A arte da oratória

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Na última semana fui convidada por uma grande empresa para ministrar uma palestra sobre “Como se comunicar com o público”. A primeira questão que me veio à mente foi o perfil dos participantes. Soube então, que se tratava de profissionais em treinamento que deveriam se relacionar com o público. Aceitei prontamente a tarefa, pois através dos cursos de oratória que tenho ministrado na universidade e dos contatos com as pessoas que me recepcionam nos estabelecimentos comerciais, tenho percebido a dificuldade cada vez maior de comunicação entre as pessoas.

Identifiquei o convite como uma oportunidade de transmitir alguns conhecimentos que julgo como sendo fundamentais no relacionamento interpessoal. Foi-se o tempo em que uma pessoa era avaliada pelo seu raciocínio lógico e habilidades matemáticas. Depois que o psicólogo Goleman publicou seu livro “Inteligência Emocional” e Gardner descreveu sobre as “Inteligências Múltiplas”, sabe-se que pessoas emocionalmente competentes são aquelas que conhecem e lidam bem com os próprios sentimentos e também com os dos outros. Tais pessoas têm maior probabilidade de se saírem bem nos relacionamentos e na área profissional, o que lhes dá um sentimento de maior satisfação pessoal.

Diante de tais aspectos, eu lhes pergunto: - Qual é a principal habilidade que deve ser desenvolvida para que se tenha uma competência comunicativa?

A maioria dos senhores deve estar pensando que a fala é a habilidade mais importante. Realmente, falar bem é fundamental para uma boa comunicação, inclusive já tivemos a oportunidade de relatar sobre esse assunto em artigos anteriores. Mas, vou lhes dizer que a maior habilidade que uma pessoa pode desenvolver em termos comunicativos é a capacidade de ouvir. Ser um bom ouvinte não é fácil, pois exige uma percepção do outro. A capacidade de ouvir antecede a de falar e sabemos que em relação ao desenvolvimento da criança esse fato também é verdadeiro.

Para que eu perceba o outro devo, primeiramente, conhecer-me. Parece que a obviedade encontra-se presente nessa afirmação, no entanto, as pessoas nunca estiveram tão voltadas para os aspectos externos do mundo e refletiram tão pouco sobre os seus papéis como na atualidade. Guimarães Rosa em seu conto “O espelho” narra o susto do personagem ao deparar-se com a própria imagem no espelho, pois ao se olhar, identifica “outras imagens” e realiza um grande esforço para encontrar seu verdadeiro eu ou o “eu por trás de mim”. Analogamente, todos nós deveríamos fazer um esforço em direção ao autoconhecimento o que contribuirá, demasiadamente, com o sucesso na comunicação.

Demóstenes foi o maior orador grego e era gago, para superar sua dificuldade colocava pedrinhas na boca enquanto se exercitava à beira-mar. Seu maior feito como orador foi derrotar seu tutor perante os tribunais gregos com sua arte ao falar. Um outro gênio da oratória foi Padre Vieira, considerado o maior orador sacro de Portugal, realizou muito de seus sermões no Brasil. - E o que será que ele fazia para “tocar” seu público? Aproximava-se da realidade e das questões morais, filosóficas e políticas de todas as camadas sociais. Era, portanto, alguém que conhecia seu público e seus desejos, sabia ouvir seu interlocutor e refletir sobre suas necessidades.

A arte da oratória não deve ser vulgarizada pelos estrategistas políticos, em prol de interesses pessoais. Agir de forma inteligente é, em um primeiro momento, conhecer-se; o que refletirá em um maior potencial para lidar com os próprios sentimentos tendo um melhor entendimento sobre o interlocutor e as situações adversas que podem irromper ao longo do discurso. Infelizmente, o stress e a correria do dia-a-dia não propiciam um autoconhecimento, pois conhecer-se exige recolhimento, concentração, disciplina e vontade. Esse primeiro passo levará ao controle emocional e a habilidade de relacionamentos interpessoais que faz parte do que Goleman denomina de “Inteligência Emocional”.

Atualmente, as famílias têm pouco tempo para seus filhos, educar uma criança para utilizar sua inteligência emocional tem ficado cada vez mais distante dos currículos escolares, pois as escolas tornam-se cada vez mais competitivas e absorvem a maior parte de seu tempo com atividades de raciocínio ou “decorebas”. Algumas poucas escolas, e dentre elas podemos citar as que utilizam a Pedagogia Waldorf, têm o privilégio de estimular seus alunos de forma equilibrada tanto no conteúdo formal como no artístico e filosófico.

O mundo tecnológico demanda uma sociedade tecnocrata, lógica e pragmática, no entanto, para se conhecer pessoas temos que, em um primeiro momento, nos conhecer e aprimorar nossa arte de comunicação ou “entrar em contato com nosso eu” para, posteriormente, aperfeiçoar nossa escuta na tentativa de compreender o “outro” e seu desejo. O treinamento para ser um bom orador pode começar em casa, entre família, escutando nossos pais, filhos, companheiros, exercitando nossa paciência, humildade e gentileza.

Como se conquista a arte da oratória? – Como diz um amigo, o primeiro passo é gostar de gente!

Fonoaudióloga clínica e professora universitária. Especialista em Linguagem, Mestre e Doutora pela FFCLRP-USP. Formação em Antroposofia: Medicina Antroposófica, Quirofonética, Biográfico

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