Editoriais 2010

PDFImprimirE-mail

janeiro

Quando criança e no decorrer de minha adolescência, achava muito difícil essa estória de ter fé. Parecia-me algo muito do domínio do inatingível. Algo para pessoas especiais tocadas por Deus. Ele próprio, quem seria e o que seria? Algo restrito a quem acreditasse piamente no que contavam Dele, Deus. Algo baseado em um único documento, a Bíblia, que eu lia com respeito, embasbacada com o Velho Testamento e seu Deus vingativo e sujeito a crises de humor. Alguém que tinha se arrependido de ser tão inflexível e havia mandado seu filho, que era bom por demais, para consertar os desmandos do Pai. Com tais pensamentos não era difícil imaginar que eu me tornasse a ovelha desgarrada da família. Não que me dissessem, não que me chamassem atenção. Eu mesma é que me sentia mal, pois achava que a tal de fé estava a anos luz de mim. Como alguém que questionasse a Divindade poderia obter seus benefícios? Acontece que eu questionava e acontece que tinha medo. Afinal, sem Fé o que eram as pessoas: nada. Algo assim como navios à deriva.

Levou um bom tempo. Li muitas coisas. Outros livros religiosos, outras filosofias. Percebi que podemos ter fé em vários outros Deuses. E que isso não nos desabona, nem nos condena o fogo eterno. Custou ainda para que entendesse que a palavra fé tem outros significados além de crença religiosa.

A palavra Fé vem do latim Fides e é aí que comecei a interessar-me por ela. Pois esta pequena palavra denomina tudo o que há de melhor para engrandecimento do ser humano já que significa firmeza, convicção, integridade, promessa solene, lealdade, fidelidade à palavra dada, sinceridade, consciência, retidão, honra, honestidade, só para elencar alguns sinônimos retirados de Dicionário Escolar Latino Português, organizado por Ernesto Faria.

Ter fé exige, portanto, muito mais, que a crença em algo superior que alguém determinou que existe. Exige a coragem de buscar valores inerentes a nós, e que são atributos de uma divindade que não conseguimos entender, mas que intuímos existir e que independe de nome. Exige lutar pelo que acreditamos para melhorar nossas vidas e as vidas de nossos semelhantes. Lutar muitas vezes, por muito tempo, com muita perseverança.

Quando penso em Fé lembro-me de Nelson Mandela e sua luta contra o Apartheid, lembro-me de Gandhi e sua luta pela Não Violência, lembro-me, sim, de Jesus Cristo e sua luta pelo amor entre os homens. Lembro-me de Madre Tereza de Calcutá e sua luta pelos pobres e desamparados.

Afinal, você perguntará? São somente homens e mulheres desse porte que têm acesso a fé? Creio firmemente que não. Cada um de nós, que é capaz de lutar por algo que acredita, algo transformador, algo que contribua para melhorar a humanidade, é portador do archote da fé.

Mães que acreditam que é possível criar filhos incutindo-lhes bons pensamentos, estabelecendo limites, lutando, desafiando quando é preciso desafiar, firmes e inabaláveis, muitas vezes, mesmo quando é preciso que estejam sozinhas em suas convicções; mulheres que acreditam na força redentora do amor e que reverenciam seus corpos e que fazem do sexo oportunidade para integração e encontro com a alma de seus companheiros; homens que acreditam no companheirismo e na delicadeza e no trabalho conjunto entre os dois sexos em prol do crescimento mútuo, inclusive o espiritual.

Pessoas que acreditam que é possível lutar, que é possível nadar contra a maré, para não soçobrar quando a corrupção bate à porta, que acreditam que roubar um real é exatamente igual a roubar milhões, para o acreditar que  vale a pena estender a mão a quem precisa; todos nós que acreditamos que é possível mudar através de pequenas e contínuas ações. Para que o amanhã seja de governantes que tenham realmente “fé pública”. Todos nós na luta para transformar o planeta. Tão difícil e tão necessária, e tão possível!

Na mitologia romana a Fé, que é Fides, é representada por uma figura de mulher, vestida de branco, com as mãos juntas, guardiã da integridade, da honestidade e da lealdade. Esta é a Fé em que acredito e que procuro perseguir.

fevereiro

Assisti ao filme “Os Falsários”, vencedor do Oscar de Filme estrangeiro em 2008. A direção é do austríaco Stefan Ruzowitzky. Trata-se de uma estória real sobre o nazismo, passada em 1936, quando os nazistas colocaram em ação a operação Bernhard, ou seja, a maior falsificação de dinheiro da estória, com auxílio de artistas judeus muito talentosos, dentre os quais se destacava Salomon Sorowitsch, falsificador renomado.

