Editoriais 2011

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janeiro

Bom continuar com vocês. E começar um novo ano. No que nos diz respeito continuamos com as mesmas pretensões: textos, mensagens, imagens que provoquem reflexões sobre o belo e o bom, o correto, o amoroso, o verdadeiro, o pacificador, o esperançoso, o solidário.

Queremos muito? Sim e não.  Sim, se formos esmiuçar cada um dos conceitos elencados acima. É mesmo difícil dizer o que é bom, belo, correto, etc... Pois esbarramos na tal estória do relativo. O que é bom para mim, pode não ser bom para o Mané, para a Mariquinha e assim por diante.

Não, se pensarmos que belo e bom e todos os outros conceitos sempre existiram. São padrões corretivos infiltrados dentro de nós. Se pensarmos que esses conceitos impediram que a humanidade tenha se exterminado há muito tempo. Se pensarmos em algo que nos foi legado para que não seja perdida a esperança quando tudo parecer, irremediável, irrecuperável.

Por falar em esperança há uma estória para ser contada que ilustra o valor da esperança.

Era uma vez um milhão de estrelas no céu. De todas as cores. Para todos os gostos. Brancas, douradas, vermelhas, azuis, amarelas. Apenas uma era verde.

Um dia resolveram as estrelas viver junto aos homens, na Terra. Pediram a Deus que lhes concedesse este desejo. Deus Todo Poderoso concordou e elas desceram na Terra. Conta-se que naquela noite houve uma linda chuva de estrelas. Alojaram-se em todos os lugares. Nos campanários, nas torres das igrejas, correram com os vagalumes, misturaram-se com os brinquedos das crianças e a terra ficou maravilhosamente bem iluminada.

Passado algum tempo as estrelas retornaram e quando Deus lhes perguntou o porquê disseram que não era possível aguentar a miséria, a desgraça, a fome, a violência, a guerra e todas as coisas ruins que grassavam na Terra. O Senhor disse-lhes que estavam certas, que realmente pertenciam ao Céu e ali deveriam ficar.

Depois que chegaram todas, Deus as contou e deu por falta de uma: a estrelinha verde que era única a vestir aquela cor. Perguntou sobre seu paradeiro e as outras estrelas informaram que aquela estrela havia permanecido na Terra para alegrar o coração dos homens, para dar-lhes esperança em todos os momentos.

Pois Deus já conhece o Futuro de todos nós e a esperança é própria da Natureza humana. Própria daquele que cai, daquele que erra, daquele que não é perfeito, daquele que ainda não sabe como será seu amanhã.

Fonte: www.metaforas.com.br

 

fevereiro

Minha avó, que Deus a guarde, é personagem frequente em meus escritos. Tinha opiniões sobre tudo e não se deixava levar pelos outros. Não que eu concordasse sempre, porém de modo geral o que dizia fazia sentido e era advindo de sua experiência: muito rica por sinal. Muito era dito em forma de provérbios e ditados. Alguns bem conhecidos. Outros, hoje sei, ela mesma inventava para me fazer pensar sobre como deveria agir, sobre o certo e o errado, sobre o bem e o mal, sobre justiça e injustiça.

Ela dizia: quem rouba um tostão, rouba um montão. Ninguém é honesto pela metade. E, lá vinha, a tiracolo uma estória para elucidar o provérbio. Alguém que precisara de um tostão para comprar algo, e que não tinha como ganhar e que o roubara, mas o tostão não fora o suficiente e então fora preciso pegar mais. A pessoa se acostumara e pronto, acontecera um ladrão.

E continuava: Quem tudo quer nada tem. É melhor um passáro na mão que dois voando. E lá vinha a estória da mulher que encontrara uma caverna, entrara nela com sua criança no colo. A caverna estava cheia de moedas e pedras preciosas. Alguém lhe disse para pegar o que quisesse. A mulher ficara tão encantada com os tesouros que os dependurara pelo corpo, e ao sair da caverna se esquecera da criança. As portas da caverna se fecharam. A mulher ficara desesperada, mas tivera que esperar mais um ano para buscar a filha. Quando foram abertas as portas da caverna, ela a tomou nos braços e saiu correndo.

Para o “Quem ama o feio, bonito lhe parece” ela dizia que na verdade não havia pessoas feias. Havia gosto para tudo. A estória contada, sabe-me lá se verdadeira, era a de uma festa a que havia comparecido. Entrara uma mulherzinha muito, muito feia. Todos comentaram dela e de sua feiúra. A mulher começou a conversar em um grupo de homens e logo todos estavam encantados, tão boa era a sua conversa e tão simpática era!

Em “O mal é vítima da própria fome” ela aproveitava para dizer que o mal é muito ganancioso. Ele quer sempre mais, sempre mais e acaba por ser vítima de si mesmo. E citava as irmãs da cinderela, a madrasta de Branca de Neve...

A mais engraçada explicação era a do provérbio ”De tanto dar o anu perdeu seu rabo”. Servia para explicar a necessidade de contenção em várias áreas: não distribuir todos os brinquedos para os amiguinhos, partilhar o lanche na escola, mas não ficar sem ele e, mais tarde na adolescência, não ser muito dada com os meninos, para não perder a virgindade e, por conseguinte a reputação.

