Escrito por Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
Janeiro
Tenho uma massagista que se tornou minha amiga ao longo do tempo. Afinal, faz mais de dez anos que nos conhecemos. O interessante é que somos muito diferentes. E é aí que reside a riqueza de nossa relação. Eu, que sempre adorei ler, e pensar a respeito das coisas. Eu, que sempre adorei pessoas que saibam discorrer sobre as coisas baseadas em muita pesquisa e leitura e toda a parafernália acadêmica, encontrei, nessa minha amiga algo maravilhoso. Já explico. Ela não é uma intelectual. Duvido que tenha lido tratados a respeito da psique humana, ou sobre as várias formas de entender o nascimento e a morte ou que perca seu tempo em pensar qual a razão de estarmos por aqui, ou de onde viemos ou para onde vamos. Isto não quer dizer que não seja muito inteligente e que não seja capaz de entregar-se a tais temas. Se quisesse. Não quer!
Solta frases muito pertinentes. Às vezes desembesta em um discurso e eu me pego pensando. Não é que essa danada tem razão! Outro dia quando se falava sobre a ecologia e a possível destruição do planeta ela disse: Quer saber, Tô nem aí. Eu vou vivendo a minha vida, eu quero é viver bem. Doutra feita quando alguém reclamava demais ela se irritou e disse: Você reclama demais, assim não dá. A vida é boa de ser vivida. Quanto mais a gente reclama pior. Viver é bom, sô.
Pode parecer egoísmo, mas não é. Ela vai vivendo a vida com intensidade, com gosto. Ela cozinha com gosto, faz massagem por gosto, namora o marido com vontade. Não está nem aí, como ela mesma diz. Talvez alguém diga: Nossa, é alienada. Talvez eu também tenha pensado dessa forma há um tempo.
É que, para ela, a frase “não estar nem aí” quer dizer: não vou me preocupar com o que não posso resolver, não vou deixar que coisas que não são de minha alçada me impeçam de fazer o que posso fazer. E posso fazer muita coisa. No hoje, no meu presente, agradecida ao presente que Deus me deu, que é o de estar aqui pronta para os embates que me concernem. Pode ser que não se preocupe mesmo com as grandes questões da humanidade, mas certamente ela contribui para uma humanidade melhor na medida em que dá valor à vida. Se todos agíssemos assim e fôssemos primeiro felizes no microcosmo para depois mirar as grandes galáxias, quem sabe produziríamos gente alegre por estar vivo. E não será a alegria o combustível para melhorar homens e mulheres neste Planeta? Haverá ideologia melhor do que essa?
Então estou elegendo essa mulher como símbolo de um ano novo. Um 2009 de pleno viver com as coisas do dia-a-dia. Não sei se ela conhece o filósofo chinês Lin Yutang. Ele escreveu um livro chamado a Importância de Viver, que é uma apologia à vida, como o próprio título revela. Há uma frase de que gosto muito e que tem a cara desta minha amiga. Na verdade é uma pergunta “É tão fácil mesmo traçar uma distinção entre o gozo de um sanduíche e o gozo de um panorama que chamamos poesia?”
Fevereiro
Carnaval, novamente. Recusamo-nos a ver sempre a mesma coisa na tevê? O que buscar? Algo nos sopra ao pé do ouvido: outros carnavais. Alegria e humor de outros tempos. Letras de música de compositores bem humorados, naturalmente daqueles bem porretas. Para quem não sabe, porreta quer dizer coisa muito boa, muito linda, muito simpática, é uma palavra que a gente usa para atribuir boas qualidades. Pelo menos usávamos. Pois é, procuramos por algo porreta para mostrar aos leitores. E achamos.
Vamos lá. O mineiro Ari Evangelista Barroso. Nascido em 1903. Não gostou do sobrenome Evangelista e se tornou Ari Barroso. Locutor, animador. Flamenguista roxo. Bom no piano. Excelente compositor. Quem não conhece Aquarela do Brasil, que o levou a fama?Bom lembrar, faz bem para o ego brasileiro, que essa composição serviu de fundo musical para o desenho animado de Walt Disney, Alô Amigos.
Dizem que era muito mulherengo e uma vez estava louvando as qualidades de uma moça com quem tinha saído. Comentou sobre as pernas, o rosto e o corpo. O ouvinte atento era Jorge Veiga, grande intérprete do samba de breque e do samba de gafieira. Jorge ficou curioso e perguntou dos seios. Ari só respondeu: Alabastrinos, Jorge. Alabastrinos. Jorge, é claro, ficou sem saber como eram os seios da moça.