A princípio pode parecer mais uma estória sobre judeus e nazistas. Não é. Sobre o bem e o mal. Sobre o mal engolfando a humanidade em um determinado momento histórico. Não é. É um filme sobre pessoas e seu modo de agir de acordo com o momento em que vivem. Homens em situações de extremo perigo, a vida por um fio, perto de perderem a dignidade e a condição de humanos.

Sobretudo é um filme que nos faz pensar que não devemos fazer julgamentos. Quem pode atirar a primeira pedra e dizer que o grande falsificador deveria negar-se a emitir dinheiro para a campanha nazista se estava sob a ameaça de perder sua vida? Ao mesmo tempo quem não concordará com o judeu que boicota a falsificação de dólares, pois acredita que deve manter uma postura ética, mesmo que perca a própria vida? Quem poderá questionar a sensibilidade do alemão que ouve Bach e se comove até às lágrimas? No entanto é ele a mesma criatura que é capaz de atirar em um judeu de vinte anos, doce e indefeso e falar disso como se fosse a coisa mais normal de se ver.

É, principalmente, um filme sobre ter força. Ter força para suportar as próprias escolhas aonde quer que nos levem.

março

Andava eu cansada e abatida por coisas e outras. Alguém me disse: Pra viver a gente tem que ter sabedoria.

Cruzes, pensei eu. É muito difícil. Procurei no meu baú de conhecimento o que entendia por sabedoria. Deu aquelas coisas de grande conhecimento, grande erudição, prudência. Não me adiantou muito. Daí lembrei-me da palavra Sophia, grega, que significa Sapientia, que é sabedoria.

Dos nomes dados às mulheres um dos que mais me apraz é Sophia, com PH ou Sofia, sem PH. Soa-me bem. É verdade que só conheço Sophias ou Sofias relevantes. Famosas, na verdade.

Vou-me lá a lembrar de algumas:

Há Sophia Loren, a atriz italiana, maravilhosa, considerada das mais belas do cinema. Foi protagonista de muitos filmes bons, mas me recordo mesmo é de “Duas Mulheres” cujo nome em italiano é “La Ciociara”, pelo qual ela ganhou o Oscar em 1962. A estória se passa na Segunda Guerra Mundial onde duas mulheres, mãe e filha são estupradas por soldados marroquinos e a mais jovem sofre colapso mental. La Loren alia à sua prodigiosa aparência, talento e dignidade.

Sophia Coppola, filha de Francis Ford Coppola, não nega a filiação e é excelente diretora de cinema. Quem não assistiu a seus filmes está perdendo coisa de qualidade. Virgens Suicidas, Encontros e Desencontros e Maria Antonieta são extremamente sensíveis e ligados ao universo feminino.

Sophia de Mello Breyner Andresen, poetisa portuguesa, foi a primeira mulher nascida naquele país a receber o Prêmio Camões, em 1999. Escreveu belíssimos poemas tais como 25 de abril: “Esta é a madrugada que eu esperava/o dia inicial inteiro e limpo/onde emergimos da noite e do silêncio/ e livres trabalhamos a substância do tempo”.

Não conheço Sofias ou Sophias não famosas. Esperem, conheço, sim. É uma linda menininha, de olhos negros, profundos e doces ao mesmo tempo. Tenho certeza de que vai fazer jus ao nome de batismo.

Talvez ser batizada Sophia ajude no caminho pertinente ao significado do nome. Mas, se não me chamo Sophia sabedoria talvez seja para mim de tudo um pouco: conhecimento e talento e sensatez e moderação e temperança. E como saber também pode significar ter sabor e ser alegre ao paladar, sabedoria pode ser a qualidade de encontrar sabor nas coisas e provar com alegria o que há para ser provado. Sabedoria deve ser viver cá na arena da vida o que há para ser vivido.

abril

Alguém me perguntou sobre o amor.  Embatuquei. Não sei se todos nós sabemos o que é o amor. Tanto se fala deste sentimento. É colocado de forma, muitas vezes a nos deixar culpados. Será que somos capazes de amar? Que queremos amar, lá isso queremos. É só atentar para a literatura, para as letras de música, para o dia a dia. Quantas explicações há sobre o amor. Como nós nos aventuramos a colocar-lhe nomes e formas de ser! Lembro-me até de algumas figurinhas que a gente comprava nas bancas e que vinham com o mote: Amar é... Amar era um montão de coisas, muito singelas e bonitas. Há lindas poesias sobre o amor. O amor rende muito e faz com que nos sintamos bem só por dizer que amamos e coisa e tal. Não é tão simples assim.