E assim, íamos nós, eu e minha avó. Eu no aprendizado de muitos valores. Foram de grande importância para mim as tardes com Dona Eduarda, suas estórias, sua vontade de fortalecer meu caráter.

E por que motivo estou falando disso? Eu conto. Estou muito incomodada com a época que estamos vivendo. Onde os bons exemplos? Assisto ao último capítulo da novela - antigamente eu assistia aos últimos capítulos para ver o bem vencer - e fico pasmada com o que vejo: Uma senhora de avançada idade, Cleide Yaconis, aliás uma de nossas melhores atrizes, irmã da Cacilda Becker, no papel de uma senhora decadente que termina com dois homens, um com quem se casa e outro que será seu amante; um rapaz, com pinta de galã, mas linguajar de idiota que fica com duas mulheres, cada qual tem um filho dele e elas combinam quem fica com ele em dias alternados da semana; uma vilã que assassina, mente e que acaba incólume em ilha paradisíaca. Em nenhum momento uma mensagem positiva, em nenhum momento algo de belo, de virtuoso. Passaportes especiais (ops, onde mesmo ouvi falar disso?) para o medíocre e sem limites.

 

março

E o palhaço o que é? É ladrão de mulher.

Começava assim a sessão de circo. Eu, sentadinha, esperando para vê-lo entrar, com seu sapato enorme, a caratonha branca, a boca descomunal e vermelha, a peruca de parcos cabelos, a roupa colorida. O Palhaço, que alegria! Homens, mulheres, adultos, crianças, todos presos às suas graças, todos agradecidos pelo momento de não precisar ser sério, de poder rir de bobagens, de esperar o óbvio e divertir-se com ele.

Admiro e muito os palhaços. Eu, que abomino parecer ridícula sinto uma inveja louca desses artistas que se expõem sem preocupação alguma, só para divertir os outros. Isso é ato de doar!

Aliás, não concordo quando comparamos palhaços às pessoas tolas. Não concordo que digamos: olha nosso nariz de palhaço quando somos enganadas por alguém seja em nossas casas, seja em nosso serviço, seja na política. O dicionário conta que palhaço pode significar aquele que faz papel de ridículo, e ridículo significa também cômico e rísivel. O palhaço é cômico e faz rir e muito. Não é tolo, não é bobo. É um artista que torna a nossa vida melhor. Alguém que abdica de empáfias: nem mostra seu verdadeiro rosto! Alguém que consegue fazer rir mesmo através da repetição, pois as besteiras que diz apontam para os erros de todos nós, eternos claudicantes no circo da vida. Alguém que pode representar a tristeza, a injustiça, a desesperança, a pobreza, e ainda assim angariar risadas. Que pode veicular cultura e dar, também, bons exemplos, sempre vestido de leveza e graça.

Grande Palhaço foi Chaplin com sua bengalinha, seu chapéu coco, seus olhos borrados a contar estórias dos desajustados e desvalidos, a zombar da tirania e de desmandos, a quem Carlos Drummond de Andrade homenageou no poema Canto ao Homem do Povo Charle Chaplin: “ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e de esperança.”

Grande Palhaço foi Piolin, nascido em 1897, na cidade de Ribeirão Preto, artista completo, tocador de violino e clarineta, engolidor de espadas, mímico, comparável aos melhores cômicos do mundo que foi homenageado por Jair Ianni em seu livro Piolin - a trajetória iluminada do maior palhaço brasileiro.

Há outros admiráveis homens, palhaços, não tão famosos, mas igualmente dignos de admiração. Homens que alegraram pequenas e grandes cidades, com suas tendas montadas, redondas, sinônimo de congraçamento, com poucos ajudantes, muito trabalho, muita vocação, e muita vontade de se apresentar.

No dia 27 de março, que é Dia do Circo, que tal homenagear Arrelia e Pimentinha lembrando seu jargão hilariante: Como vai, como vai, como vai, vai, vai?

E Carequinha e sua gravação “O Bom Menino”. Bonitinha, quer ver? “O bom Menino não faz pipi na cama / O bom menino não faz mal-criação / o bom menino vai sempre à escola...”

E o Palhaço Picolino que em 2010, aos 87 anos de idade, deu uma entrevista em que dizia não gostar que as pessoas usassem narizes vermelhos como forma de protesto. “Pois ser palhaço é coisa séria!”

Para homenagear mais um pouco e terminar nossa conversa aí vai um poema sobre o palhaço.

Meu Palhaço(*)

Busco o poema

Para o palhaço

Que habita em mim.

Gargalhante

colorido

Sem idade.

Palhaço reflexo

comediante e

trágico

deve ser mágico

o meu objeto de culto

Grandeza cósmica

máscara de anjo

o Palhaço do meu

circo íntimo

(*) Ecos do Outono - Jair Ianni

 

abril

Já ouviram falar de um livro, o Malleus Maleficarum, escrito em 1484 pelos inquisidores Heirich Kramer e James Sprengler?  Pois é. Durante quatro séculos este livro foi o manual da Inquisição para a caça às bruxas. Mais de 100 mil mulheres foram torturadas e levadas à morte acusadas de se relacionarem com o demônio.

