Escrito por Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
janeiro
Sabe aquela música do Chico Buarque de Holanda que diz: Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã? E você se lembra daquela outra letra que diz: Ah! Esse cara tem me consumido, a mim e a tudo que eu quis, com seus olhinhos infantis como os olhos de um bandido... ele está na minha vida porque quer e eu estou para o que der e vier? E tem uma outra de que eu gosto muito que se chama Retrato em Branco e Preto e que diz assim: já conheço os passos dessa estrada/ sei que não vai dar em nada/seus segredos sei de cor/já conheço as pedras do caminho/ e sei também que ali sozinho/eu vou ficar tanto pior/o que é que eu posso contra o encanto/desse amor que eu nego tanto e que no entanto/volta sempre a enfeitiçar. E quem não conhece a letra de Atrás da Porta na qual a mulher traída se manifesta; Dei pra maldizer o nosso lar/pra sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso, pra mostrar que ainda sou tua, só pra provar que ainda sou tua...
Por que estou falando sobre letras de música? Respondo: procuro letras de música sempre para utilizar em cursos, no trabalho com as pessoas que se consultam comigo. Faço a mesma coisa com filmes e livros para que aprendamos a associar. Através das letras, das imagens eu aprendo muito, todos nós aprendemos. Percebemos que não estamos sozinhos, que sentimentos e emoções são mais ou menos iguais para todos, que não somos os únicos a padecer no paraíso chamado Terra. Procuro coisas de boa qualidade. Aquelas que contam dos padecimentos e aquelas que contam como ficar bem e como melhorar a vida.
Pois é! Pouco tempo faz resolvi procurar letras de música que falassem só de coisa boa. E, acreditem, foi uma dificuldade. A maioria das letras traduzia mágoas, ressentimentos, vingança, ódio, desejos mal resolvidos. Procurei através de compositores de renome, conceituados na mídia, cultos, inteligentes. Achei maravilhas! Negativas! Cançõesde dizer como é difícil a vida, como é complicado sair de enroscos, canções sobre os impossíveis caminhos de viver bem. E daí fiquei pensativa. Nós seres humanos gostamos de sofrer? Sofrer dá mais ibope do que ser feliz? Falar de coisas que atazanam a vida da gente é mais fácil que falar de coisa que ajuda, coisa que valoriza, coisa que caminha em direção à felicidade?
Será por isso que as pessoas gostam de assistir a tragédias na TV e gostam de parar pra ver acidentes e adoram ouvir contar desgraças que acontecem com os outros e muitas vezes até que acontecem com elas mesmas?
Deve ser porque acreditamos em algum lugar que ser feliz é utopia. Pior, que quem é feliz certamente está fadado a ser triste. Lembram-se daquela fala de vó: Menina, não ria na sexta-feira, se não você vai chorar no domingo. E aquela outra estória de se ter medo da felicidade porque se estamos bem demaisvai acontecer algo ruim?
Assim é. Então devemos reavaliar nosso conceito de estar bem. Não se trata de colocar o que não é bom debaixo do tapete. A vida tem de tudo. Altos, baixos. Maravilhas, catástrofes. Caminhamos a desafiar opostos e provamos um pouco de cada sabor. Ficamos doentes e um dia vamos nos deparar com a morte, que como dizia minha sábia avó; é a única certeza.
Nem por isso vou andar de mãos dadas com misérias, desgostos. Nem por isso vou fazer de conta que eles não existem. Mas, quero e vou garimpar o que me ajudar a viver melhor. Acredito em dias melhores, acredito em cada dia fadado a ser melhor. E não há e nem haverá provérbio que me faça perder a esperança. Desejo o mesmo pra vocês em 2012. E termino com letra de música. Positiva:
...Todo mundo ama um dia, todo mundo chora
Um dia a gente chega no outro e vai embora
Cada um de nós compõe a sua estória
E cada um em si carrega
O dom de ser capaz de ser feliz...
Abraços carinhosos
Nota: Agradecemos a todos que delicadamente responderam aos nossos e-mails de Natal e de Ano Novo. Reproduzimos nesta edição as poesias enviadas.
fevereiro
Calhou que nas últimas semanas atendi pessoas que apresentaram a mesma questão: a dificuldade de dizer não. Algumas por medo de não serem aceitas, algumas por estarem propensas a carregar nas costas mais do que podem suportar, algumas por se sentirem culpadas, outras por dificuldade de discernir, dificuldade de escolher sobre o que de fato querem. De todos os motivos o que mais me chamou atenção, foi a dificuldade de escolha. Em um mundo onde tudo é permitido, onde os valores se tornaram relativos, onde se torna cada vez mais difícil decidir sobre certo, errado, bem e mal, permissível ou não permissível é preciso muita força de vontade para não se afogar nas inúmeras opiniões externas, nas inúmeras correntes, cada qual puxando brasas para suas gordas sardinhas. É difícil ser nós mesmos. É difícil ter opinião própria, pois recebemos tantas informações, e são tão taxativas, e são tão bem escritas, e são tão intelectualizadas e são, opiniões de gente tão abalizada, de gente tão bem sucedida! Como podemos lutar contra elas? Se somos do tipo indeciso, como podemos chegar a um acordo? Melhor é sucumbir de uma vez, dizer sim ao que está mais na moda, ao que a maioria parece aceitar.