Afinal o que é o amor? Se é algo que tenho que sentir por amigos e inimigos, acho muito difícil. Se tenho que amar todos, de igual forma, também acho difícil. O amor universal está muito longe de mim.

Lembro-me então de Joseph Campbell, grande professor, historiador e mitólogo. Ele disse que o amor que conhecemos hoje é influência dos trovadores. Século XII, XIII, vejam só! Até então o amor era visto como Eros, aquele que flecha você e que o deixa excitado. Os trovadores introduziram o amor pessoal, aquele que diz respeito a duas pessoas. Que se faz presente no olhar, olhos nos olhos e a sensação de que se foi atingido pelo amor. E mais. O amor não tinha por objetivo a luxúria, não tinha por objetivo o poder. Queriam viver uma experiência pessoal. Com a mulher amada. Ao mesmo tempo, a meu ver, é algo mais amplo. Significa buscar bem aventurança. Significa ser feliz. Começar a amar no espaço próprio. A mulher que se tem para amar, o homem que se tem para amar. Com gentileza, como atributo que se herda dos trovadores. Com regras, que são necessárias, para colocar limites. Com Eros, sim, que propõe o desejo, com compaixão, que é capacidade de sofrer com e, portanto, estar com o outro nos dissabores e desavenças. Amor humano onde é mais fácil encaixar-se, para progredir, evolução esperada para níveis mais altos, para o amor Ágape, que é o amor Espiritual, aquele que permite amar sem olhar a quem.

Amor é

Não quero amor de faz de conta.

Quero amor de conta e faz.

Não quero amor de virar costas.

Quero amor de curva de braço.

Lugar bom para aconchegar.

Não quero amor de quero mais.

Quero amor bom de seu jeito.

Amor de arrebentar peito.

Quero amor de ser eu mesma.

Amor de entender o outro.

Amor em apertado laço.

Com duro nó de cegar.

Quero amor de dia a dia.

Com riso gordo na boca.

Com choro que a gente aceita.

Amor de polpa e caroço.

Para morder e para chupar.

Quero amor de meio dia.

Amor de meio de tarde.

Amor de realidade.

Amor envolto em poesia.

Quero amor de rosa em flor.

Amor pétala em livro.

Amor das coisas do mundo.

Amor sem medo de Adeus.

Amor sem pulo de gato

Sem dança de gato e rato.

Amor no colo de Deus.

maio

Mês de maio.  Em pauta: o dia das mães. Que é, diga-se de passagem, todo dia. Alguém, por acaso, deixa de ser mãe? Mas, nunca. Este negócio de ser mãe é para sempre, pois filho a gente não esquece, a gente não se esquece de se preocupar com ele, de querer para ele o que de melhor há. Queremos evitar que sofram. Até aí, tudo bem, o problema se avulta quando a preocupação é descabida. Quando, por exemplo, o rebento já arrebentou há muito tempo, tornou-se um baita homem, com bigode e tudo, e estamos querendo controlar sua vida. Problema é quando a moça, que é nossa filha, já está madura, até ruguinhas já tem e a tratamos como bebê. E não os libertamos. Oferecemos a eles um lugar seguro, tão seguro, que o simples pensar em deixá-lo, os apavora. Além disso, onde encontrar mordomia e segurança, duas coisas tão difíceis de se topar lá no fora de casa, onde bichos papões como o trabalho, a responsabilidade e a independência os aguardam os aguardam? Deus os livre. E Deus nos livre, também de sermos mães superprotetoras, que em nome do zelo lesam os filhos. Deus nos livre de acreditarmos que somos poderosas a tal ponto. Aliás, poderosa é uma palavra que me irrita. Usada de forma superficial me sabe a engodo. Exemplo: mãe que domina todos em casa se diz superpoderosa. É nada, é tirânica e ameaça o lar. Mãe no poderio do ”faz tudo”. Bolos, comidas maravilhosas, borda, passa camisas na perfeição, mantém a casa nos trinques e em compensação, diz que vai morrer de tristeza se as “crianças” forem embora ou se não vierem visitá-la toda semana, mesmo que residam lá onde “o Judas perdeu os sapatos”.

