Editoriais 2008

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Janeiro

O Jornal traz dois textos que dizem respeito a nossa tão complexa língua portuguesa. Um deles é de Machado de Assis, escrito em português da época. Há palavras grafadas de modo muito estranho, porém o texto é excelente como não poderia deixar de ser em se tratando de um escritor de seu porte; o outro texto fala de abolirmos de nossa língua as palavras estrangeiras, o que parece ao seu autor algo impossível, já que ele argumenta que são inúmeros os vocábulos de influência estrangeira e isso a nada levaria. Pois bem, citei tais coisas para dizer que importante mesmo deveria ser “escrever e falar bem” e respeitar a língua no sentido de não vilipendiá-la com erros crassos de português. Eu gostaria de propor um decreto que proibisse o assassinato da língua. Principalmente o perpetrado por aqueles que têm condição e acesso à escola, a professores, livros, dicionários. A palavra menas, por exemplo, deveria causar arrepios a cada vez que fosse emitida, porém já a escutei várias vezes, brotando horrorosa de um discurso proferido por alguém que aparece na mídia. Usos abusivos do gerúndio? Nem se fale. Aliás, isso me lembra um e.mail que circulou na Internet sobre erros de português, em que se conta que um jogador de futebol, esqueci quem, disse: Fui, fui e acabei não fondo. Essa estória pode até ser um exagero, pode não ser verídica, mas se for é lastimável pensar em uma figura pública com tal grau de ignorância.

Muitos poderão argumentar que alguns jogadores, na verdade muitos deles, carecem de cultura e vêm de famílias pobres e blá, blá, blá.  Porém há que se levar em conta que é aí que reside o perigo. Não devemos e não podemos nivelar as coisas por baixo. Se alguém consegue ocupar um lugar privilegiado a despeito de sua falta de cultura e de conhecimento, isso não significa que deva permanecer inculto.

Jogadores assassinos da flor inculta e bela devem e podem estudar. Presidentes, decapitadores de esses, também. E outros e tantos outros que estão na mídia. Para que o falar mal não se torne um hábito, para que esse mau hábito não se instale insidiosamente e para que não se diga: se ele pode e se deu bem, também eu posso.

Feliz Ano Novo a todos.

Fevereiro

Em tempo de Carnaval ocorreu-me o tanto de composições interessantes que fazem parte de nosso Cancioneiro carnavalesco. Há para todos os gostos. Escolhi de Chico Buarque de Holanda Quando o Carnaval Chegar, que é uma espécie de rito de entrada para os dias de Folia: Quem me vê sempre parado / distante / garante que eu não sei sambar. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar / Eu tô vendo / sabendo / escutando / não posso falar. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar / Eu vejo as pernas de louça da moça e não posso pegar. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar...

E tem, também do grande Chico, Noite dos Mascarados, que revela o espírito do carnaval. Dias em que não somos nós, usamos outras faces, soltamos nosso desejo, numa espécie de Dia do Vale Tudo. Aqui vai um pedaço dessa incrível letra: Quem é você / Adivinhe se gosta de mim / hoje os dois mascarados procuram os seus namorados / perguntando assim: Quem é você, diga logo / que eu quero saber o seu jogo / que eu quero morrer no seu bloco / que eu quero me arder no seu fogo... Mas é carnaval /não me diga mais quem é você/amanhã tudo volta ao normal / deixa a festa acabar / deixa o barco correr / deixa o dia raiar / que hoje eu sou da maneira que você me quer / o que você pedir eu lhe dou / seja você quem for / seja o que Deus quiser.

E aí chega o fim da folia. E é uma tristeza geral, um sem gosto de vida. A foliã, desvairada, como na música Ela desatinou também de Chico Buarque: Ela desatinou / viu chegar quarta-feira / acabar brincadeira/ bandeiras se desmanchando / e ela ainda está sambando / Ela desatinou / viu morrer alegrias / rasgar fantasias/ os dias sem sol raiando / e ela ainda está sambando.

E há a poesia de Vinicius, linda, na Marcha de Quarta-feira de Cinzas com sua mensagem otimista e salvadora: Acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções / ninguém passa mais brincando feliz / e nos corações / saudades e cinzas foi o que restou / e no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar e alegrar a cidade...

E pra terminar a delícia de composição de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, Pierrô Apaixonado em que o humor do Poeta da Vila se revela dos mais finos e irônicos: Um Pierrô apaixonado / que vivia só cantando / por causa de uma colombina / acabou chorando / acabou chorando / a colombina entrou num botequim / bebeu, bebeu / saiu assim, assim / dizendo: pierrô cacete / vai tomar sorvete com o arlequim / um grande amor sempre acaba assim.

