A Galinha

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“Educar é perder sempre, sem perder-se”

Artur da Távola

A galinha tomou as páginas dos jornais e revistas quando uma delas foi atirada contra a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy: a mídia nacional virou um galinheiro, por um certo espaço de tempo.

Nas escolas, na versão dos meninos, elas já existem há muito tempo (desde os meus velhos tempos). Galinha é o nome dado às meninas que passam de mão em mão, as namoradeiras, as permissivas, as mais liberais: existem as “para casar” e as “para ficar”, sendo tudo permitido no momento de ficar: são até realizadas competições de quem beijou mais numa mesma noite ou quem namorou mais durante o ano letivo.

Nos tempos atuais, em que os “casais” gays ocupam espaço na mídia lutando pelo direito de se “casarem”, mulheres beijam mulheres em apresentações internacionais (e isso tudo divulgado, inclusive, via Internet), particularmente acho interessante e promissor quando ainda dois jovens (casal de menino e menina) se sentem atraídos.

Num mundo em que a mídia enaltece e promove mais o prazer do corpo do que o prazer do espírito, em que os pais temem a reação dos filhos, que um ator em apresentação de “Tristão e Isolda” mostra as nádegas fora do contexto da peça, em que vereadores e empresários promovem orgias com menores, em que pais estupram filhas com anuência das mães, fica muito complicado, na convivência escolar, pedir aos jovens que respeitem os mais vividos e seus velhos valores.

Mesmo para nós, os mais experientes e cinqüentões (não sejamos falsos moralistas) beijar é muito bom, arroubos de paixão são ótimos, mãos percorrendo corpos é alucinante, o calor de corpos e bocas sedentas é quase irresistível: mas existe lugar apropriado para tudo.

Existe lugar para tudo, sim, até para um namoro mais, digamos, “caliente”. No pátio, na frente, nos arredores do colégio, vestindo o uniforme do colégio, o namoro ou “ficada” mais quente, com direito a “amasso”, passa a ser, por exemplo, uma afronta para os olhos dos mais idosos que vão buscar seus netinhos ao final das aulas, uma provocação para as mães de crianças menores que vêem no gesto um incentivo prematuro à iniciação sexual.

E então surgem os problemas e os confrontos, tendo em vista que a dificuldade de perceber e respeitar o outro acaba de ser medida por uma pesquisa da Ipsos Brasil, em nove capitais brasileiras, com estudantes de escolas privadas. O resultado é estarrecedor (mas não surpreendente, para quem trabalha com jovens). Entre os entrevistados, 59% disseram que “fazem o que querem e não se preocupam com os outros”.

Diante dessa realidade, só restam aos educadores, nas escolas, duas saídas: distribuir camisinhas a mãos cheias (e não mais livros?) e permitir que os casais mais afoitos (sejam eles homo ou hetero) matem suas paixões nos pátios e salas de aula (para felicidade geral da juventude estudantil) ou orientar, coibir excessos, avisar os pais sobre o andamento do “ficar” de seus filhos e contar com o apoio irrestrito dos responsáveis (o que nem sempre acontece), correndo o risco concreto de ser acusado de estar invadindo a vida privada (seria mesmo privada?) dos inocentes amantes.

Prefiro ficar com Artur da Távola: “Eu educo hoje com valores que recebi ontem, para pessoas que são o amanhã. Os valores de ontem, conheço-os. Os de hoje, percebo alguns. Os de amanhã, não sei. Se só uso os de ontem, não educo, condiciono; se só uso os de hoje, não educo, complico; se só uso os de amanhã, não educo, faço experiências à custa das crianças; se uso os três, sofro, mas educo “.

Orientador Educacional do Colégio Anchieta/Objetivo - ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras

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