Mães que se preocupam, tanto, mas tanto com os filhos que não podem dormir, quando saem de casa e, também não podem deixá-los em paz onde estiverem, tentando se divertir. Sim, pois elas não permitem.  Ligam de minuto em minuto para o celular dos pobres coitados e se não atenderem, podem colocar-lhes no encalço polícia, detetive e sabe-se lá mais o quê.

Pois é, as poderosas são um perigo. Destroem, mesmo que não queiram, mesmo que acreditem que estão dando o melhor de si. Provavelmente acreditam. Afinal, como podem estar prejudicando os filhos? Não é esta a função das mães. Além do mais, estão cheias de boas intenções.

Lembro-me de minha avó. Quando alguém fazia uma coisa não muito boa e dizia que estava cheia de boas intenções, ela retrucava: “É, meu filho, o inferno tá, assim, lotado de boas intenções.”

Filho é eterno. Não vamos, jamais, nos livrar deles. Dentro de nós, dentro de nossos corações. Devemos educá-los, sim. Apontar-lhes limites. Introduzir-lhes conceitos que valorizem a vida e os seres humanos. Esta é a nossa tarefa e então, chega o momento de deixá-los ir. Cada filho é uma Alma livre, não podemos aprisioná-los, não podemos tirar-lhes a liberdade. Mais que isso, não podemos lhes pedir nada em troca. Nada de chantagens, nada de lamentos. Desapego em nome da harmonia. Para que nos resguardemos, cada um de nós, como seres únicos, potentes para realizar nossa missão de vida.

junho

Quando crianças, meus filhos me perguntavam sempre: Mãe ele é do bem ou do mal? Isto é do bem ou do mal? E lá ia eu explicar as diferenças. Do bem, quem respeitava o semelhante. Do mal quem não estava nem aí para as mazelas dos outros. Do bem quem respeitava a natureza, do mal quem a depredava. E havia, também, os “do bem” que me interessavam. Fazer a lição direitinho, estudar direitinho, não ser malcriado para os pais. Minhas intenções eram ótimas! Verdade que eu ficava dividida. Como explicar-lhes que não éramos tão certinhos, assim. Tudo bem, tudo mal! Como evitar que fossem percebendo que nós, os pais, nem sempre agíamos de acordo com o que pregávamos? Que estávamos lutando o tempo todo, bem e mal dentro de nós? Que estávamos lutando contra coisas que também não entendíamos?

Pior, como ser coerente? Dizer, faça o que eu digo, pois faço o que digo!

Na verdade havia é muito medo de olhar o que de fato me amedrontava: quem era eu? O que eu sabia de mim? Minha solução era a de falar muito, explicar muito. De novo, boas intenções! Os resultados, infelizmente eram pífios. Se eu pudesse voltar atrás, falaria menos, perseguiria algo a ser mudado em mim, com persistência para que meus rebentos vissem e, principalmente sentissem os resultados, ali, de frente a seus narizes e olhos e, pudessem acreditar de fato em intenções que se realizam. Hoje, tempo escoado, eu, na idade de ter netos, sei que as palavras não convencem filhos. Atitudes, sim. Ser exemplo, sim. Mas não pode ser algo mecânico. Tem que ser verdadeiro. Tem que ser algo que nos mobilize por inteiro, para que as palavras traduzam manifestações fortes, ancoradas e firmes. Dizer o que não penso, nem sonhar! Dar lições de moral e agir diferente, nem pensar!

E dá para ser assim, ficar se vigiando o tempo todo? Não é esta uma postura perfeccionista? Não é uma chatice? Muitas vezes é. Inúmeras vezes, não dá para fazer. Mas, com certeza devemos tentar.

Estou falando disso, pois vi uma cena que me chamou atenção. Uma mãe com seu filhinho pequeno, de uns sete, oito anos, no shopping. Ele queria um brinquedo, não me lembro qual. Dizia: Mãe, compra pra mim. Ela, irritada, respondeu: Não temos dinheiro, filho. Agora não dá. Precisamos economizar. O menino choramingou um pouco. Eu continuei, olhando lojas. Parei em uma de sapatos, lindos e caros. Entrei. Estava experimentando um, quando a mãe do menininho entrou. Ela experimentou sapatos, caros, e comprou dois! Eu fiquei ali, pensando, o quanto confundimos a cabeça de nossas crianças!