Lembro-me de que ao ler esse livro veio-me a mente uma pergunta? Por que somos, nós mulheres, tão temidas pelos homens? Que poder é este detido por nós que os amedronta a ponto de cometerem atrocidades, amparadas pelo poder do patriarcado?

Depois percebi que este medo se apresenta ainda nos tempos modernos. Quem assistiu ao filme Persépolis, sobre a sociedade iraniana percebe o poder que a mulher exerce sobre homem, principalmente no que diz respeito à sexualidade. Há um momento em que a polícia iraniana aborda uma moça que estava correndo e lhe diz que não pode correr daquela maneira, pois isso evidencia se traseiro e isto é naturalmente obsceno.

Assim ao assistir aos filmes que concorreram ao Oscar dois deles chamaram especialmente minha atenção: O Vencedor e Cisne Negro. Muito se pode falar sobre eles e muito já se falou. A mim impressionaram as personagens femininas.

Em O Vencedor produzido por Darren Arojonowsky e dirigido por David O. Russell conta-se a estória de Mickey Ward, irlandês que mora em um bairro pobre de Boston e que almeja ser campeão de boxe. Temos aqui um universo feminino assustador, composto por uma mãe dominadora, que não hesita em expor o próprio filho aos riscos violentos do boxe, submetendo-o a lutas desiguais como sua empresária, que finge não perceber que o filho mais velho que treina o mais novo, pois já foi bom lutador de boxe, é viciado em crack, que ignora o marido, fraco e amedrontado e,  ainda possui várias filhas a quem domina, embora sejam adultas. Filhas submissas a ela, mas extremamente dominadoras quando se trata dos dois irmãos. Neste filme os homens são apresentados em segundo plano e o resgate se dá pelo aparecimento de uma outra mulher, a namorada do filho mais novo que lhe apresenta um novo horizonte, saudável e libertador.O filme é baseado em uma estória real e tem um final feliz, pois os rapazes acabam por se dar bem, já que o mais novo se torna um campeão de boxe, treinado pelo irmão mais velho, que surpreendentemente abdica do crack!

Em Cisne Negro filme sob a direção de Darren Arojonowky, conta-se a estória de Nina uma bailarina extremamente disciplinada que quer ser a dançarina principal em um espetáculo, que é uma versão adaptada de “O Lago dos Cisnes”. Ela é escolhida para o papel e deve dançar as duas facetas do Cisne: a negra e a branca. Acontece que Nina tem uma relação familiar com a mãe, extremamente doentia. Esta mãe abandonou a carreira de bailarina pela filha e parece puni-la por sua escolha Ela a mantém enclausurada, em um universo infantil (o quarto de Nina tem bichinhos de pelúcia). A mãe se veste com roupas de balé negras e tem acessos de raiva intercalados com cenas de carinho e delicadeza. Libertar-se do entorno feminino destruidor é uma tarefa de grande porte. Nina terá que dançar seus medos e suas dificuldades, terá que tornar-se mulher por si mesma para abandonar o seio amparador, mas venenoso da mãe. Terá que experimentar a luz e a sombra dentro de si.

Dois filmes fortes, mulheres fortes em seu poder de destruir. Aparentemente preocupadas com os filhos, ou filha, tecem como aranhas, usam fios aparentemente leves e teias belas. Ambos enganadores. Os fios prendem fortemente, a beleza das teias engana. A intenção parece boa, mas o resultado é danoso. Aqueles que se deixam apanhar são vítimas e alimentam o feminino destruidor.

Percebo então que não é tão difícil entender o temor masculino. Mulheres são as que os geram. Podem interromper suas vidas a qualquer momento, podem com seu poder de sedução induzi-los a agir como querem, podem enredá-los em teias das quais não poderão sair. Essas crenças ficam guardadas em algum lugar de pouco acesso e quando são remexidas afloram e por não serem entendidas pervertem.

Em tempos de mudança quando o patriarcado perde lugar, há que se recuperar o feminino e promover a união entre homens e mulheres, para que o poder se torne intrumento de cura na medida em que signifique integração de opostos para o bem da humanidade.

 

maio

O substantivo poder vem do latim “potentia” que significa influência, ação e força. Poder pode significar também o direito ou a capacidade de decidir, de agir e de ter voz de mando; pode remeter à autoridade que o governo de um país exerce sobre seus “súditos”.

