As Bases da Medicina Antroposófica

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A Medicina Antroposófica surgiu dos trabalhos da médica Ita Wegman, através de orientações dadas por Rudolf Steiner, o expoente maior da Antroposofia.

A Antroposofia parte do pressuposto de que o ser humano é parte integrante da Natureza e assim, todos os fenômenos naturais apresentam as suas correlações humanas. Antroposoficamente falando, o ser humano é abordado dentro dos aspectos antropológicos, sociológicos, culturais, familiares, espirituais, etc.

A Medicina orientada pela Antroposofia utiliza esses princípios como um importante adendo aos conhecimentos e bases da ciência convencional. Não utilizando um referencial contrário, mas tomando essa ótica como o alicerce.

Nessa ampliação de observações, tomando o aspecto da abordagem do Homem como elemento constituinte da Natureza, podemos delinear analogias entre ambos: o ser humano no reino natural é o único que tem a capacidade do Pensar e da Vocalização, o que o permite um livre arbítrio e também uma consciência de si mesmo. Por isso somos criadores, questionadores, empreendedores, ou o contrário disso tudo. Implicitamente, denota-se aqui a questão da Liberdade, para acertos ou erros. Isso nos propõe a dizer que há uma individualidade presente para tais capacidades, denominamo-la de “Eu”.

Os reinos da Natureza mostram-nos os animais: estes apresentam movimentos, sensações, reatividade ao meio ambiente, ações de ataque, defesa, reprodução e outros detalhes como também tem o ser humano, todavia faltam neles os aspectos discernidos acima. Por outro lado temos essas semelhanças com o reino animal e tais similitudes têm o seu representante humano, constituindo o que chamamos de “Corpo das Sensações”, que nos permite os movimentos, assim como as emoções.

Observemos também os vegetais. Estes não se movimentam, não reagem ao seu meio, estão vinculados à terra e “saem” desse elemento - evidente, há variações nesses aspectos - trazendo o aspecto da Vida. Se cortarmos uma planta, ela seca, morre, torna-se “terra” de novo. Aqui evidenciamos o elemento vital que também existe no animal, no ser humano. Dessa maneira, como constituinte humano temos o “Corpo Vital”, responsável pela nossa vitalidade: daí se deduz quando dizemos que uma pessoa é “cheia de vida”.

E seguindo, na Natureza ressalta-nos também a terra, o constituinte marcadamente mineral: inerte, “frio”, “morto”, aflorando aqui uma característica material, Essa é a correlação humana: expressa-se aqui o que chamamos de “Corpo Físico”. Vivificado pelo Corpo Vital, animado pelo Corpo das Sensações, direcionado pelo Eu.

Essa abrangência se relaciona na estrutura humana com características que abordam uma arquitetura funcional dividida em três elementos. Se olharmos para a cabeça do ser humano, é chamada nossa atenção para o fato dela ter uma representatividade grande de órgãos de percepção: olhos, ouvidos e os demais. Essa atividade de percepção é dirigida ao exterior, ocorre uma recepção. Isso possibilita as observações. Uma observação é um processo passivo. Quando passamos a pensar sobre essa observação introduzimos uma pausa nos processos receptivos. O pensamento precisa ser claro para que ele tenha objetividade, necessita ser frio então. Além de que é preciso pouca movimentação para haver uma melhor concentração. Essas nuances caracterizam o denominado Sistema Neurosensorial, que tem como base o Sistema Nervoso e o seu maior representante é o Cérebro, que tem sua sede na cabeça. Essas características permitem-nos a existência da consciência. Um dado a se acrescentar é que os órgãos nervosos tem pouquíssima regeneração se houverem lesões. Por aí vemos que tais estruturas tem pouca “vida”.