Porém sempre é tempo de mudar. Eu, que fui mãe, nem de todo má, nem de todo boa, que tenho filhos saudáveis, que lutam suas próprias batalhas e têm vencido com a espada de raios azuis, a espada de raios vermelhos de Dart Vader, o vilão de “Guerra nas Estrelas” continuo na busca e sei que é possível mudar.  Talvez, agora, eu seja exemplo, pois de fato, tenho falado menos e agido mais, com mais coerência. Isto é bom. Faz crer que é possível transformar. Se meus filhos atentarem para isso, meus netos se espelharão em melhores exemplos e farão do mundo um lugar melhor. Assim seja!

julho

Meu Deus do Céu, estamos escrevendo antes do resultado da Copa. Antes do jogo com Holanda. Isto quer dizer que estamos muito ansiosos e que não sabemos, ainda, se vamos ganhar a Copa, embora saibamos que o Brasil é sempre o melhor e poderia ter ganhado de todos, se quisesse.

Já ouviu esse discurso antes? Certamente. Eu ouço em todas as copas, vem da boca de várias pessoas e eu penso que o brasileiro é danado de otimista. É um pouco prepotente, também. O brasileiro se acha...

Acha que tem o melhor Carnaval do mundo, as mulheres mais bonitas, um senso de humor danado, um futebol do caramba. Acha que vai dar um jeitinho em tudo. Acha até que Deus, imagine só, é brasileiro. O próprio Deus!

Ser otimista é até bom, mas demais pode dar problemas. Pode dar preguiça. Já que tudo um dia dá certo, para que se mexer, meu rei. Pode gerar dependência.Vamos ficar por aqui mesmo, não é? Alguém vai aparecer e ajudar.

Recebi um e-mail, que elucida bem isto. No Ceará, houve um curso para 500 mulheres que usufruíam do Bolsa-Família. Curso de formação para costureiras. O Governo entrou com recurso, o Senai entrou com a formação e o Sinditextil com a proposta de cadastrar as mulheres para que fossem contratadas por empresas. Resultado: as mulheres não quiseram ser contratadas, pois não queriam perder a Bolsa-Família e perderiam se tivessem registro em carteira. Não houve contratações e ponto.

Daí que o Governo se beneficia e muito com uma caca dessas. O povo não evolui. Evoluir para quê. Afinal, o que é evoluir mesmo?

Eu conto. É transformar. O que é transformar?

Eu conto. É passar de uma estado para outro. É modificar-se. É mudar de forma.

É jogar futebol muito e bem, pela Pátria e por si mesmo. Por retidão e vergonha de perder, já que se joga tão bem.

É lançar mão dos próprios recursos para vencer na vida. Ser costureira contratada no Ceará pode ser uma boa, um começo bem dos bons.

É ficar de olho: O que pode parecer benefício pode não ser. Pode ser armadilha, ardil, que são palavras símiles.

É também, buscar novas formas de sermos conhecido. Ser bom na educação, ser bom na área da saúde.

Que tal ser bom na área dos políticos. Manchete assim: Brasil e seus políticos íntegros e preocupados com o bem estar do povo?

Bem, daí já é exagero. Só mesmo se Deus for brasileiro.

agosto

Quando pequena eu ouvia muito dizer que Agosto era mês de desgosto. Talvez fosse por ser mês de “cachorro louco”. Talvez porque fosse um mês de muito ventar, de muita poeira e de rodamoinhos. Eu não achava, mesmo porque ventava e eu adoro o vento ao contrário da personagem do livro de Érico Veríssimo - O tempo e o Vento. Dona Bibiana, a matriarca do Sobrado, acreditava que o vento trouxesse desgraças. Os chineses parecem concordar. Não devemos tomar vento, pois ele pode ser perverso e causar doenças. Bem, Bibiana e os chineses devem ter suas razões.

Para mim, porém, o vento leva a estagnação embora, desloca o que está parado, acaricia peles, despenteia cabelos, “bouleversa” vidas. O vento vem para contar coisas, traz notícias de longe. O vento transforma.