E nós quando pensamos em poder decidimos por qual significação? Na maioria das vezes, penso que optamos por dar ao poder o poder de governar as outras pessoas pela imposição, pela obediência, pela dominação, pelo domínio. Dizemos: Esse cara é poderoso. Quando ele tem dinheiro, quando tem status, quando se sobrepuja a outras pessoas. O cara é mais alguma coisa. Mais rico, mais inteligente, mais bonito. Pensemos um pouco mais sobre o poder. Aquele infeliz que dizimou as crianças do Realengo tinha poder, o poder de sua arma. O guarda que atirou nele, herói nacional, tinha o poder, tinha autoridade para atirar e acabar com o conflito. Os valentões nas escolas que têm exercido violência sobre amigos mais frágeis têm o poder. O sujeito pode nem ser grande coisa. Pode não ter nascido em berço de ouro, pode não ter estudado nas melhores escolas, pode ter sido medíocre sempre e habitualmente e, de repente algo o eleva a categoria de poderoso. Nem é rico, nem bonito, é o traficante da favela e tem muito poder, pois é o mais temido, com suas armas e seu jugo exercido pelo medo. Ele também tem algo mais.

Imaginem o cara sem dinheiro, sem posses, sem educação, sem eira e nem beira, de repente alçado a categoria dos que metem medo nos outros. De arma em punho. Ninguém vai peitá-lo? Onde a primazia do bem nascido?  O cara vai se sentir o mais. O mais amedrontador. Aquele que pode decidir sobre a vida e a morte.

Então é isso! Poder envolve sempre a influência que exerço sobre o outro? Envolve sempre ter alguém inferior a mim, alguém a quem ameaço de uma maneira ou de outra? Envolve ser mais do que o outro?

É sinônimo de levar vantagem sobre os outros. O que também pode significar: ser desonesto, ser violento, ser sem caráter?

O poder então é tão deletério? Tão ameaçador?

A psicofilosofia Huna, advinda da sabedoria havaiana, advoga que o poder vem de dentro de nós. Segundo ela o poder vem de nossa autoridade interior. Somos os responsáveis pelas nossas vidas e pelo que acontece com elas. Somos criadores de nossa realidade e são nossos pensamentos e nossas ações que vão moldar nosso mundo.

As sociedades indígenas também têm uma visão muito interessante sobre o poder que é a de que possuímos um remédio pessoal que constitui o nosso poder. Este medicamento é único e, nos foi presenteado pelo Grande Criador.

Se pensarmos um pouco, vamos perceber que construímos nosso mundo no agora, para que o futuro nos seja benévolo.

O poder deve ser justo e demonstrar respeito por todas as coisas vivas. O poder observa as diferenças e as honra e avança quando é necessário avançar, e recua quando é necessário recuar. O poder leva em conta o outro. Quem tem poder não precisa ser “O mais”, pois não tem medo de que o ultrapassem. Sabe que se buscar dentro de si encontrará as soluções para os problemas, então não haverá razão para insegurança. O verdadeiro detentor do poder tem responsabilidade sobre todas as coisas, então não vai sair por aí violentando as pessoas e violando regras. Se estivermos imbuídos de nosso remédio não precisaremos competir com ninguém, não precisaremos fazer comparações, não precisaremos nos sentir nem inferiores nem superiores a ninguém. Seremos poderosos.

 

junho

Vivi em tempos de ditadura. Participei de passeatas. Fui e ainda sou completamente contra qualquer sistema que queira cercear a liberdade de expressão do ser humano. Naqueles tempos, não podíamos falar, não podíamos emitir opiniões à respeito do regime. Àqueles que ousassem se manifestar mais abertamente poderiam ser presos e sofrer torturas como aconteceu com vários de nossos amigos.

Passavámos por situações ridículas. Lembro-me que ao sair da USP, em São Paulo, fomos abordados por policiais que revistaram nosso carro e encontraram um exemplar do livro O Vermelho e o Negro. A capa era negra e vermelha. O livro nos foi tomado, pois tinha cara de propaganda comunista. O policial era um coitado, cumprindo ordens, afinal vermelho e comunismo combinavam. Ainda bem que ele só levou nosso livro.

Aqueles foram tempos difíceis, tempos de medo, de ansiedade. Tempos de revolta.

Assim, quando tudo acabou. Quando pudemos finalmente votar livremente, fazer valer nossa preferência. Quando pudemos ter de volta ao País nossos valorosos artistas, escritores, jornalistas, homens e mulheres que haviam sido exilados, foi maravilhoso. Havíamos reconquistado a liberdade.

Porém, e há sempre um porém, a despeito de tantas conquistas nos tornamos mais livres? Sim, podemos falar sobre tudo, podemos trabalhar no que quisermos sejamos homens ou mulheres, podemos casar se formos gays, podemos criar comunidades pela Internet, com assuntos os mais variados e os mais estranhos, podemos ser governados por uma presidenta. No entanto, estamos sendo vigiados e podemos ser denunciados a qualquer momento por nossos próprios filhos, pelos vizinhos, pela nossa própria família. As consequências não serão do mesmo teor a que estivemos sujeitos durante o período negro da ditadura, obviamente.

Deixem aqui que eu me explique para que não pensem que estou paranóica. Se eu der um tapa no bumbum de meu filho, bem dado, na hora certa, quando ele não estava certo, quando precisava ser corrigido e  o garoto berrar além do que deveria, se eu for pegar meu filho na saída de uma festa e encontrá-lo “trebado” e quiser levá-lo para casa e ele me peitar e, então o empurrar para dentro do carro com uma certa força, se eu disser que na casa de número tal, três casas abaixo da minha, no condomínio onde moro, mora um negro, o vizinho pode achar que espanquei meu pequeno, o meu filho “aborrescente” denunciar-me, alguém pode achar que estou ofendendo o meu vizinho negro. Posso ser indiciada por agressão ou preconceito.