Vejamos agora a composição Grau Dez em parceria com Lamartine Babo: Yo te quiero/a vitória há de ser tua, tua, tua/Moreninha prosa/Lá no céu a própria lua, lua, lua/Não é mais formosa/Rainha da cabeça aos pés/Morena eu te dou grau dez!/O inglês diz "yes, my baby"/O alemão diz "iá, corração"/O Francês diz "bonjour, mon amour"/Très bien! Très bien! Très bien!/O argentino ao te ver tão bonita/Toca um tango e só diz "Milonguita"/O chinês diz que diz, mas não diz/Pede bis! Pede bis! Pede bis!
Agora é a vez de Lamartine. Cujo sobrenome é Babo. Nascido em 1904, no Rio de Janeiro. Compositor versátil. Revolucionou as marchinhas de carnaval estabelecendo novos padrões, de forma que se tornassem crônicas cantadas pelo povo. Foi o precursor do humor no rádio. Conta-se que era tão magrinho, tão magrinho que ao ser apresentado como “O grande Lamartine em carne e osso” ele disse: em osso, só em osso.
Em parceria com Ari Pavão compôs “Infelizmente”: Eu tenho inveja dos mocinhos da Avenida/de ombros largos e elegância nos quadris/Roupa lavada, casa, luz e até comida/Tudo de graça, ó que gente tão feliz!/Infelizmente eu trabalho muito!/Conheço um "cabra" que tem sorte até comendo/Frequenta um "china" bem ali na rua Sete/Um dia desses, vejam só, caso estupendo!/Achou um relógio na barriga de um croquete!Infelizmente eu almoço em casa!/Eu quando vejo um baile de alta-sociedade/Lindas casacas, toaletes formidáveis/de terno-saco dou uma volta na cidade/Tomo uma média, vão-se os níqueis miseráveis/Infelizmente sou da classe-média!/Se me apresentam uma menina espevitada/que bebe e fuma e dança o fox-trot blue/finjo que entendo e afinal não entendo nada/Envergonhado, cabisbaixo, jururu!
E para finalizar, Geraldo Teodoro Pereira. Nasceu em 1918, em Minas Gerais. Não é um compositor muito conhecido, mas nada fica a dever aos outros já citados. Estudou violão com Cartola, vejam só! E introduziu na música popular brasileira um samba de ginga, diverso do tradicional até então apresentado. Uma espécie de bossa-nova no samba. Não era muito bem humorado, era brigão e metido a valente. Tanto que morreu novo, aos trinta e sete anos após ter brigado, com o famigerado travesti, Madame Satã. Isto não impede que haja muito humor nas suas composições. Como esta cujo título é “Ministério da Economia”: Seu Presidente/Sua excelência mostrou que é de fato/Agora tudo vai ficar mais barato/Agora o pobre já pode comer/Seu Presidente/Pois era isso que o povo queria/O ministério da Economia/parece que vai resolver/Seu Presidente/Graças a Deus não vou comer mais gato/Carne de vaca no açougue é mato/Com meu amor eu já posso viver/Eu vou buscar/A minha nega prá morar comigo/Porque já vi que não há mais perigo/Ela de fome já não vai mais morrer/A vida estava tão difícil/que eu mandei a minha nega bacana/Meter os peitos na cozinha da madame/Em Copacabana/Agora vou buscar a nega/porque gosto dela pra cachorro/E os gatos é que vão dar gargalhadas de alegria/Lá no morro.
Então é só. Ou melhor, é muito. São compositores nossos. Coisa boa do Brasil. Criatividade, talento, ginga e humor. Vale à pena conhecer mais, vale à pena ter orgulho.
Bom Carnaval a todos.
Março
Quando se fecha o verão é final de março. Como na música de Jobim “São as águas de março, fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração”. Aqui em Ribeirão Preto o fechamento do verão representa para muitos que sofrem com o calor excessivo, uma trégua: menos chuvas, menos temperatura. O ameno entrando em nosso dia-a-dia. Mas enquanto o outono não vem o que nos reserva o mês de março?
Bem, se levarmos em conta a origem, devemos tomar cuidado. Afinal Março vem de marcial que está ligado ao Deus Marte - Ares, na Grécia - e quer dizer guerreiro, combativo, corajoso. Mas sua fama não está ligada ao positivo. Ares ou Marte não lutava por causas justas e sim pelo instinto exacerbado, furiosa e indiscriminadamente. Seus acompanhantes no campo de batalha atestam seu caráter: a Discórdia, o Terror e o Medo.