Lembro-me de uma estória da qual gosto muito. Chama-se a Lenda das Areias. Eu a li no livro Histórias de Dervixes de Idries Shah. Diz que um rio vindo de sua origem, após passar por muitos acidentes de terreno, chegou às areias do deserto. Ele tentou atravessá-las, mas se deu conta de que se o fizesse desapareceria. Ele sabia que deveria cruzar o deserto. Como fazê-lo?

Uma voz lhe falou que o vento poderia ajudá-lo, pois o vento cruzava o deserto. O rio achou muito estranho, mesmo porque ele não queria ser absorvido pelo vento. Ele temia perder sua identidade. As areias disseram que o vento tinha a função de elevar a água e transportá-la e de conduzi-la sobre o deserto para depositá-la em outro lugar. Mas o rio não acreditava nisso.

A voz tentava convencê-lo do contrário o que era difícil, pois ele temia perder sua essência. A voz continuou a conversar com ele até que ele se deu conta de que em outras épocas algo parecido lhe havia acontecido. Lembrou-se de que era algo que realmente deveria ser feito.

Então se deixou elevar pelo vento que o conduziu através do deserto e para bem longe. Depois, foi depositado suave e gentilmente e conheceu sua verdadeira identidade.

setembro

Falei de Mia Couto, já. Contei neste jornal meu encontro com o escritor moçambicano. Falei de seu jeito de ser e como me impressionou sua simplicidade e delicadeza. Não falei do público. Tinha muita gente boa. Interessada, fã de carteirinha, gente que não havia lido Mia. Tinha minha amiga Tina, que é atriz, além de muitas outras coisas e que fez uma pergunta emocionada, pois ela conta Mia em suas estórias.

A homenageada, no entanto, é Jair Ianni. Sintam-se mal os outros, as outras. Não teve para ninguém. É que esta amiga minha do coração, ouviu o escritor, também com o coração e, ao ouvir dizer que ele não se lembra do que escreve perguntou: Você sabe dizer algum poema de cor?

Ele respondeu que não sabia. Então, levantou-se e brindou a todos com uma epígrafe do capítulo dezenove do livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”.

 

Quando já não havia outra tinta no mundo

O poeta usou do seu próprio sangue

Não dispondo de papel,

Ele escreveu no próprio corpo.

Assim,

Nasceu a voz,

O rio em si mesmo ancorado

Como o sangue: sem foz, nem nascente.

 

Todos aplaudiram com vontade e sem dó. Mia Couto colocou a mão direita sobre o peito, gesto de agitar o coração, fazer dele solo para semente do afeto. Houve um balançar entre as pessoas, sutil: equilíbrio e entendimento.

outubro

Falamos neste Jornal sobre Palestras e Exposições no SESC sobre temas ligados ao Brincar, ao Brinquedo e a Criança. Pois muito bem. Fomos assistir às palestras e à exposição de que gostamos.

Algo, porém ficou muito forte para nós: o brincar dos “meninos quietos” que se utilizam de pedaços de material, de coisas garimpadas na natureza e que constroem brinquedos belos e criativos sem tecnologia alguma. Brinquedos que parecem ter vida, saltam em direção aos nossos olhos e nos fazem também ficar quietos, numa quietude boa e plena, como se estivéssemos reverenciando a natureza nossa tão velha e maltratada amiga.

E veio-me à mente o conto “O Rouxinol” de João Cristiano Andersen que vamos resumir e adaptar para vocês:

Na China, há muitos e muitos anos, havia um imperador que possuia um palácio enorme e maravilhoso. O jardim imperial era tão extenso que nem o jardineiro conhecia seus limites e quem andasse por esse jardim chegaria a uma floresta com altas árvores. Entre os galhos da floresta morava um rouxinol. Cantava de forma tão maviosa que todos os que o ouviam se maravilhavam. Chegavam viajantes do mundo todo e ao ouvi-lo, ficavam extasiados. No mundo todo escreviam livros sobre ele. Alguns chegaram às mãos do imperador. Ele os leu e ficou admirado, pois não sabia da existência do rouxinol em seu jardim. Ele vivia fascinado por seu palácio e por si mesmo e não tivera tempo de passear do lado de fora. Ele mandou que fossem buscar o rouxinol, imediatamente. Metade da corte se pôs a caminho e pomposamente trouxeram o pássaro. Disseram-lhe que daí para frente iria cantar para o imperador e que iria morar em um palácio, em poleiro de ouro. O rouxinol preferiria o verdor das matas, mas...