Na verdade, penso que um tapa bem dado não traumatiza as crianças e não faz mal algum e não afeta seu desenvolvimento, nem o tornará um adulto chafurdado em problemas, penso também que adolescentes precisam às vezes de uma chacoalhada boa, e que não é sempre que conversas adiantam. Na verdade penso que chamar alguém de negro não é problema nenhum. Eu digo “aquele loirinho da casa tal”, o ruivinho do meu serviço. Digo até “aquela branquela” que eu conheci sei lá onde. Digo também: “aquele negão sarado que a minha amiga namora.”

Sei que a violência contra crianças deve ser combatida, sei que o preconceito é algo nauseante, sei que o diálogo deve ser tentado antes de qualquer atitude mais drástica em relação a contendas entre pais e filhos. Estou ciente de tudo isso. Sou a favor de tudo isso. O problema é que na ânsia de mudar substituimos sem pensar. Mudanças são necessárias. É certo que no calor das emoções tendemos a exagerar. É preciso rever. Colocar no lugar. Para que não nos tornemos tão radicais quanto o que queríamos mudar. Para que não nos tornemos escravos de conceitos. Para que não nos tornemos piores do que aquilo que julgávamos ruim.

 

julho

Gosto muito de rir. Acredito que o riso é transformador e que nos torna mais flexíveis  para aceitar nossas falhas e as falhas dos outros. Gosto de pessoas que tenham humor, aquele para ser cômico e fazer graça, para ser espirituoso, para tornar mais leve a nossa vida.

Nós brasileiros costumamos rir de tudo. O humor é algo que nos acompanha e sempre tive simpatia por essa qualidade. Puxa, pensava eu, nós brasileiros não perdemos a oportunidade de fazer uma piada.

De uns tempos para cá, no entanto dei de ficar irritada com algumas piadas principalmente aquelas que dizem respeito ao governo e aos políticos.

Por aqui em terras tropicais, ao sul do Equador, na terra do carnaval e dos grandes jogadores de futebol há cada vez mais um jeito de fazer humor que parece compactuar com safadezas e falcatruas.

Receberam vocês um email que pretende ser engraçado, sobre um Buda com a cara do Palocci, o Budalocci, que vai duplicar nossos rendimentos se passarmos a mão em sua barriga. Não achei graça, fiquei com raiva, fiquei envergonhada. Não é assunto para fazer piada. É assunto para se sentir mal. Vi a cara do ex-ministro na TV a mesma cara, mais gorda, mais luzidia, a pele muito boa, mas a mesma cara. Parecia estar de bom humor. E como pode, perguntaremos nós?

Um famoso economista mineiro disse em um interessante programa de TV que as pessoas acreditam no que falam, quando enganam as outras pessoas. Elas constroem um mundo de mentiras e o mundo se torna verdadeiro. Deve ser isso. Palocci e outros mais acreditam que estão agindo certo. E se é isso estamos dentro d’água, como costuma dizer minha amiga Tina. Pois, eles acreditam e nós também acreditamos, passamos a acreditar. Talvez por conta do bom humor, por conta de fazer piada. Nós nos rimos e nos esquecemos. Eu não quero rir mais de coisas assim. Quero é ficar de cara feia. Como a cara da Presidente. Vai ver que ela está de cara feia, pois não pode se rir de tantas coisas erradas com as quais tem que se defrontar. Talvez ela não seja como o antecessor que fazia piadinhas a cada toma lá, dá cá.

Talvez ela conheça o filósofo Lin Yu Tang, autor do livro “A Importância de Viver” que diz que é muito importante que um povo tenha humor. Que essa é uma qualidade primordial para que um povo se desenvolva.

É, porém com jeito chinês de pensar. Humor para rir de si mesmo, para entender que o desagradável pode estar ensinando algo. Para tornar mais leve o que está pesado. Para equilibrar. Humor aliado a outras qualidades como determinação, coragem, diplomacia e honestidade.

 

agosto

Acordei triste. Sim, senhores e senhoras, muito triste. Além do mais, acordei triste sem saber porquê. Pasmem! Eu não sabia o porquê. Tentei encontrar explicação. Dei tratos a bola. Nada. Eu estava simplesmente triste. Procurei no dicionário e o pai dos burros dizia que tristeza é: pena, desalento, ausência de alegria, qualidade de ser triste, um aspecto que revela mágoa ou aflição.  Pena, não era, eu não me sentia nem em sofrimento, nem cheia de mágoa, nem desgostosa. Não era desalento, pois não me faltava coragem, nem ânimo. Também não estava aflita. Então sobrava apenas ausência de alegria. Realmente eu não estava alegre. Assim, não estava contente, nem satisfeita. O problema é que eu não conseguia encontrar uma razão para tal estado de ser. Aí comecei a ficar preocupada. Afinal dizem que tristeza sem razão é depressão. Estaria eu deprimida. Seria uma candidata a fluoxitinas da vida?