Março

Mas é um tal de comemorar! As datas vão e vêm. Elas vêm e vão durante o ano todo. Mal terminamos uma e começamos outra. Após as conturbadas festas de Natal e Fim de Ano, vem o carnaval e depois a quaresma e depois a Páscoa, e depois o dia das mães e o dos pais, sem contar as datas cívicas. Há ainda as comemorações pessoais, como as de batismo, as de crisma, as de casamento e as de morte que encerram ou parecem encerrar o ciclo de nossa estadia por aqui.

Assim mesmo, vamos nós, e ficam os outros que comemoram também a data de nossas mortes.

O que me ocorre é se por força de repetir tais celebrações não nos tenhamos esquecido de sua importância. Será possível que elas sirvam apenas para que eu compre presentes? Para que de repente eu me torne a mais amorosa das criaturas, pois é Natal e todos os seres devem amar-se, para que eu me torne a mais maravilhosa das filhas porque é dia das mães e eu devo acionar o botão “filha extremosa”?

O que quero colocar aqui é que muitas vezes celebramos sem entendimento algum do que estamos fazendo ou então tomamos emprestado dos outros idéias a respeito do que estamos fazendo. Estabelecer uma ponte entre velhos conceitos e o momento em que estamos vivendo é difícil. Porém, permanecem os símbolos. Eles são universais e se prestam às diferentes mudanças sociais. A cerimônia do casamento implica na união feminino e masculino em direção à integração dos opostos. As homenagens às mães implicam em honrar o princípio feminino, gerador de vida. O batismo é um rito de passagem com a intenção de purificar e trazer para a vida. A morte, da qual, não podemos escapar, é transformação.

Assim, a páscoa representa ressurreição seja em que momento vivamos, seja quais forem as modificações pelas quais a humanidade tenha passado. Os ovos tão delicadamente decorados e tão deliciosos ao paladar continuam a representar o renascimento periódico, algo que não se esgota. A Páscoa nos faz pensar na Jornada desse herói inigualável que foi Jesus Cristo. Aquele que cumpriu a sua tarefa, acreditou nela e, não se deixou intimidar. Aquele que ressuscitou ao terceiro dia, após ter sido morto e crucificado sob o poder dos homens.

Abril

Cecília Meireles contou que ao chegar pela primeira vez em Ouro Preto com o propósito de descrever as comemorações da Semana Santa, viu-se tomada pelas personagens da Inconfidência. Viu-se arrebatada para uma época que não era a sua, mas que lhe falava ao coração, e saiu acompanhada pelo traidor Joaquim Silvério, pelo mártir Tiradentes, pelo poeta Cláudio Manoel e por tantos outros que fizeram parte da grandiosa estória de Ouro Preto, no ano de 1789.

Cecília sentiu-se impelida a escrever, então, o Romanceiro da Inconfidência, obra notável. Não apenas pelo domínio da métrica, não pela linguagem apurada, por si só características da poeta, mas pela carga emocional que carrega. Quando lemos, diante de nós desfilam as emoções humanas com tudo que têm de belo e de terrível. A inveja, o despeito, a loucura, o idealismo, a ingenuidade.

E é o vinte e hum de abril, que surge sinistro:

“Ó meio-dia confuso, ó vinte-e-um de abril sinistro, que intrigas de ouro e sonho houve em tua formação.”

E é a revelação de que o ouro corrompe e destrói:

“Que a sede do ouro é sem cura, e, por ela subjugados, os homens matam-se e morrem, ficam mortos, mas não fartos.”

E há o momento de falar de Tiradentes e do traidor Joaquim Silvério:

“Cavalga nas nuvens. Por outros padece. Agarra-se ao vento... nos ares se perde... E um negro demônio seus passos conhece: fareja-lhe o sonho e em sombra persegue, o audaz, o valente, o animoso Alferes”

E chega o momento de e apontar a ambição, a injustiça e a covardia:

“Ambição gera injustiça. Injustiça, covardia. Dos heróis martirizados, nunca se esquece a agonia, por horror ao sofrimento, ao valor se renuncia.”

E para temer o futuro já que aquele tempo é feito de tanta iniqüidade:

“Que tempos medonhos chegam, depois de tão dura prova? Quem vai saber do futuro, o que se aprova ou reprova? De que alma é que vai ser feita essa humanidade nova.”

E para participar junto com os Inconfidentes, cujas existências incitam a mudanças, incitam a lutar por tempos melhores contra a injustiça e em busca da liberdade:

“Atrás de portas fechadas, à luz de velas acesas, entre sigilo e espionagem, acontece a Inconfidência. E diz o Vigário ao Poeta: “Escreva-me aquela letra, do versinho de Virgílio... E dá-lhe o papel e a pena. E diz o Poeta ao Vigário, com dramática prudência: “Tenha meus dedos cortados, antes que tal verso escrevam...” LIBERDADE AINDA QUE TARDE, ouve-se em redor da mesa. E a bandeira já está viva, e sobe, na noite imensa. E seus tristes inventores já são réus - pois se atreveram a falar em Liberdade (que ninguém sabe o que seja).