No palácio ele cantou as mais belas músicas, as mais enternecedoras, as mais doces. Todos se emocionaram. Dos olhos do imperador saltaram lágrimas. Quiseram presentear o rouxinol com um chinelo de ouro, mas ele achava que a melhor recompensa eram as lágrimas do imperador.

O rouxinol ficou na corte e cantava todos os dias para alegria de todos. Um dia o imperador recebeu um pacote. Trazia dentro um rouxinol artificial, cravejado de pedras preciosas. Se lhe davam corda, cantava uma das cantigas que o rouxinol verdadeiro cantava e, balançava a cauda para cima e para baixo. Todos ficaram encantados e imediatamente perceberam como o antigo rouxinol era feio e sem graça. Tentaram colocar os dois rouxinóis para cantarem juntos, mas não deu certo. Assim, puseram o artificial para cantar e ele cantou trinta e três vezes a mesma canção. Mas eram tão bonitas as pedras preciosas que o adornavam.

Ninguém prestou atenção ao rouxinol de verdade e, ele saiu pela janela e voltou para sua querida floresta.

O rouxinol artificial passou a dormir do lado da cama do imperador. Dentro de um ano todos sabiam a canção que ele entoava de cor. Então numa noite ele emperrou, algo acontecera ao mecanismo! O imperador mandou chamar o relojoeiro. Não adiantou.

Cinco anos se passaram e o imperador caiu de cama. Diziam que a doença era muito grave e o povo estava muito triste, pois gostava muito dele.

Um dia, sentindo que a Morte se aproximava, ele abriu os olhos e viu-a sentada em seu peito. Ela mostrou-lhe todas as suas boas e más ações. Apavorado ele pensou que deveria estar ouvindo música, que a música poderia aliviá-lo. Ele pediu música para seu rouxinol de ouro, mas ele não podia ouvi-lo.

De súbito, porém, soou perto da janela a mais doce canção. Era o pequeno rouxinol, o verdadeiro, sentado no galho de fora da janela. E ele cantou, e cantou. A morte encantada decidiu-se a ir embora. O imperador chorava de emoção e se sentia cada vez melhor. E o pequeno rouxinol cantava, cantava.

De manhã o imperador acordou restabelecido e assustou seu povo ao levantar-se e ao abrir as portas do quarto. Todos ficaram muito felizes.

Quanto ao rouxinol, vinha cantar sempre para o imperador. Continuou a viver na floresta, que era o lugar dele.

Acabou a estória e morreu a vitória, quem quiser que conte outra...

novembro

O filme Nosso Lar foi lançado nos cinemas. Não fui assistir. Confesso que não me interessei. Já conhecia o livro, lera alguns pedaços. Admirava a obra de Chico Xavier a quem considero uma das melhores pessoas que já aportaram neste Planeta. Não fui ao cinema. Para ser justa e verdadeira temi: e se houvessem feito uma mixórdia plena de efeitos especiais pífios? Julguei: uma obra que trata das coisas do além, dirigida por um brasileiro, provavelmente conduzida com poucos recursos financeiros, seria uma chatice como foi a novela “A Viagem” que eu havia detestado.

Depois esqueci. Eu não precisava assistir e pronto. Acontece que coisa vai, coisa vem, fui convidada a assistir. Já havia escutado várias opiniões. De gente que se emocionava, de gente que criticava e assim por diante. Finalmente assisti. E gostei. Achei bem feito, gostei do desempenho dos atores. E fiquei emocionada. Foi uma surpresa agradável, pois gerou em mim alguns questionamentos. Principalmente após ler crítica de revista renomada em que o jornalista se pronunciava com ironia e descaso sobre o filme. Como se soubesse exatamente como é ou como não é a vida depois da morte. Como se em sua “imensa sabedoria” que não ultrapassa três décadas, se tanto, já lhe fosse dado conhecer todos os mistérios da vida, ou melhor, lhe fosse dado saber com propriedade e empáfia que a vida não tem mistérios. Tudo são conhecimentos que podem ser comprovados através da ciência, do prático, do empírico. O que foge disso são balelas, estórias para boi dormir.