Sim, pois tristeza é algo normal se tenho motivo, mas se não o tenho pode ser algo anormal, se é que sabemos o que é normal.  Há que se prestar atenção, não há dúvida, mas talvez possamos apenas aceitar nosso estado e gestá-lo, esperar que nasça em nós uma resposta ou uma transformação.

Difícil, muitas vezes é aguentar a opinião dos outros, esses apontadores de dedos, esses olheiros que pensam que nos conhecem. Então se estou sempre de dentes à mostra não posso estar quieto e meditabundo que logo me apontam como alguém que sofreu ou está prestes a sofrer algo. Algo de ruim, diga-se de passagem. Porém posso estar sofrendo de vontade de ficar comigo mesma, ou posso estar sofrendo de crise de busca interna, coisa que ainda não aflorou à consciência, mas vai chegar lá. Posso estar em tempo de lagarta, feia, desanimada e triste à espera de tornar-se linda borboleta.

Pior ainda é quando eu mesma começo a questionar meu comportamento à luz de crenças que acumulei dentro de mim e que me trazem também opiniões que não são necessariamente minhas e que ainda não coloquei em cheque. E inchando de opiniões, vou misturando-me ao que não é meu, vou ficando cada vez menos eu mesma e posso acabar acreditando que estou muito doente, muito fora do que é considerado normal para as vozes de fora e as vozes negativas dentro de mim. Fico grávida de negativismo e de conceitos e certamente vou acabar por parir algo doentio. Pior vou acabar por abortar a lagarta, por interromper a borboleta.

Há uma estória muito interessante sobre um homem que encontrou um enorme casulo e resolveu levá-lo para casa para ver a borboleta que dele sairia. Ele observou todos os dias e quando viu uma pequena abertura no casulo achou que a borboleta estava para sair.  Resolveu, então, dar uma pequena ajuda e abriu o casulo. A borboleta saiu, porém estava com as asas destruídas. As asas não cresceram mais, a borboleta estava estropiada. Ela havia sido privada de seu tempo para nascer.

Penso que devo olhar para minha tristeza. Observar se não está se tornando constante, mas devo muitas vezes honrá-la. Pode ser um chamado para o silêncio, para um refúgio apropriado em útero quente e amigo. Então, aqui termino, vou ficar quietinha comigo mesma, vou perguntar pra que serve minha tristeza e depois conto para vocês.

 

setembro

Sou informada de que há um Projeto de Lei que tem por escopo colocar a corrupção no rol dos crimes hediondos. Tudo bem. Perfeito, se lançarmos um olhar para o significado das duas palavras. Corrupção que pode significar deteriorização, decomposição. Hediondo que também pode significar fétido, que vem do castelhano hediondo derivado do latim vulgar foetibundus, de foetere que significa feder. De fato as duas combinam às mil maravilhas e se adequam perfeitamente às falcatruas políticas: fedem e fedem bem.

Agora vejamos. Teoricamente a coisa parece funcionar bem. O casamento parece fadado a dar certo, porém a medida como sempre não é preventiva, nem restauradora. É apenas punitiva. Nada errado em punir. É necessária a punição, criminosos devem pagar pelos seus erros. O que acontece é que cumprem um tempo na prisão, nada aprendem, são soltos após cumprir um tanto da pena, se não me engano 1/6 e saem desde que tenham um bom comportamento.

Então imaginemos os corruptos brasileiros na prisão, presos pelo crime hediondo de corrupção. Muitos deles beneficiados por terem estudo, com regalias e etc... Com a esperança de saírem por bom comportamento. Que beleza! Bom comportamento! Seja o que for que seja bom comportamento, eles não teriam dificuldade nenhuma em serem bons meninos. Tirariam de letra. Mestres em enganar trouxas, a saber, nós, o povo, facílimo seria interpretar o papel de arrependidos. Daí para saírem sem pagar devidamente por seus erros: um pulo.

E naturalmente não haveriam de se livrar da cadeia, restaurados, transformados. Agentes do bem e dos bons costumes.

Não obstante votei a favor. Melhor que nada. Não pude deixar de pensar que bom mesmo é que devolvessem ao povo o que roubaram, que fossem colocados para trabalhar e que pagassem de seus salários o equivalente ao que surrupiaram. Que retirassem para si apenas o suficiente para as condições básicas, que sofressem na pele o que já fizeram sofrer. Que pudessem aprender algo, da forma melhor de aprender que é vivenciando.