Maio

O Jornal Peregrino das Letras apaga velinhas. São nove ao todo. Um ciclo está terminando. Se pensarmos na simbologia do Tarô, estamos no momento do Eremita. Trata-se de um belo símbolo, pois o Eremita é um velho sábio, que já caminhou muito, acompanhado de sua lanterna, que é sua luz própria. Ele clareia a sua própria escuridão, mas não se nega a passar seu conhecimento para seus semelhantes. Ele avalia, seleciona e rejeita o que é necessário e o que não é.  Esperamos aproveitar pelo menos um pouco de seu saber, nos anos que ainda virão. Agradecemos com carinho o apoio de nossos parceiros.

Costumamos escrever nos editoriais algo que tenha a ver com datas comemorativas. Maio é mês em que escrevemos sobre mães, sobre o feminino, sobre as mulheres. Acontece que algo me toma e torna difícil falar sobre esse tema. Esse algo se chama: o caso Isabela.

Pergunto-me: o que foi feito do feminino que cuida de suas crias. E que preocupado com suas necessidades primordiais vai guiá-las até que se tornem capazes de caminhar pelas próprias pernas? Onde está o feminino que é acolhimento e amparo?

O feminino está doente. Está desequilibrado e manco. Essa força grandiosa precisa de cuidados. A Grande Mãe tem liberado a destruição e o caos. Essa Deusa que é ao mesmo tempo construção e destruição está arreganhando a grande goela e engolindo inocentes. Não basta que queiramos punir aqueles tomados por seu ímpeto avassalador. Não basta que os apontemos, acusadores que somos.

Somos todos responsáveis pelo mal liberado e sem controle, pois a Grande Mãe habita em nós e deve ser apaziguada, não com o sangue imolado de vítimas inocentes, mas com diálogo interior e consciência.

Junho

Dias dos Namorados? Não parece meio fora de tom? Afinal, estamos em época do só ficar e de testar mil bocas e mil outras coisas que não levam ao sentir real, mas à exaustão e ao desinteresse?

Sim. Parece que sim. Pois namorar remonta a cortejar, cativar, atrair. É encantar-se com alguma coisa. Dá tempo de se encantar na rapidez das baladas, na fugacidade das raves, em meio a sons, ritmos, drogas, que não ajudam no sentir, pois ao contrário do que se busca obtemos, lá, subterfúgios para não viver a vida? Dançamos, dançamos e dançamos, mas não sentimos de verdade nosso corpo. Nós o massacramos de movimentos e pensamos que estamos dançando. E se cheiramos aquele pó que nos promete “quick” felicidade e se nos afogamos no álcool para amortecer nossas dores, nós podemos nos sentir felizes por algumas horas, mas as manhãs se revelam madrastas abomináveis e mais uma vez nós não vivemos a vida e não deixamos que ela seja nossa namorada.

Nós não nos permitimos ser encantados enfeitiçados e seduzidos, não nos permitimos namorar.

Será que por isso andamos tão tristes? Nossos olhos tão apagados? Será esse o motivo da premente necessidade de sentir algo mais forte seja através do trabalho, dos jogos de videogame, das baladas, das raves, do álcool, das drogas, do sexo?

É claro que há muitos motivos e não cabe aqui discorrer sobre isso, mas certamente o encantamento ajuda e muito a viver. E para encantar-se é preciso sentir de verdade. Olhar as silhuetas, os contornos, as diferenças, as semelhanças, ouvir as diferentes vozes, as diferentes melodias, cheirar as diferentes fragrâncias, tocar com dedos sutis, peles e texturas, degustar com delicadeza diferentes comidas e sabores e permitir-se enamorar de coisas e de pessoas.

Para terminar e a propósito de encantamento queremos citar João Guimarães Rosa, que nasceu no mês de junho, um mestre na arte do deslumbramento, grau mais elevado do enamorar-se.

Julho

No mês de junho, aniversário de 152 anos de Ribeirão Preto, muitas comemorações foram realizadas na cidade. Tivemos o I Encontro Bienal de Psicanálise e Cultura promovido pela SBPRP – Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, com palestras interessantíssimas cujo objetivo foi o de estabelecer um diálogo entre a psicanálise e os diferentes segmentos da cultura. Alma, estás aí?(*) - Onipotência e Desamparo do Homem em Travessia - foi o título do encontro e a partir daí desenvolveram-se vários assuntos, todos voltados para a reflexão sobre o homem atual, para este homem que se apresenta depois do modernismo como um ser em transição, um pós-moderno ainda sem nome, um vir a ser que vê a sua volta modificações velozes e que se sente poderoso, mas que continua desamparadamente a se perguntar sobre sua essência e seu destino.

