A Linguagem do Envelhecer

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Parece difícil afirmar que podemos aprender a envelhecer em um mundo onde a beleza, juventude e dinamismo são esferas dominantes. Ao ler o último artigo do Dr. Paulo Neves Júnior (Jornal Peregrino das Letras de junho/2007), fiquei refletindo a respeito das questões aventadas por ele sobre a depressão na sociedade atual e percebi a estreita relação entre essa temática  e a do envelhecimento.

Gostaria de contemplar, neste momento, de que maneira, enquanto profissional da área da saúde e educação, percebo a construção histórica do envelhecer. Já em nossa infância, aprendemos a envelhecer observando nossos pais, tios e avós, pois estas são as gerações que, através de seus hábitos e costumes, nos transmitem parte de sua história e cultura, a qual irá permear nosso espírito disciplinando nosso querer. Quando viajamos para cidades pequenas ou lugarejos, percebemos que tradições são passadas de gerações para gerações e guardadas como jóias raras, verdadeiras preciosidades. As tradições são transmitidas não só através do fazer, mas também da linguagem oral, pois contar casos, histórias de família, cantigas são formas de deixar para as gerações mais jovens condutas, práticas e costumes que alicerçam o Eu e, portanto, lhes dão segurança.  Infelizmente, na atualidade, hábitos e costumes não têm sido preservados e nem mesmo valorizados pelos mais jovens. Afinal, quem pode concorrer com fastfoods, “enlatados da televisão” ou raves?

Na sociedade contemporânea o que é mais valorizado é o consumismo, o imediatismo, não perder tempo, ser produtivo e ganhar dinheiro para mais consumo. Nossos avós e suas tradições não conseguem perpetuar seu espaço em um mundo como esse e os jovens não aprendem a valorizar tal linguagem. Por outro lado, as gerações mais velhas também não querem envelhecer, pois não reconhecem qual espaço poderão ocupar. Esta é uma época do “conservar-se sempre jovem”.

O mundo atual não construiu um lugar valorizado para aquele que envelhece, pois se deve envelhecer com qualidade, disciplina e espiritualidade. Se por um lado, os jovens não são receptivos para com os ensinamentos dos mais velhos, esses últimos, muitas vezes, tornam-se rígidos, desconfiados e autoritários. Tais condutas demonstram uma inflexibilidade e cristalização do pensar o que pode contribuir, ainda mais, para as doenças degenerativas.

O que fazer então para atingirmos um “meio-termo”?

Verificamos que as escolas, de um modo geral, ensinam disciplinas para que os estudantes sejam produtivos no mundo, mas não preparam as crianças e jovens para uma vida feliz. Não há felicidade sem família e amigos! A linguagem da felicidade é compartilhar, valorizar, repartir tudo o que temos, e esta deveria ser também a linguagem da juventude e do envelhecer, cada um em seu tempo pode contribuir para sensibilizar o outro e o mundo, pois todos sabem uma história, um conto, uma receita, um bordado. Ensinar o que se sabe é deixar o pensamento acordado e a vida pulsando.

Os pais deveriam ter um tempo diário para conversar com seus filhos, sejam crianças, jovens ou idosos. Esse jeito de ser abriria uma possibilidade para os filhos compartilharem seus momentos felizes e tristes. Compartilhar é dividir, retribuir, doar.

Vocês poderão me perguntar nesse momento: - Afinal, qual é a linguagem do envelhecer? A meu ver é aquela que toca nossa sensibilidade desde que nascemos, é aprendermos a admirar as estrelas, o olhar da criança, um pôr-do-sol, uma música... Mas, principalmente, não ter medo do confronto consigo mesmo, não temer a própria imagem diante do espelho e, parafraseando o conto “O espelho” de Guimarães Rosa, podemos dizer que há um “bendizer” para aquele que consegue se colocar diante do espelho e procura, além das rugas e expressões da idade a sua fisionomia mais pura, a que revela a imagem de sua essência.

Mestre, são plácidas
Todas as horas que nós perdemos
Se no perdê-las, qual numa jarra,
Nós pomos flores...
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranqüilos, plácidos,
Tendo as crianças por nossas mestras,
E os olhos cheios de Natureza...
O tempo passa.
Não nos diz nada.
Envelhecemos
Saibamos, quase maliciosos,
Sentir-nos ir...
Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos
Para aprendermos
Calma também...

Ricardo Reis

Fonoaudióloga clínica e professora universitária.
Especialista em Linguagem, Mestre e Doutora pela FFCLRP-USP.
Formação em Antroposofia: Medicina Antroposófica, Quirofonética, Biográfico

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