 

outubro

Saio pela manhã. Faz um dia lindo. Minhas roseiras estão cheias de flores brancas e se debruçam sobre o muro da vizinha como a dizer-lhe bons dias. Terei um dia cheio. Certamente haverá muita coisa para resolver. Algumas de que gosto, outras nem tanto. Algumas que eu gostaria de dispensar. Atenderei pessoas, coisa que gosto de fazer e as ouvirei, coisa de que também gosto. A maioria não está bem e não é por acaso que procuram um terapeuta. Tenho por meta encontrar com elas motivos para viver bem, para fazer da vida algo melhor, para encontrar sentido em pequenas coisas, para aceitar e acolher as próprias emoções, para honrar o jeito próprio de ser, única coisa que dá lenimento às feridas. Honrar, sim, a braveza, a tristeza, a insegurança, o medo. Honrar permitindo que se manifestem, que venham à tona, cada qual a seu tempo, não para desequilibrar, mas para se fazerem conhecidos, para que entabulem conversa, diálogo, para que botem a cara para ser vista e reconhecida. Depois quando descobertos dar-lhes capas novas, oportunidade de equilíbrio pela admissão das próprias falhas que só dessa forma podem e devem ser controladas. Controle que está longe de ser omissão, que jamais é esquecimento. Posse e coragem de olhar, de buscar a virtude que parece oposta, mas que em verdade esteve sempre lá, acoplada ao que chamamos defeito, esperançosa de ser encontrada.

Este trabalho faço, também, comigo. Não sou ferreiro em cuja casa prevalecem espetos de pau. Não digo que é fácil, não digo que muitas vezes não quero desistir. Muitos entraves há, mas é possível cair e levantar de novo, e ficar de pé muitas vezes até acostumar a não cair, ou cair pouco e acostumar a subir mais rapidamente ainda.

Por que estou a falar disso? É que tenho ouvido muitos comentários negativos. É que tenho ouvido muitas vozes faltas de esperança. Vozes pessimistas. Não só na terapia, mas no dia a dia. Fala-se tanto em desgraça e em desvarios. Fala-se da humanidade que chegou ao absurdo. Fala-se do desamor, da violência. Fala-se de um mundo fadado ao pior.

Querem saber? Francamente não acredito em um mundo fadado ao pior. Desde que colocamos nossa cara no Planeta passamos por altos e baixos. Mudanças ocorreram. O bem e o mal em sua luta eterna se apresentaram. Se lermos notícias antigas sobre nossa decadência, e não colocamos data, poderemos pensar que se trata de algo contemporâneo. Nós somos esses seres em transição, passíveis de evoluir, porém somos nós os agentes de nossa evolução. Na filosofia Huna há um princpío que diz que o mundo é o que a gente pensa que ele é. Acredito nisso. Acredito que somos atores na arena da vida e que fomos nós que montamos as peças e que, se não podemos mudar o final certamente poderemos torná-la mais agradável em seu decorrer.

Nós nos acostumamos a considerar as desgraças interessantes. Não é por acaso que os acidentes são contados e recontados. Não é à toa que a mídia veicula cenas de sangue e de morte. Talvez façamos assim para viver uma espécie de catarse. Talvez acreditemos que as vítimas são bodes expiatórios que vivendo as desgraças nos impeçam de sermos atingidos pela má sorte e pela desventura. Talvez acreditemos que como dizia o escritor russo Leon Tolstói, em seu livro Ana Karênina todas as famílias felizes se parecem entre si e que as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.

Não deixa de ter um certo charme o pensamento de Tolstói. Talvez a felicidade dê a impressão de algo linear, sem muito a considerar, algo como um céu onde os anjos toquem harpas infinitamente.

Não sei! Apenas gostaria que pensássemos juntos na possibilidade de acreditar em um mundo melhor. Colocá-lo em nós: imagem em nossas mentes. Criar um sonho coletivo onde caibam pessoas melhores, onde haja paz e tranquilidade. Onde possamos receber a Graça Divina.

 

novembro

Em seu poema “Consideraçãodo Poema” Carlos Drummond de Andrade escreve: “Não rimarei a palavra sono/ com a incorrespondente palavra outono/ rimarei com a palavra carne/ ou qualquer outra, que todas me convém/ as palavras não nascem amarradas/ elas saltam/ se beijam, se dissolvem/ no céu livre por vezes um desenho/ são puras, largas, autênticas, indevassáveis.”

Ah! Quem visse o homem Drummond, com seu jeito tímido, aparentemente antipático, a andar de cabeça baixa, escondendo de todos seus olhos azuis, não poderia supor a riqueza de emoções e sentimentos que carregava, expondo-as em palavras, com as quais tinha grande intimidade. O poeta trabalhou a palavra como poucos, rimou-a como quis; abusou da rima  de todos os modos, utilizando-a da forma tradicional e também libertando-a de regras. Fez versos irregulares, fez redondilha menor, abusou de metonímias e metáforas, deu forma às palavras.

Nascido em 1902, Drummond fotografou com sua poesia e prosa praticamente todo o século 20. Mestre em lidar com as palavras ele dizia que a poesia era uma experiência de vida. E acreditava que todos poderiam ser atingidos por ela. Assim, o poeta poderia fazer versos sobre o que bem entendesse. Dizia que se passasse uma pulga e o poeta a achasse engraçada, ele faria uma ode à pulga. E se ele visse um rio poluído, uma árvore inutilmente destruída e sentisse uma onda poética ele escreveria sobre o assunto.

