Escrito por Impresso originalmente no Informativo da Escola Waldorf de São Paulo
A prática educativa Waldorf visa desenvolver o indivíduo como pessoa e ser social, inserido em seu tempo. Por isso ela trabalha o aprendizado como habilidade do pensar, do sentir e do querer.
A integração entre essas três faculdades do ser humano orienta todas as nossas ações educativas e usamos, entre outros recursos, particularmente a arte para atingir tal objetivo. Ela está presente em praticamente todas as nossas atividades de aprendizado: na sala de aula, nas oficinas coletivas semanais e festas anuais.
A Pedagogia Waldorf considera a arte uma ferramenta eficaz para a promoção do aprendizado. Nesse contexto filosófico, o aluno desenvolve o discernimento sobre si próprio, sobre os conteúdos que deve assimilar, bem como sobre o funcionamento do mundo. É por isso que a criança do Ensino Fundamental, por exemplo, aprende nos primeiros anos do curso a fazer tricô e crochê. As duas habilidades ajudam a desenvolver a lateralidade. O tricô, no primeiro ano, estimula igualmente as duas mãos. Aos 7 anos a dominância de um dos lados (esquerdo ou direito) ainda não foi definida. O crochê, em que predomina o uso de uma das mãos, só é introduzido no ano seguinte, quando a dominância já foi definida. Quando chegam ao 5º ano aprendem geometria desenhando rosáceas e tentando localizar dentro delas o quadrado, o triângulo, o retângulo e a circunferência; entre outras figuras, os alunos estão tendo acesso à percepção dos conteúdos abstratos da matemática a partir do concreto. Através de variadas brincadeiras rítmicas, elas dominam ainda a coordenação motora para manejar os instrumentos pedagógicos que utilizam nessa fase, como a régua e o esquadro, o compasso e, a partir dela, controlam seu equilíbrio físico e emocional, dois aspectos que andam juntos e estão em rota de ajustamento nesta idade. Na oficina de marcenaria finalmente, os alunos aprendem a modular a própria personalidade, mais agressiva ou dócil, ao ter que trabalhar com tipos diferentes de madeira – mais duras e mais moles. As crianças mais “agressivas” se saem bem no uso das madeiras duras, mas chegam a quebrar as mais moles até aprender a dosar a força e a pressão exercidas sobre o material. As crianças mais introvertidas experimentam o inverso, ou seja, acabam tendo de mobilizar maior energia e esforço físico para dar conta de manipular a madeira dura. O resultado é o equilíbrio e a harmonia, não só da ação – uma vez que essa condição é necessária para que consigam dosar o esforço empregado e sejam bem sucedidos na produção da peça planejada na oficina – uma colher, uma escultura, etc. A incorporação da arte em todos os âmbitos de nossas estratégias de ensino permite aos alunos conhecer o material com que trabalham, as leis que o regem – que é o do domínio técnico; desenvolver o pensar – que é do domínio da percepção estética – para o belo ser bem feito; e modular o sentir enquanto vontade de concretizar uma tarefa da melhor maneira – que é do domínio do crescimento emocional.
A mesma concepção orienta a vivência dos conteúdos.
O corpo docente leva a pintura, a música, a poesia e o teatro para a sua prática, como recurso didático. Os alunos podem aprender geografia pintando a costa litorânea brasileira e suas características variadas, por exemplo, ou recitando um poema em que os versos descrevem um por um cada tipo de relevo e acidente geográfico. Quando a relação com o outro começa a tornar-se mais complexa ou até dramática, o que costuma ocorrer no final do ensino fundamental, a música, o teatro, a poesia passam a ser recursos básicos para transformar os sentimentos e o humor vivenciados pelos adolescentes, em produto de conhecimentos e criação artística. No trabalho obrigatório de teatro, o oitavo ano, por exemplo, enfrenta o desafio de superar seus próprios limites, inibições e constrangimentos para levar ao público um espetáculo inteiro, ao mesmo tempo em que estudam textos literários, modulação da voz, postura; e desenvolvem a sociabilidade, solidariedade, enfim, a camaradagem entre eles e com a comunidade escolar. A experiência da arte no aprendizado, entre outras palavras, integra a necessidade de aprender com a vontade de entender e de experimentar, bem como com a vontade de realizar. O percurso feito pelo aluno dentro dessa metodologia contribui, a nosso ver, para que além de bom estudante se torne um ser ativo no meio social, capaz de empreender e criar, liderar e participar.