Escrito por Dr. Paulo Neves Júnior
Bem habitualmente, ouço os pacientes á minha frente se expressarem da seguinte forma:
- Eu sempre fui saudável, não entendo como essa doença foi aparecer... Há também uma outra frase, também comum:
- Minha vida está sem maiores problemas, está tudo sem sobressaltos, estável, mas eu não estou bem, não me sinto bem, não sei o que acontece comigo e não sei de onde vem esse mal-estar...
Rudolf Steiner deixou na obra da Antroposofia diversos apontamentos que dão aos profissionais da saúde, um ponto de partida para levar os olhos às situações colocadas acima.
As duas frases remontam à questão tão habitual na vida do médico: a primeira, deparar-se com o sofrimento humano em uma doença fisicamente configurada. Para a qual a faculdade de medicina joga os maiores esforços na preparação do futuro médico. A segunda frase, a de um sofrimento do terreno “emocional”, no qual a faculdade prepara bem mal o estudante para lidar com a situação. As faculdades de medicina preponderam bastante o foco no corpo, enquanto a psique (usarei o termo alma), fica em segundo plano. Situação contemporânea: o estudo da alma ficou a cargo da Psicologia. Obra do estímulo de Descartes. O sábio diz que o ponto de vista, é a vista do ponto. Essa postura, a primazia do corpo na medicina, leva a uma incoerência de ângulo de visão: pois quaisquer doenças físicas levam a um sofrimento da alma. Ao contrário dos animais, que não têm crises existenciais. Assim, o ser humano não sendo um animal, sofre existencialmente por distúrbios ou desconfortos em qualquer que seja o nível acometido. E a dicotomia cartesiana leva às disfunções de atuações terapêuticas.
Antroposoficamente falando, somos seres ternários: temos corpo, alma e espírito. Se somos um espírito, nosso corpo o abriga e para tal há a necessidade da existência da alma para intermediar um ser espiritual em um mundo terreno. O espírito que aqui vou chamar de “Eu”, é único, distinto, peculiar a cada um de nós.
A criança logo ao nascer revela o fenômeno da plena imaturidade. Nascemos com a premissa de que precisamos ser bem cuidados para sobreviver. O Eu daquele ser já está ali dentro, contudo, não manifesto. As crianças tenras são indistinguíveis quanto ao seu comportamento e acompanhamos sua evolução adequada através da observação das suas manifestações instintivas: sono, mamadas, reflexos, evacuações, etc. À medida que a criança vai crescendo, ela vai seguindo alguns necessários passos para uma adequação progressiva a si mesmo e ao mundo. Do nascer até o término do primeiro ano, a criança assume a posição vertical, subordinada à indicação do eu de que a verticalidade é premissa humana. A etapa seguinte é a conformidade de primeiro andarmos, depois falarmos e terminando quando estamos prontos para pensar: findam-se aqui os marcantes primeiros sete anos de vida. Steiner aponta esse fenômeno humano de que, entre várias fases de desenvolvimento humano, é importante o fenômeno dos ciclos de sete anos: os setênios. O Eu vai se metamorfoseando em suas ações a cada sete anos. De 0 a 7 anos ele trabalha no intrínseco processo de grande crescimento corporal, ao mesmo tempo em que se há baixíssima autoconsciência. Está aqui surge em torno dos 3 anos de idade. No primeiro setênio nosso ser espraia-se no meio exterior e vice-versa. Por isso é época de cuidados intensivos e deve ser dado o que há de melhor no mundo: intensos cuidados e qualidade de aporte. De 7 a 14 anos se firma a autoconsciência e a criança tem a nítida percepção de que ela e o mundo são distintas. A maneira como lidamos com esse ser é oferecendo um estímulo de visão do que há de estético no mundo: para essa fase em que nasce a vida interior conduzimos a criança a ver através dos recursos das figuras de linguagem. Steiner nos sugere que usemos de uma linguagem figurativa, assim nós adornamos o mundo para a criança do segundo setênio. De 14 a 21 anos, o mundo surge para o se humano em sua concretitude. Do céu chegamos à terra, com todos os seus matizes. Então é hora dos adultos se relacionarem com essa fase, sem quaisquer demagogias nas relações: sabemos que os adolescentes têm um senso aguçado para perceber isso, a hipocrisia dos adultos. Aos 21 anos encerra-se o crescimento corporal e o eu até então ligado a essa esfera, se solta para o desenvolvimento pessoal. Agora há a maioridade para o aperfeiçoamento de si mesmo. Entre 21 e 28 anos é hora de ir ao mundo, de abraçá-lo, de encontrar novas pessoas e aprender bastante – acabando de vez com todos os resquícios da adolescência. Dos 28 aos 35 anos, temos um respirar entre a vida interna e externa e geralmente as pessoas estão mergulhadas em suas profissões. Com 35 anos, nossa vitalidade se expressa corporalmente com os sinais de envelhecimento. A maturação da idade reflete-se no corpo. De 35 a 42 anos é o caminho do processo do culminar com uma plena autenticidade: você sabe quem você é e por isso respeita como as outras pessoas são. De 42 a 47, sabe-se que há experiência, há uma bagagem nas costas. É hora de exalar isso para o meio circundante, para quem necessita. De 49 a 56 anos, mais essa premissa de oferecimento se irradia da alma: os seres humanos têm a perspectiva de oferecer ao mundo seus frutos de muita qualidade e moralmente correspondentes. De 56 a 63 anos, a gente irradia uma postura de grande sabedoria. Daí para a frente, essa irradiação do Eu se revela como a espiritualidade ampla a favor do bem de tudo e de todos: suma autoconsciência.