A julgar pelo que temos verificado ao assistir a telejornais, ao ouvir contar estórias do dia-a-dia, ao observar as cadeias, ao conversar com pessoas, Marte/Ares anda à solta. Sua crueldade, sua impetuosidade, sua loucura têm servido de modelo aos filhos da modernidade que somos nós. Ele tem pairado sobre nossas cabeças com sua espada sanguinolenta e impiedosa. Importante, porém, saber que esse Deus não era respeitado pelos outros Deuses do Panteão olímpico. Nem mesmo seu pai, Zeus o amava. Aliás, ele dizia que esse seu filho era o mais odioso dos imortais. Marte/Ares deixou uma péssima impressão para a posteridade. Foi traído, foi execrado, nem mesmo é colocado na mesma categoria de seus companheiros divinos.
Marte/Ares não oferece promessa de vida, nem curadora água fresca. Oferece morte e destruição. Neste mês de março, vamos oferecer algo a esse Deus que não seja um sacrifício de sangue. Vamos oferecer-lhe a paz e a tranquilidade, buscada em nosso coração pela necessidade de tornar sagrada a nossa vida. Nesse começo de atividades, nesse início de novos governos, vamos oferecer pensamentos de reconstrução do ser humano e pela Terra. Vamos deixar que Marte/Ares, descanse, finalmente.
Abril
Hoje quero falar das estações. Daquelas partes em que é dividido o ano, com duração de quatro meses, cíclicas, cada qual com sua especificidade. Os mitos falam das estações. Na Mitologia grega conta-se que Zeus, o Deus supremo do Olimpo, teve com Têmis, a Deusa da Justiça, três filhas a quem foi dado o nome de Horas. Uma se chama Talo e é a que faz brotar, outra se chama Auxo e é a que faz crescer, a última se chama Carpo e é a que faz frutificar. Cada uma tem uma função, cada uma a seu tempo contribui para mudanças necessárias ao equilíbrio da vida em sociedade.
Na mitologia tupi-guarani temos o Deus Ñmandu, que é o Deus Grande Escuta. Ele vem em cada estação, com diferentes rostos, com diferentes roupagens, com diferentes melodias. Na Primavera é representado pela beleza das flores, no verão pelo sol majestoso, no outono pelas cores amarelo-avermelhadas das árvores, no inverno pelos dias curtos e frios de esplendorosos por-de-sóis vermelhos.
Em quatro tempos as estações chamam nossa atenção para a mutabilidade de nossas existências. Momentos de plenitude, de reflexão, de decadência, de finitude. E são belas em todas as suas faces, mesmo quando sujeitas aos destemperos pelos quais passa o Planeta.
Quanto a mim, fascino-me por todas, mas tenho uma quedinha pelo Outono. Cheira à maturidade. Não à beleza explícita da primavera, não à emoção acalorada do verão, não à algidez do inverno. Outono é para estar comigo mesma. É para perceber que há coisas que devem ser trocadas, substituídas. As folhas que caem em momento de se irem, a temperatura amena que permite e convida à reflexão. A colheita de frutos maduros, em tempo certo e permitido pelos Deuses. No Outono, o Deus Todo Escuta dos Tupis-Guaranis, Ñmandu surge e as folhas caem sob Seu comando que se apresenta em forma de canção. Carpo, a Terceira Hora, apresenta seu produto: as sementes em seu apogeu. Nós seres humanos nos perguntamos: A infância e a mocidade foram boas estações? Na maturidade estamos colhendo doces frutos? Se as respostas forem afirmativas, o inverno de nossas vidas será aceito com galhardia e coragem. Um presente pela reverência aos ciclos, inerentes à nossa evolução e crescimento.
Maio
Quero falar de união nesse mês que é das noivas e que é das mães. Falar de união que é uma qualidade, a meu ver, do feminino. Falar de casamento. Do tradicional, que necessita de um homem e de uma mulher e que considero uma instituição a serviço do feminino. Juntos, no mesmo espaço com suas dores, com suas alegrias, duas pessoas se encontram. Para o que der e vier. É preciso contenção que é feminina. É preciso gestação, que é feminina. É preciso parto: coisas novas enfrentando a luz. Feminino! É preciso leveza, atributo do feminino!
Longe de mim dizer que ao masculino nada cabe na união entre um homem e uma mulher. Mas, ouso dizer, sim que ao feminino cabe muito. Parece que as mulheres estão se esquecendo disso quando querem ser como os homens. Que tal nesse mês de maio lançar um olhar sobre isto e repensar as relações no casamento. Como exercício, transcrevo abaixo o poema de Adélia Prado de que gosto muito. Fala de uma maneira tranquila de se viver as relações no casamento e de honrar a condição de mulher sem que isso nos desabone. Espero que gostem!
Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Junho
O poeta Thiago de Mello em seu “Os Estatutos do Homem” diz: Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Em seus decretos Thiago visualizava um futuro melhor, especialmente para o século XXI. Dizia que acreditava firmemente na utopia e nos homens.
Também acredito. É que apesar de tudo, das discórdias, dos conflitos internos, do caos que invade a nós, seres de tumultos e de desejos, aspiramos ao amor. Queremos o enamorar. Buscamos no outro, parceiro ou parceira, a integração. O século XXI chegou com sua tecnologia, seus robôs, seus clones, seus computadores cada vez mais inovadores, suas correrias, suas doenças, seu clima pervertido e comemoramos, ainda, o Dia dos Namorados.
Tudo bem que é comércio, tudo bem que se torna um hábito que muitos não questionam. A meu ver ainda assim revela disposição para o amor. De amar o outro, de estar junto, de almejar um futuro, de se encantar. De oferecer flores, romanticamente. De praticar delicadezas. O amor é inerente ao homem. Basta buscá-lo; ele se encontra em nós. Pode ser que o tenhamos deixado por muito tempo esperando por um resgate, mas está lá, disponível e redentor.
Aqui fora se manifesta nas pequenas coisas, manda recados, oferece um por de sol magnífico, o sorriso de uma criança, o bom, o belo e o melhor. Muitas vezes ignoramos, mas, ele é teimoso. E é assim que em Dia de Namorados, muitos compraram presentes por comprar, muitos estão com seus corações fechados.
Outros oferecerão mais que presentes. É que o amor mandou recado, rompeu a barreira da indiferença. Cantou canção sobre o perene. Sobre os olhos nos olhos - receita para reconhecimento da essência. Sobre o carinho e o encanto, sobre o deslumbramento das peles em contato, sobre o compartilhar. O amor emprenhou cada um de nós e ressuscitou a esperança e nos chamou para o exercício magnífico que é o de viver.
Feliz Dia dos Namorados para todos.
Julho
Pode ser que a Feira do Livro, de livros tenha poucos. Pode ser que outro nome lhe coubesse. Almanaque cultural, talvez. Variedades culturais, talvez. Feira de Livro como já dissemos no ano passado, continua a não ser. Falta-lhe Editoras de maior porte. Falta-lhe espaço apropriado para que seja possível folhear o livro, senti-lo entrar em nós, deixar que ele nos tome, deixar que sussurre nosso nome, quando estaremos fisgados e impossibilitados de não comprá-lo. Falta falar de livros. Falta aquela coisa de Feira do Livro que é ter muita variedade, muita qualidade. Ainda assim é um evento interessante. Permite que se tenha acesso a muita gente boa em várias áreas: música, filosofia, jornalismo, cinema, literatura... Porém, gostaríamos de sugerir que ao definir os patronos da próxima Feira, fosse começado um trabalhado de levar conhecimento a respeito deles. De várias formas. Nas escolas, nas Praças, nos Jornais, na mídia de modo geral. Uma preparação para o que vai vir. Uma propaganda bem feita do doce, para que todos queiram saboreá-lo quando finalmente tiverem acesso a ele. Para que as pessoas fiquem salivando à espera de entrar em contato com os homenageados. As obras poderiam ser lidas nas praças, encenadas, para encanto dos olhos e dos ouvidos! Deveria se falar mais dos compositores, dos conjuntos, dos cantores e cantoras. Quanto não ouvi de gente dizer; não vou ao show do Toquinho. Não conheço nada dele. Imaginem! Toquinho! Anos e anos a serviço da Música Popular Brasileira. Um desconhecido para muita gente. E o que não dizer de poetas como Thiago Mello, filósofos, jornalistas, escritores. Acabam recebendo homenagem de pessoas que os conhecem quando, a meu ver, o mais importante é fazer com que outras pessoas tomem conhecimento deles. Para que se amplie o horizonte intelectual dessas pessoas. Não é tão fácil, mas é possível fazer. Talvez fosse importante falar de livros, também, no decorrer do ano. Livros dos homenageados e livros de boa literatura. Preparar os corações e as mentes para uma Feira que quer homenagear o livro.