Num outro pólo vislumbramos o abdome: aqui temos órgãos que fazem excreções: fezes, urina, sêmen, menstruação, óvulos, e outros. Passamos, doamos algo para fora, expressando uma movimentação orgânica: os intestinos se movimentam, o baço fica repleto ou vazio de sangue, o estômago passa ao intestino os alimentos e assim por diante. Aqui há um suprimento sanguíneo imenso, há muita atividade metabólica, há muito calor. Também sentimos nesse patamar orgânico, uma inconsciência do que se passa: não sentimos o nosso fígado trabalhar, nosso intestino absorver substâncias, por exemplo. Outra observação é a de que os órgãos abdominais têm células com grande poder de regeneração e constantemente elas são trocadas quando morrem: é uma região de muita “vida”. Portanto, esta é a região do Sistema Metabólico. Ligamos os aspectos da Locomoção, a este pólo, por que toda ação tem as características de “calor, vida, realização, transformação”.

E no tórax, que está entre a cabeça e o abdome, encontramos dois órgãos muito importantes: coração e pulmão. Esses dois denotam uma função pronunciada: a de se expandirem e a de se contraírem, ritmicamente. O Ritmo traz em si a possibilidade de evitar unilateralizações: “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Pois ele oscila, flexibiliza, intermedeia. Não só o tórax está entre a cabeça e o abdome, mas também ele tem uma função correspondente: pois é aqui que se expressam nossos sentimentos: o coração não dói de saudade? Quando sentimo-nos sufocados não temos aquele “aperto no peito”? Por isso, essa é a região onde se mostra o Sistema Rítmico, que faz uma ligação harmoniosa entre os pólos neurosensorial e metabólico evitando unilateralizações, buscando que um processo típico de um lado não se torne muito proeminente ou “invada” o outro. Esta é uma região do corpo, o tórax, onde temos uma semiconsciência, portanto, um semicontrole - por exemplo, podemos interferir até certo ponto na nossa respiração, que habitualmente em nosso cotidiano se mostra com um ritmo de que pouco nos damos conta. Fisiologicamente: pensamos, sentimos, agimos.

Essa é a constituição humana que se manifesta enquanto individualidade em um roteiro da história da vida de cada pessoa. Essa biografia encerra vários aspectos que são abarcados e perscrutados pelo médico antroposófico no intuito de se poder entender os processos de desequilíbrio ao longo da vida do paciente e que levam aos distúrbios ou doenças. Saúde e doença são a manifestação da harmonia entre os constituintes humanos, variando com a faixa etária. As forças que representam a saúde são as mesmas que podem levar às doenças. É uma questão de uma medida das partes envolvidas, também dependentes “daquele momento”. Pensar demais pode se tornar ou levar a uma disfunção. Depende da sua idade e se você terá que agir e não age, na mesma sintonia. Tem pessoas que sempre estão fazendo muitas coisas, contudo pouco refletem sobre o que fazem. Existem outras pessoas extremamente sensíveis: sentem muito, quase não pensam, quase não agem. Se acentuamos uma característica nossa, a ponto de agudizá-la, o que era “normal” passa a se tornar patológico. E quando estamos doentes temos então uma possibilidade de revisarmos isso. A doença tem uma função pedagógica. Não quero expressar aqui que essa é uma visão psicologizante da doença. Todas essas facetas da estrutura do Homem se coadunam plenamente com suas funções orgânicas, corporais, fisiológicas, de tal maneira que todos os processos conscientes, semiconscientes e inconscientes relacionam-se intimamente com nossa organização física, com o nosso corpo.

Uma terapêutica antroposófica tem como base, todos os princípios convencionais dos conhecimentos científicos. Adicionados esses conhecimentos, utilizamos medicamentos oriundos de matérias-primas naturais, sob forma de remédios líquidos, glóbulos, pomadas e inclusive injetáveis. Também se estende ao uso de compressas, banhos, enfaixamentos, cataplasmas, fricções. E em um outro âmbito aproximado, temos terapias genuinamente antroposóficas tais como: Terapia Artística, Massagem Rítmica, Método Extra-Lesson, Reorganização Neuro-Funcional, Euritmia Curativa.

Portanto, a medicina orientada pela Antroposofia, procura abordar esses detalhes em que o paciente e seu terapeuta em conjunto, buscarão vias de obtenção de harmonia dos diversos desequilíbrios.

Médico Antroposófico e Consultor Biográfico

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