Escrito por Prof.ª Drª.Sonia M. V. Bueno¹ / Larissa A. da S. Philbert²
O lúdico através do brincar e a aprendizagem estão intimamente ligados e são de vital importância para o desenvolvimento do ser humano, porque propicia o desenvolvimento simbólico, estimula a imaginação, a capacidade de raciocínio e a auto-estima. Desenvolve também a psicomotricidade, a capacidade de estabelecer relações espaciais e matemáticas bem como, a expressão verbal. E auxilia ainda, no processo de afetividade. Assim considera-se que a esfera lúdica, num plano emocional, é revitalizadora, tanto quanto mediadora da aprendizagem, que por sua vez, possibilita a criatividade.
Podemos então, considerar como brinquedo, qualquer objeto que a criança possa usar no ato de brincar. Alguns brinquedos permitem às crianças se divertirem enquanto que ao mesmo tempo, as ensinam sobre um determinado assunto. Brinquedos e jogos muitas vezes, auxiliam no desenvolvimento da vida social. O estado lúdico através do ato de brincar, geralmente, não exige um brinquedo que seja um objeto tangível. Ele pode, portanto, ocorrer também através de jogos simbólicos.
Não obstante, brincar é indispensável à saúde física, emocional, espiritual e intelectual da criança. É uma arte, um dom natural que, quando bem cultivados, irão contribuir, no futuro, para a eficiência e o equilíbrio na fase adulta.
Segundo Winnicott (1975, pág. 80) “é no brincar que o indivíduo criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral, e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)”.
O brincar estimula a inteligência porque faz com que o indivíduo solte sua imaginação e desenvolva a criatividade possibilitando o exercício de concentração, de atenção e de engajamento. O lúdico na verdade, é um convite à brincadeira, proporcionando assim, desafios e motivação.
De acordo com Rubem Alves, “brinquedo, para ser brinquedo, tem de ser um desafio. Há brinquedos que são desafios ao seu corpo, à sua força, à sua habilidade, à sua paciência. E há brinquedos que são desafios à inteligência. A inteligência gosta de brincar. Brincando, ela salta e fica mais inteligente ainda. Brinquedo é o tônico para a inteligência. Mas se ela tem de fazer coisas que não são desafiantes, ela fica preguiçosa e emburrecida”.
Por outro lado o corpo humano, os nossos sentidos e capacidades cognitivas são verdadeiramente, arquivos vivos, que podem ser modificados, e aperfeiçoados. As necessidades podem ser produzidas, bem como também organizadas, de diferentes maneiras. Ele é maleável, flexível, formado por diversos hábitos, valores e práticas estando, portanto, inscrito na história. O corpo é, pois um elemento moldado, a partir de normas e códigos de uma determinada sociedade a que se faz parte. Ele é educado por toda realidade que o circunda e, por conseguinte, por todas as coisas com as quais convive, bem como pelas relações interpessoais que estabelece.
Deveras, a aprendizagem, segundo Fernandez (1991, pág. 48) “é um processo cuja matriz é vincular e lúdica e sua raiz corporal; seu desdobramento criativo põe-se em jogo através da articulação inteligência - desejo e do equilíbrio, da assimilação e da acomodação”.
Percebemos então, que o ato de brincar é fundamental no universo da criança. É assim que ela se descobre, e descobre o mundo que a rodeia, porque o brincar é essencial à saúde física, emocional e intelectual do ser humano. Através da brincadeira, a criança se re-equilibra, recicla suas emoções e sacia suas necessidades de conhecer e reinventar a realidade, ou seja, auxilia na estruturação da sua base construtiva proporcionando o asseguramento necessário para a progressão natural do ciclo vital humano.
O lúdico por meio do brinquedo e do jogo pode além de educativo e recreativo, ser utilizado em tratamento psicoterápico, com crianças com problemas emocionais, causados por fatores variados, ou que apresentem distúrbios de comportamento, baixo rendimento escolar ou dificuldade de aprendizagem. (BUENO, 1981)
O lúdico destinado, antigamente, às práticas terapêuticas em clínicas, perpassa hoje, por ambientes distintos como escolas, hospitais, presídios, condomínios, hotéis, clubes, centros comunitários, bares, empresas, etc.