Agosto
Comecei a ler muito cedo. Em casa quase todos gostavam de ler. Minha mãe lia, meu avô lia, minha avó lia. Liam de tudo e especialmente romances. É muito bom recordar que meu avô colocava os livros debaixo da cama o que provocava a ira de minha avó por conta de achar que ia ficar tudo empoeirado. Meu avô, que era muito engraçado, e que para tudo tinha resposta dizia que seria uma poeira culta. E eu ficava sentada com ele, naquela cama grandona, ele também era grandão, e lendo, ou melhor, ouvindo-o ler em voz alta, para mim, pequena ouvinte de olhos surpresos e mente fantasiosa. É claro que ele lia apenas coisas apropriadas para minha idade embora não fossem livros para criança. Só sei que dali desandei. Lia à noite, à luz de abajur, ouvidos moucos às broncas de minha mãe e de minha avó para que eu não varasse as madrugadas, ansiosa por saber o que aconteceria no final daquelas maravilhosas páginas por onde eu viajava. Nem tudo que eu lia era permitido. Dos não permitidos, Jorge Amado era especial. Delícia seu jeito de introduzir os capítulos para que nossa curiosidade fosse aguçada. Lembro-me de um capítulo de “Gabriela, Cravo e Canela” um de seus romances mais conhecidos e que depois virou novela, que começa assim: Da Tentação na Janela. Eu procurei no dicionário a palavra tentação e estava escrito que era algo concernente a desejo, coisa que a gente queria fazer e não podia. E fiquei tentada a ler bem depressa. Descobri então que a tal da tentação se chamava Glória, tinha seios empinados, e era um perigo para os homens. Ao olhá-la ficavam é bem tentados. Logo, logo, descobri o porquê. Levei um tempo para ler “Gabriela” e descobri muita coisa interessante sobre o que tenta os seres humanos. Jorge Amado com sua linguagem muitas vezes chula, com seu livro pulsante de cenas de sexo poderia ter-me desencaminhado, poderia ter maculado minha alma de menina. Tal não aconteceu. Não sei, para mim as personagens de Jorge Amado comungam com os deuses do candomblé de todas as emoções, aceitam desejos, malquerenças e benesses. São tão humanas que é impossível sentir-se mal diante delas. São verdadeiras. São personagens vítimas do amor vestido de paixão. Gabriela é um romance de amor. Do amor entre o árabe Nacib e a mulata Gabriela. Do amor proibido de Sinhazinha e Osmundo, mortos por um marido, coronel Jesuíno Mendonça, ensandecido pela dor de corno. Do amor de Glória pelos homens e dos homens por ela.
Jorge Amado é um grande escritor, sem preconceitos. Não é por acaso que dizia “Nós não somos isso ou aquilo. Nós somos tudo: branco, negro e índio”.
Jorge Amado continuou na minha vida. Li, quase todas as suas obras, com outros olhos, em outros momentos. Descobri-lhe outras qualidades: o engajamento político e social, a riqueza de personagens, o humor. Talvez não seja recomendável a meninas na idade em que comecei a lê-lo. Talvez não tenha ele sobre elas o impacto que teve sobre mim. No mais, recomendo-o a todos.
Setembro
Primavera lembra cores. Muitas. Lá em cima um Criador a tingir com seu pincel, muito dinâmico, a vastidão da Terra, uma de suas filhas, muito pequenininha e escondida no Universo. Pontinho azul. Então é um tal de verdes campos, de coloridas florzinhas, mares auriverdes, lua prateada em céu azul escuro.
É. Parece que o Ser Maior gosta de uma corzinha. A propósito disso há uma estória muito bonita dos povos indígenas. Diz que antigamente os animais e os pássaros não eram bonitos e não eram coloridos. Eles estavam tristes com isso. Então, o Grande Espiríto se apiedou deles e plantou no meio da floresta uma árvore muito grande. Nela dependurou muitos objetos diferentes e coloridos. Cada animal ou pássaro podia escolher o objeto e a cor que mais lhe agradasse. Os macacos escolheram raminhos curvos e marrons que se tornaram suas caudas; os passarinhos escolheram arco-íris e se tornaram multicoloridos, as onças escolheram mantos brancos e pretos. Algumas escolheram mantos pintados. O gavião escolheu um mantinho branco, o urubu escolheu um todinho negro, a arara escolheu um manto azul. Cada bicho e cada pássaro escolheu o que melhor lhe cabia. E ficaram todos contentes. Contentes e diferentes. Não menos irmãos, porém, pois cada um respeitava o outro em sua diferença e em sua essência, que era a mesma. Todos iguais na essência, cada um diferente em suas peculiaridades.
Acabou a estória, quem quiser que conte outra. Que cada um aprenda a lição. Cada ser humano é para ser nosso irmão, cada um deve ser respeitado em sua individualidade. Simples, assim.