Escrito por Beatriz Ferriolli
Um dos primeiros movimentos orais que o bebê realiza é o de sugar, pois esse é um ato reflexo que garantirá a sua sobrevivência para, posteriormente, auxiliá-lo na futura mastigação e produção da fala.
Um dos grandes benefícios da amamentação é adquirir resistência contra várias doenças, além da afetividade que se instala entre a mãe e o bebê. No entanto, meu objetivo neste momento é realizar uma aproximação entre a amamentação, deglutição, mastigação, respiração, fala e pensamento que se desenvolvem no ser humano.
A função adequada da cavidade oral pode ser estudada partindo-se da sucção do neonato. Quando o recém-nascido apreende o bico do seio, há um vedamento intenso dos lábios e um movimento deslizante da mandíbula para frente e para trás e, de acordo com dados de observação, sabe-se que tal movimento se repete cerca de um milhão de vezes durante o período de amamentação (Zur Linden, 1983). Esse é um exercício completo para a cavidade oral, pois lábios, maxila, mandíbula, língua e bochechas participam ativamente desse processo.
Além do exercício intenso sobre essas estruturas, é realizado um trabalho de eficiência respiratória, pois enquanto o bebê suga o ar entra e sai através da cavidade nasal propiciando uma adequação desta função, já que com o vedamento labial o pequeno não conseguirá respirar pela boca.
O esforço exigido aos músculos da região oral e o movimento de ordenha que o bebê realiza durante a sucção, auxilia no crescimento da mandíbula, bom posicionamento da língua e equilíbrio entre as funções da cavidade oral. Todo esse sistema em sintonia contribuirá para a futura mastigação e fala da criança.
Quando o bebê não é amamentado no seio e são utilizados bicos artificiais e não anatômicos, falta-lhe a oportunidade de desenvolver bem suas funções orais, inclusive de crescimento da face, podendo ocorrer a deglutição de ar ou aerofagismo que propiciará problemas gástricos e digestivos, além de predisposição para problemas de infecções nas vias aéreas superiores, tal como as otites. Nesses casos, toda a musculatura fica comprometida, a língua adota uma posição incorreta porque sua mandíbula não pôde se desenvolver adequadamente. Como conseqüência, podemos encontrar alterações no vedamento labial (boca aberta), na mastigação (unilateral, ineficiente ou rápida demais), na deglutição (invertida e com interposição de língua) e na fala (distúrbios articulatórios).
Com relação à função mastigatória, verificamos que hoje em dia há uma tendência ao consumo de alimentos não integrais e com texturas pouco consistentes, dessa forma, não há necessidade de se realizar um trabalho mastigatório ativo. De acordo com Zur Linden (op. cit., p.97), “Dentes sadios, maxilares bem formados são o cartão de visitas de uma pessoa sadia e bela. Destruição dentária e deformações dos maxilares revelam o grau de degeneração da saúde de uma pessoa”. Para retomarmos os conceitos antroposóficos, sabemos o quanto os fenômenos degenerativos exercem influência sobre o pensamento humano, dificultando sua lucidez e a atuação do homem em seu meio.
Uma boa oclusão auxilia a elaboração correta das experiências anímicas, assim como a mastigação correta com movimentos circulares e verticais colaboram para o “bem triturar” das vivências e o equilíbrio na resolução de seus problemas. Podemos dizer que ocorre justamente o contrário com aqueles que, em função de uma má oclusão e incompetência mastigatória, não conseguem resolver seus conflitos internos e, muitas vezes, tornam-se superficiais e alienados diante de muitas situações da vida e em suas relações afetivas.
Se a criança não for trabalhada em seus primeiros anos de vida, o quadro tende a se agravar e o comprometimento poderá ser ainda maior com prejuízo da postura corporal global (ombros caídos e tendência a desenvolver uma cifose - curvamento da coluna).
Além desses aspectos, é possível notar um embotamento do pensamento, dispersão e desatenção pela dificuldade em respirar, acarretando dificuldades de aprendizagem escolar pela pouca concentração.
Para concluir, gostaria de recomendar a todas as mães que amamentem seus filhos pelo menos por seis meses e que divulguem a importância em fazê-lo. Caso a amamentação natural não seja possível, escolham um bico ortodôntico adequado à anatomia da boca.
Os bebês agradecem!
Fonoaudióloga clínica e professora universitária
Especialista em Linguagem, Mestre e Doutora pela FFCLRP-USP
Formação em Antroposofia: Medicina Antroposófica, Quirofonética, Biográfico