Drummond escreveu sobre tudo e dizia que sua intenção não era mudar o mundo com seus escritos, mas provocar emoção nas pessoas. Provocar-lhes tristeza, alegria, dores e, principalmente um sentimento de comunhão com a vida. A vida segundo suas próprias palavras era o alimento da poesia.

Drummond fez aniversário. Digo fez, pois, continua por aqui, através de sua obra, extensa e valiosa, retrato histórico. Continua por aqui a falar de temas absolutamente atuais. Basta ler a produção daquele, que segundo Manuel Bandeira, foi o maior poeta que o Brasil já teve.

Sobre a amizade ele escreve, quando da morte de seu grande amigo Mário de Andrade, em seu poema “Mário de Andrade Desce aos Infernos: o meu amigo era/de tal modo extraordinário/cabia numa só carta/esperava-me na esquina,/ e já um poste depois/ia descendo o Amazonas...”

Sobre a fluidez do tempo escreve em seu poema “Desfile”: O rosto no travesseiro,/escuto o tempo fluindo/no mais completo silêncio./como remédio entornado/em camisa de doente; /como dedo na penugem/de braço de namorada...

Sobre o viver no aqui e no agora em seu poema “Mãos Dadas”: Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,/ Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,/ não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,/ não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins./o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

Sobre o Futebol na Copa do México em seu poema “Copa do mundo de 70.”: ...Hoje, porém, acordo, e eis que me estranho:/que é de meu coração? Está no México, voou certeiro, sem me consultar... e vira coração de torcedor, torce,retorce e se distorce todo,/grita: Brasil! Com fúria e com amor.

Sobre o amor erótico em seu poema “O que se Passa na Cama”: (O que se passa na cama/ É segredo de quem ama.) ...E silenciem os que amam/ entre lençol e cortina/ ainda úmidos de sêmen/ estes segredos de cama.

Recomendo que leiam Drummond, que se deliciem. Ele fez poesia para todos. Estas são palavras dele: “A poesia pode atingir a todos. Não há motivo para que o povo não leia poesia. Se o conteúdo não vai ser entendido, não importa, importa ser perturbado pela poesia.”

Recomendo que leiam este homem que disse “Não tenho a menor pretensão de ser eterno. Pelo contrário: tenho a impressão de que daqui a vinte anos- e eu já estarei no ccemitério São João Batista- ninguém vai falar de mim Graças a Deus. O que eu quero é paz.”

 

dezembro

Em vésperas de 2012, ano que alguns acreditam ser o último de nossas vidas, pois há previsões de que o mundo há de se acabar, eu proponho uma canção pela morte de muitas coisas encrustadas em nós. Proponho e desejo muito lixo jogado fora, muita faxina onde acumulamos o pó de nossas desventuras, o limo de nossas mágoas, o fogo impiedoso de nossas paixões mal resolvidas. Proponho o olhar atento qual farol a iluminar a escuridão e a humildade para assumir o que descobrirmos travestido de trevas.

Proponho então uma canção pela vida, pelo adeus aos medos conhecidos e desconhecidos, pela despedida da ausência de fé e de esperança. Proponho uma canção tranquila e benfazeja, e muito contagiosa. Canção de enxergar coisa boa, canção de agradecimento, canção de fazer sorrir, canção de incitar a amar. Canção positiva. Canção pelas boas obras. Canção de ter Deus dentro do coração e de não temê-lo como carrasco que castiga e pune.

Espero que cada um de nós ouça primeiro a canção-morte e que ouça sua mensagem de consciência e despreendimento. Esta canção não está a serviço da morte, aquela a quem tememos, a ceifadora, a que vem para apagar a chama de nossa vela, a que vem para cortar o fio tecido há anos na roca das Parcas. Isto é coisa muito difícil de aceitar, pois a vida é hábito dos mais teimosos e, nenhum de nós está preparado para morrer, por mais espiritualizado que seja, a não ser no sentido figurado. A canção que indico leva a consciência e ao despreendimento do que já passou do prazo, do que não vale mais, do que caducou e anda dizendo muitas e variadas bobagens ao pé de nosso ouvido.

Assim é possível cantar a vida e propagar sua canção de otimismo. Não é de hoje que se fala em fim-de-mundo. Boatos assim já provocaram muita catástrofe e desespero. Carlos Drummond escreveu em seu poema Cometa, certamente motivado pela passagem do Cometa Halley, que diziam acabaria com o mundo, isto em l9 de maio de 1910, que não estava preparado para morrer, pois o sentimento lhe cravara unhas, além disso, não tivera tempo de pecar. Questionava-se se teria boas obras para apresentar a Deus. No entanto o Cometa passou e não destruiu nada. Drummond faz poesia e diz que o cometa chicoteou de luz a sua vida, fez com que ele observasse o que não havia feito.

Que sábio o poeta. Que tal ser sugestionado por ele, porém sem esperar pela passagem do planeta tal, ou da nave não sei qual, que vai ceifar os maus, que vai separar joio do trigo. Que tal realizar internamente um trabalho de individuação e celebrar a maravilha de estarmos vivos no hoje?

Certamente o Novo Ano será dos melhores se nós assim quisermos.

Que sejam todos muito felizes em 2012.

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