Porém, pasmem, podemos escolher. Podemos dizer não a uma porção de coisas. Taxativamente, para depois exalar grande suspiro de alívio! Basta que comecemos a nos perguntar: Isto é o que eu quero? Serve pra mim? Vou me sentir bem ao fazer tal coisa? Estou agindo dessa forma por uma crença arraigada e antiga da qual nem me dei conta? Estou agindo assim somente para agradar fulano e beltrano? Estou agindo assim para que as pessoas gostem de mim? Realmente acho que o que vou fazer é o melhor? Sinto-me aliviado ao pensar no que vou fazer?
É preciso fazer muitas perguntas, não para os outros, para nós mesmos. É preciso respondê-las com a cabeça e também com o coração. Assim descobriremos o que realmente nos faz bem. Assim aprenderemos a dizer sim apenas quando isto for verdadeiro e a dizer não para colocar limites quando necessário for. E migraremos, certamente de vítimas a gestores de nossa própria vida.
março
Medianeiras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual
Já perceberam o quanto elas nos deprimem quando estão vazias e judiadas, principalmente quando ficam de frente umas para as outras? Talvez por que nos remetam a nossa pequenez (os edifícios são tão maiores que nós?). Talvez nos remetam ao silêncio, à ausência de comunicação (paredes não falam!). Talvez nos deixem sem ar (paredes nos sufocam).
Pois bem, se chamam Medianeiras é este o nome do filme argentino, ganhador do Festival de Gramado de 2011. Dirigido por Gustavo Taretto, tendo por atores principais Pilar Lopez de Ayala (atriz espanhola que trabalhou em Lope) e Javier Drolas.
Para mim o título é metáfora para tratar dos problemas de uma cidade grande: muito movimento, muita correria, a arquitetura que afasta as pessoas, a comunicação pelos computadores que aproxima e afasta ao mesmo tempo, os espaços exiguos onde é quase impossível o movimento. A cidade são as vitrines e as luzes, o espetáculo visual que fascina e também aliena. Vemos a pirotecnia e não vemos as pessoas. Martin e Mariana, personagens principais passam o tempo todo um pelo outro, frequentam os mesmos lugares e não se encontram, não se olham.
Sofrem dos mesmos anseios, são solitárias criaturas em meio à correria do dia-a-dia, relacionam-se mal no plano amoroso, sofrem de medos paralisantes. Martin só anda a pé, Mariana não entra em elevadores. Martin e Mariana encontram parceiros que não se comunicam, que fogem do encontro e do compromisso.
Mariana tem um livro de ilustrações que se chama Onde está Wally? Wally é um homenzinho vestido com camisa listrada em vermelho com gorro de igual motivo que deve ser encontrado nas páginas do livro em lugares abarrotados de gente. Ela quer muito encontrar Wally na página que diz respeito à cidade e não consegue.
Acontece que nas medianeiras de Martin e Mariana foram abertas pequenas janelas para vida como que um apelo ao não deixar-se confinar, isolar, trancafiar. Janelas para que possa entrar ar. Um apelo a enxergar o outro na multidão, e quem sabe reconhecê-lo e tocá-lo.
abril
Há pessoas que a gente não acredita que vão morrer. Sabe que a morte vem para todos e ainda assim olha para a pessoa e tem certeza de que de algum modo ela vai ficar pra semente, como dizia minha avó. Não importa se está doente, se está passando por momentos difíceis. Já a classificamos na categoria de imortal. Já aconteceu várias vezes de eu me surpreender quando se vai embora alguém que eu julgava eterno. Meu sogro, por exemplo, foi-se sem mais nem menos, sem aviso prévio, quando fazia uma sessão de quimioterapia. Sem desconfiança nenhuma, havia deixado quase pronta uma feijoada pra comemorar o aniversário de sua filha. Uma amiga que sofria de câncer há tempo também se foi não tão de repente, mas deixou a sensação de que algo havia de errado, que o cordão havia sido cortado por engano, de que algo deveria ter acontecido para mantê-la por aqui, a falar de literatura com sua doçura e seu irresistível sorriso. Meu avô, ah! Meu avô. Jamais morreria. Homem alto e simpático, esbanjando vida. Levou-lhe um infarto repentino, inesperado aos 58 anos de idade!
Falo daqueles que andaram por minha vida, que conheci, que amei, que toquei. Há os famosos, também, aqueles que conheci, na telinha da Tevê, aqueles que vi no teatro, aqueles que vi no palco. Sinto por eles a mesma coisa. Inexoravelmente a morte ceifa e a fama não impede que ela se saia bem. Alguns se vão e parece que tudo está bem. Lamentamos, ou não lamentamos, ficamos solidários. Alguns, porém, nunca deveriam ter morrido. É um desaforo. Fomos ludibriados. Eu me senti assim quando morreu Elis Regina, quando morreu Tom Jobim, quando morreu Vinicius de Moraes, quando morreu Carlos Drummond de Andrade. E me senti assim, agora quando morre Chico Anísio.