Eu fui picada pela crítica do sapientérrimo jornalista. Sabem o porquê? Porque me identifiquei. Fiquei pensando no quanto julgamos tudo, à luz do que achamos que é certo. E vamos por aí, lotados de preconceitos. Se acreditamos que ao morrer vamos para o céu, ou para o inferno e ficamos por lá, esperando pelo Juízo Final, então por que não achar que os que acreditam diferente, são uns tolos e nada sabem. E pensamos: quanta bobagem essa estória de reencarnar, de ficar com o mesmo corpo lá em uma cidade parecida com a nossa. Quanta bobagem em tudo aquilo que não é o que gostaríamos que fosse.

Fiquei cá a pensar que tudo muda. O que acreditamos hoje é desacreditado amanhã. Amplia-se. Transforma-se. A teoria da relatividade e a Física Quântica colocaram em cheque a noção de tempo e espaço absolutos. Percebemos hoje que somos responsáveis pelo que nos acontece, que através da mente podemos mudar nossas vidas, que as células têm consciência e que podemos conversar com elas e erradicar doenças.  Sabemos de muitas coisas. Todos os dias recebemos novas informações. Somos os seres inteligentes da criação. Aqueles que podem mudar as condições do planeta. Somos imagem e semelhança de Deus, assim nos foi dito. Parece-me que usamos isso para nos tornar prepotentes e tolos.

Nós na verdade, esta é minha opinião, não sabemos nada. Somos testados sempre. Estamos fadados a descobrir coisas e a entendê-las por um tempo. Em algum momento surgem novas ideias. Ontem imperava aquilo. Hoje impera isto. Muitas vezes compreensão nos falha e somos obrigados a admitir nossas limitações. E porque não queremos admitir, criticamos e julgamos.  Mesmo que pareça estranho, mesmo que vá de encontro ao registro que temos das coisas, tão arraigado, tão entranhado em nós, podemos olhar para os objetos e perceber como dizia o Dr.Fritz Khan em 1950: “o homem não sabe o que as coisas são, mas apenas o que a respeito delas ele pensa e, segundo uma regra psicológica, creem os homens conhecer uma coisa, quanto menos dela sabem”.

Quero mesmo é colocar minhas barbinhas de molho. E respeitar tudo e todos. Opiniões e crenças as mais variadas. Para aproveitar muito de cada pouco. Não, não quero ser sabichona. Não quero fazer valer a todo custo minhas ideias. Quero é ficar surpresa a cada vez que for acrescentado ao meu saber algo que o engrandeça. E se possível algo que me emocione, também.

dezembro

É Natal. É Natal. E coisa e tal. Vem Papai Noel! Tudo muito bonito, porém há muitas pessoas que se sentem tristes no Natal. Muitas carregaram durante o ano cruzes pesadas. Muitas acharam que não deram conta de carregar seu fardo. Esta data lembra muitas coisas. Nem todas boas. Afinal está findando o ano e nós, muitas vezes realizamos muito pouco do que queríamos. Nós nos frustramos. Nós sofremos. Não é uma festa de Natal que vai nos colocar melhores, não é? Talvez não.

Mas se pensarmos na origem da palavra Natal que remete ao nascimento pode ser que haja esperança.

Quero mesmo é falar de nascimento. Não só o de Jesus Cristo, mas o de cada um de nós. Nascer todos os dias, embrulhar a vida em papel celofane, de muitas cores e abri-la pela manhã. Encontrar vontade, estímulo, revigoração, habilidade para recomeçar.

Nascer todos os dias mesmo que nos julguemos morrer durante a noite. Mesmo que as tristezas tenham nos visitado. Mesmo que nos tenha acontecido algo pelo qual não esperávamos, que não queríamos, que não programamos. Nascer apesar de tudo. Pois a vida é feita de agoras. De manhãs aproveitadas, de ações encetadas, de muitos afazeres.

Apesar dos pesares estamos aqui. Aliás, pesares, também nos fazem crescer. E nos obrigam a nascer todos os dias, a despeito do que nos acontece.  Como o Menino Deus nascemos e temos algo a cumprir nem sempre tão fácil e, cumprimos, e se morremos de dores, de tristezas, de dissabores, também renascemos, mais fortes a cada batalha vencida.

***

Este ano, através de nossas capas – imagens, cores e, através dos nossos editoriais procuramos passar uma mensagem para os nossos leitores a respeito de fé / força / sabedoria / amor / poder / imaginação / compreensão / vontade / ordem / zelo / eliminação / vida. Esperamos que a mensagem tenha sido recebida, mesmo que inconscientemente.

Desejamos a todos Boas Festas e um Próspero Ano Novo.

 

Banner
Banner
Banner
Banner