Através do lúdico, do interativo e da brincadeira, podemos levar para a sociedade, os conhecimentos gerados nas universidades e nos centros científicos de estudo e pesquisa, por meio da transposição didática. (BUENO, 2001) Um exemplo disso são as oficinas de Robótica, com enfoque na pedagogia de projetos, no desenvolvimento de atividades de pesquisa, experimentação, análise e discussão em grupo proporcionando assim a, possibilidade de vivenciar, na prática, o que se aprende. A Robótica Educacional possibilita então, o desenvolvimento de habilidades e competências com o trabalho de pesquisa, estimula ao desafio, à capacidade crítica, o senso de saber contornar as dificuldades na resolução de problemas e o desenvolvimento do raciocínio lógico com o suporte da tecnologia.
O lúdico tem sido aplicado, com grande sucesso, também em algumas empresas do setor automobilístico, como recurso de treinamento de funcionários, com o objetivo de reduzir custos e de melhorar os processos internos. Por exemplo, uma brinquedoteca que simula uma fábrica automobilística em miniatura, simula as etapas da linha de produção, desde a montagem até a inspeção do produto final. Isto posto os problemas que podem ser enfrentados nos processos e soluções são discutidos por toda equipe, tendo como meta principal, que isso não ocorra no chão de fábrica.
Assim sendo, as linhas de produção de miniatura nesta área, são partes de programas mais amplos de produtividade, cada um inspirado em diferentes conceitos, mas com o mesmo objetivo, o de desenvolver meios de transporte de baixo custo, mas com qualidade e designs atrativos aos consumidores. Algumas indústrias denominam-na de minifábrica, de academia, entre outros nomes. E essa faz parte de um programa chamado ONDA PMP – Processo de Melhoria de Produtividade. A Volkswagen, Generais Motors, Ford e Renault construíram minifábricas de carrinhos para reproduzir conceitos de montagem enxuta e eficiente para conseguir detectar defeitos antes que o brinquedo vire um meio de transporte de verdade. Essa estratégia utilizada pelas empresas tem contribuído também, para o desenvolvimento cognitivo, físico, emocional e espiritual de seus funcionários com o uso de brinquedos pedagógicos e de construção como a Robótica Educacional.
É significativo ver que o pedagógico está perpassando todas as camadas da sociedade, extrapolando o âmbito escolar formal, e abrangendo esferas mais amplas da educação informal e não-formal.
O profissional da área educacional não é mais só o profissional que atua no ambiente escolar. Ao contrário, dispõe de uma imensa área de atuação, tais como: empresas de diversos setores, ONGS, editoras, sites, assessorias e consultorias especializadas em T&D e em todas as áreas que requeiram um trabalho educativo. Segundo Peter Senge (apud in Chiavenato, 1999, p. 320), os empresários devem estimular e conduzir a mudança, para criar organizações que visem aprender sempre, ou melhor, que todos passem a investir na educação contínua, porque somente através da educação que se pode transformar uma sociedade. (BUENO, 1991)
Diante da atual realidade em que se encontra a sociedade, a educação é a mola mestra para enfrentar os desafios que se articulam dentro dela e em todos os seus segmentos, desafios gerados esses, pela globalização. A educação é, pois, a viga propulsora para a transformação contra as circunstâncias de miséria, tanto intelectual quanto econômica, política e sócio-educativa do povo, promovendo acesso para aqueles que são vistos como os excluídos, possibilitando assim, a mudança da sociedade para possibilidade mais justa e mais igualitária possível.
A aprendizagem e o treinamento nas empresas são os diferenciais de competitividade, qualidade e lucratividade. Por esse motivo, o investimento no conhecimento contínuo e coletivo do capital intelectual tende ao crescimento progressivo. Esse conceito assemelha-se, integralmente, ao novo conceito educacional de escola e da sua função social. Segundo a Pedagoga Maria Inês Fini, a escola não é mais o lugar de simples transmissão do conhecimento, é: [...] o espaço das relações humanas, deve ser usada para aprimorar valores e atitudes, além de capacitar o indivíduo na busca de informações, onde quer que elas estejam para usá-las no seu cotidiano. (Revista Nova Escola, 2000).
Enfim, percebemos que o lúdico e ações educativas se fazem necessários em qualquer ambiente onde existam indivíduos em situação de aprendizagem, e isso nos remete a concluir que todos os indivíduos estão aptos para o processo de aprendizagem seja ele formal ou não. E se for através de possibilidades lúdicas, melhor para todos!
Referência Bibliográfica
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WINNICOTT, Donald. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975.
¹Doutora e Livre Docente do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto / EERP – USP; Presidente do Centro Avançado de Educação para Saúde / CAESOS – USP
²Membro efetivo do Centro Avançado de Educação para Saúde / CAESOS – USP