Chico, permita-me de onde estiver que eu o chame assim, estava doente, sim. Já tinha uma idade avançada, sim. Porém, acredito que nós todos esperávamos que algo acontecesse. Que ele, o grande humorista, o grande cronista, o grande contador de estórias, driblasse a morte, como bom jogador de futebol que também era.
A morte de Chico Anísio para mim não era anunciada. Era impossível, como impossível era a dos outros famosos ou não, mas que tinham estoque de coisas a oferecer. Meu sogro e seu talento pra cozinhar e sua alegria de vida; minha amiga com seu conhecimento sobre Guimarães Rosa, professora especial e carismática; meu avô plantado em seus um metro e noventa, louco pela vida, piadista de primeira, imitador; Elis Regina, Tom Jobim, Vinicius, Carlos Drummond, estoques de talento.
Bobagem alguém dirá: todos morremos. Está bem. Sei eu disso. Meu coração é que não sabe e em algum lugar crê, talvez, que essas pessoas de fato não morreram, continuam, ficaram impressas em nós, memórias imortais. Continuarei a lembrá-lo, Chico!
maio
Saudade é uma palavra conhecida em galego e português, portanto rara e especial. É um sentimento de perda, de falta, de sensação de distanciamento. Vem do latim solitas que significa solidão, desamparo, retiro. Está ligada àquilo que vem à memória com sensação de querer mais, de querer viver novamente, de sentir que não teremos mais, de sentir tristeza por isso. Temos saudades de lugares, de objetos, de situações, de pessoas que estão longe. Saudade é o sino da ausência. Ele soa e ficamos cientes daquilo que está distante de nós, que um dia nos deu prazer e alegria. Então nos sentimos incompletos. Onde foi parar o que não temos mais? Como repor, como fazer para trazer de volta?
Muitas vezes o objeto da saudade pode retornar. Muitas vezes o sujeito da saudade pode reaparecer. A ausência torna-se presente e a melancolia incompleta de que fomos vítimas se dilui.
Outras vezes não há retorno. Não há o que fazer, apenas aceitar. Apenas rememorar. Mais fácil é quando a perda é apenas material. É a casa onde um dia moramos, o local de trabalho de que gostávamos muito, o lugar à beira mar onde costumávamos passar as férias. Quando se trata de pessoas queridas que se foram, que partiram para sempre, tudo muda de figura. Mesmo que acreditemos em outras vidas, mesmo que acreditemos que ainda estão perto de nós, a saudade é dolorida, dói fisicamente, dói no peito pensar que não vamos ver mais nossos entes queridos, que não vamos abraçá-los no aqui e no agora.
Pois é, minha querida amiga Jair Ianni foi-se embora. Minha amiga poeta, escritora, artista e principalmente um ser humano da melhor qualidade, partiu. Aos 87 se foi e deixou muita ausência. Por enquanto ainda dói. Um dia sei que vai parar de doer. A saudade vai ficar. Eterna.
Quando eu passar por sua casa vou me lembrar do café bom, passado na hora, do leite de soja feito por ela, delicioso e leve, do doce de pera roxo, de calda grossa, servido com carinho. Vou me lembrar das estórias boas, das estórias de sua família, vou me lembrar do pai que tinha invejável senso de humor, vou lembrar do marido, vou lembrar do gambá que a assombrou na fazenda, pois no escuro tinha olhos vermelhos que pareciam do demo. Vou me lembrar de versos declamados de cor. Vou continuar imaginando a Jair, Jairzinha, pequenina e arteira, extrovertida, no colégio. Vou me lembrar dela na elaboração do livro sobre Piolin, que ficou lindo, colorido: uma homenagem magnífica ao famoso palhaço que nasceu em Ribeirão Preto. Vou me lembrar do livro que escrevemos juntas, cujo formato ela bolou, criativo e belo como sempre.
E por aí irá tocando o sino da ausência. As mulheres grávidas que ela moldou em argila e que estão em minha casa e em meu lugar de trabalho. Os lindos lençóis que coloco em minha cama, com barrados em patchwork. Os livros que me emprestou, os filmes que me indicou.
Vou me lembrar no domínio do sempre de seus braços abertos ao abrir sua porta, de sua figurinha agitada e luminosa, de sua sincera alegria ao me ver ali, de sua receptividade a tantos quantos a procurassem. Vou sentir sempre seu abraço gostoso, sua mãozinha na minha. Tudo isso há de rondar minha vida e estarei aberta para me recordar com muito gosto.
Nossa! Há demais a ser lembrado. Dou-me conta, de repente, que não perdi minha amiga, jamais vou perdê-la. Ela penetrou em mim através de seu múltiplos talentos, ela faz parte de mim pela via dos afetos. Dentro de mim Jair Ianni está viva! Muito bemvinda é a saudade que me leva a ela. Saudade feita de pequenas e grandes coisas. Aquelas pequenas coisas que como diz o poeta Serrat a gente acredita que as mata o tempo e a ausência, mas elas têm bilhete de ida e volta e nos deixaram um tempo de rosas em um lugar, em um papel, em um caixote.