi o coordenado por Emília Ferreiro e Ana Teberosky, publicado no Brasil com o título “Psicogênese da Língua Escrita”, em 1985.

A partir dessa investigação foi necessário rever as concepções nas quais se apoiava a alfabetização.

Os estudos de Ferreiro e Teberosky articulam-se para demonstrar a existência de mecanismos do sujeito do conhecimento (sujeito epistêmico) que, na interação com a linguagem escrita (objeto do conhecimento) explicam a emergência de formas idiossincráticas de compreender o objeto.

E, finalmente, o quarto momento, que se inicia nos anos 90, e marca a difusão das teorias sobre LETRAMENTO. No Brasil, dentre os pesquisadores renomados sobre o tema, podemos destacar os nomes de Magda Soares, Ângela Kleiman e Leda Verdiani Tfouni.

Atualmente, o conhecimento científico disponível mostra-nos que a alfabetização é um dos aspectos do Letramento, que pode ser entendido como “um processo de aquisição da escrita por uma sociedade”. (Tfouni, 1995).

Nessa direção, é fundamental que a escola considere que, em uma sociedade pós-moderna, é imprescindível que os sujeitos sejam alfabetizados e letrados.

A formação de sujeitos alfabetizados e letrados requer a realização de um trabalho pedagógico que promova não somente a aquisição do código escrito (como ocorre com as metodologias tradicionais), mas também a apropriação de saberes sobre o funcionamento da linguagem de maneira ampla, linguagem que é sempre ideológica e grávida, prenhe de sentidos, como diz Bakhtin.

As contribuições da abordagem sócio-histórica do Letramento (Tfouni e outros) mostram que um estudante pode ser considerado alfabetizado e letrado quando, além de ler e escrever proficientemente, consegue realizar produções lingüísticas orais e escritas nas quais ocupa a posição de autor de seu próprio dizer.

Vale notar que a proposta pedagógica de alfabetizar-letrando é mais ampla e exigente que a proposta da Psicogênese da Língua Escrita (que entende que o aluno está alfabetizado quando alcançou o nível alfabético de escrita).

É fundamental, portanto, uma pedagogia que possibilite ao aluno atribuir e produzir sentidos, empreender diferentes gestos de interpretação, o que lhe permitirá entender o funcionamento da ideologia em um texto. Uma pedagogia que desloque o educando da posição de sujeito repetidor para a de autor.

Gostaria de terminar dizendo que cabe à escola, no mínimo, alfabetizar.

Ser alfabetizado constitui, nas sociedades letradas, um direito que deve estar ao alcance de todos os cidadãos. Cada vez que um aluno abandona a escola sem ter-se apropriado dos instrumentos básicos de leitura e escrita, fica claro que a sociedade fracassa em seu empenho de dotar seus integrantes dos recursos necessários para participar ativamente dela.

Membro da ARE
Doutora em Psicologia da Educação pela FFCLRP-USP

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