O brevíssimo resumo feito mostra as possibilidades de evolução espiritual dos seres humanos. Nascemos imaturos fisiologicamente e sem qualquer nível de autoconsciência. Morremos envelhecidos, com os tecidos ressequidos e com plena autoconsciência e cheios de sabedoria. Então a realidade nos revela que para nosso autodesenvolvimento, precisamos envelhecer. Esse processo no tempo, quando revestido de um caráter orgânico, revela uma evolução saudável. À medida que vamos tomando consciência de nosso próprio Eu, que não se desnuda numa linha contínua, mas que se expressa mais em determinados momentos, vamos tomando conta de que caminhamos com metas. Percebemos que temos várias missões de vida, da maior a pequenas missões. De 0 a 21 anos estamos ligados à hereditariedade e ao meio em que crescemos: aqui já expressamos habilidades que mostram que são inatas. De 21 a 42 lapidamos nossa alma quando lidamos com as dos demais: um jeito de me olhar no espelho, olhando-me no outro. Percebo nessa fase que temos instrumentos dentro de nós que já existem, porém precisam ser esculpidos, cultivados e aperfeiçoados. Para isso é necessário disposição para suar e uma coragem básica. De 42 anos para a frente é a oportunidade de levar frutos, os mais qualitativos possíveis ao mundo, como um envoltório de ação individual para o meio comum. Aqui é o momento em que cada um conhece suas habilidades, suas competências, e também mais um pouco de coragem para ter ciência de suas fragilidades. Quem dá a nítida percepção de que há uma linha que atravessa com coerência o nosso caminhar na vida, do nascimento à morte é o Eu. A perda dessa noção, como um todo, ocorre nas doenças psiquiátricas graves. Nos casos onde não existem esses distúrbios psiquiátricos graves, os desvios de rumo das nossas missões de vida levam aos adoecimentos mais comuns. Por isso na Medicina Antroposófica dizemos que as doenças, os sofrimentos humanos, apresentam um caráter autopedagógico. Adoecemos para olhar para dentro, para a gente olhar para o interior da alma, é pausa para reflexão. Se a gente não pára, não ponderamos, não avaliamos, não cultivamos um espaço interior. Espaço, aliás bem solapado pela cultura atual de ser chique, fashion, devassar nossa vida privada (tais como blogs na internet, programas – deprimentes – televisivos tipo Big Brother...). O desvio de rota das nossas grandes metas, o que caracteriza uma forma de autoboicote, leva à criação de um terreno, que freqüentemente após vários anos traz um evento de caráter “negativo” que leva ao sentimento de estarrecimento das frases citadas no início do texto. Isso também serve àquelas situações de sofrimento que aparentemente parecem ser causadas por um evento externo. Alguém me relata que teve o “azar” de ter sido atropelado por uma motocicleta ao atravessar uma rua. Esmiuçando a história, essa pessoa revela que estava “distraída” ao atravessar a rua naquele momento. O que levou a essa distração é que ela estava profundamente absorta em pensamentos ligados a um dilema que estava vivendo e não sabia qual rumo tomar.
Bernard Lievegoed, psiquiatra holandês, elaborou esse ramo de abordagem e lançou as bases da consultoria biográfica. Gudrun Burkhard – mestra a quem presto minha reverência - a médica pioneira da Medicina Antroposófica no Brasil, reestruturou o método e passou a divulgá-lo entre nós. A metodologia conduz as pessoas a descreverem a sua biografia através das orientações de um terapeuta. Este possibilita o entrecruzamento das informações a uma linha de continuidade para uma contemplação do caminho biográfico das pessoas. De maior proveito, quando o processo é feito em grupo. Se feito individualmente é perdida a imensa e singular oportunidade de ouvir e captar a essência da biografia de outras pessoas, o que traz um retorno individual a cada biografia dos presentes. É um modelo que visa trabalhar o mote das perguntas do início do texto, no sentido de trazer um nexo para se detectar as inter-relações que levam ao adoecimento e às crises existenciais. Dando-se conta do panorama da vida, possibilita-se mirar daí para a frente o futuro e modificar o comportamento através de novas miradas e ações diferentes. Através de um exercício de autoconhecimento. O objetivo é olhar para a frente de maneira diferente, com mais consciência, com mais autocrítica, mudando o rumo daquilo que está levando ao desvio e trazendo novamente à rota da nossa missão de vida. Para isso é necessário um distanciamento emocional, para ver com mais clareza, situação essa que passa a ocorrer em nossas vidas após os 28 anos.
Clínica Médica e Reumatologia Antroposóficas. Consultor Biográfico