Dentre os ilustres convidados que abrilhantaram o encontro da SBPRP, citamos a poetisa Adélia Prado que abriu o evento falando sobre “O homem em travessia” (leia mais no texto de mesmo nome nesta edição).

Tivemos também a 8ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. E aqui antes dos elogios queremos opinar. É que para nós não se trata de uma Feira do Livro.  Trata-se de uma Feira Cultural. Trata-se de uma Festa da Cultura, que, aliás, é o título da capa da Revide (Ano 21 – Edição 406 – nº24 – de 13 de junho).  O livro foi relegado ao papel de coadjuvante. Na revista com a programação da feira não constam sequer as editoras que deveriam participar do evento. Pode ser festa, pode ser feira, mas não é Feira do Livro.

É uma festa de apresentações musicais, excelentes cantores, para todas as idades e todos os gostos, muita gente boa falando sobre variados temas, filmes interessantíssimos. É uma feira que apresenta produtos culturais, inclusive livros.

Dentre o que foi apresentado no que chamamos de Feira Cultural queremos destacar o “Tiê-Piranga” música e poesia, extraída da obra “O Martim Cererê”, de Cassiano Ricardo, apresentado no auditório Meira Júnior, com a participação de membros da Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto – ALARP: Jair Yanni, Djalma Cano, Meire Genaro e Gilda Montans, além de Gesmar Nunes e, Deva Mille, com produção de Adriano Oliveira.

Bonita demais a apresentação além de homenagear magistralmente o Estado de São Paulo. Emocionante a figura delicada e ao mesmo tempo forte de Jair Ianni, introduzindo o espetáculo, com sua adaptação genial de trechos do Martim Cererê. Belíssimas as interpretações dos poetas Djalma Cano e Gesmar Nunes; maravilhosas as figuras de Gilda Montans e Meire Genaro esta toda meiguice, aquela paixão e enlevo. Ambas acordeonistas sensíveis e competentes apresentaram expoentes da música clássica paulista tais como Carlos Gomes, Villa Lobos e Francisco Mignone. Deliciosa a apresentação de Deva Mille na percussão.

Então, parabéns a todos que contribuíram para a realização dos eventos comemorativos nesta nossa cidade. Ribeirão Preto certamente saiu ganhando em cultura e conhecimento. Que venham outras festas culturais.

(*) Julia Kristeva

Agosto

No princípio não havia Dia dos Pais. Pais eram pais. Aqueles que em sociedade com as mães geravam filhos. Não era necessário eleger um dia para homenageá-los e muito menos para presenteá-los. As homenagens e os presentes poderiam ter seu lugar de uma forma natural sem que fossem envolvidas as mídias, as questões comerciais, as cobiças. Alguns dizem que o Dia dos Pais teve origem há mais de 4 mil anos, quando um  cara Elmesu Moldou esculpiu em argila o primeiro cartão no qual ele desejava saúde e longa vida a seu pai. Nos Estados Unidos a responsável pela introdução de um dia dedicado aos pais foi uma tal de Sonora Louise, que sentia tanta admiração pelo pai, viúvo, que dera conta dos filhos como se fora a mãe, que enviou uma petição à cidade de Washington propondo que houvesse uma data para homenageá-lo. Cremos que esses dois exemplos não se enquadram na forma tradicional de comemorar o dia daqueles homens que nos deram a vida. São manifestações do coração. Formas de agradecer pelo zelo, pelo amor ofertado. Hoje, a coisa não caminha tão naturalmente, assim. Quantos será presenteiam levando em conta o que receberam? Quantos fogem do mecanismo da data e conseguem agradecer por pequenas coisas ou pelo fato, esse não tão pequeno, de deverem a seus pais, o milagre de estarem vivendo, pessoas, partes desse mundo?

Que tal parar nesse dia 10 de Agosto para fazer uma retrospectiva do que devemos àqueles a quem chamamos de pais? Que tal entoar um canto de agradecimento a eles? Um canto mental se formos tímidos demais ou um canto em que as palavras saiam com doçura, direcionadas para o coração daqueles que foram responsáveis por nossa gestação? Que tal um abraço apertado, ouvidos ligados à batida do órgão, situado do lado esquerdo do peito, conectar os batimentos e ser só emoção? Que tal um presente intuído e não imposto pela propaganda massificadora e interesseira?

Setembro

A morte veio buscar uma amiga que amava as palavras. Vinha sorrateira, há muito tempo, e batia nas portas e espreitava as janelas. Mas parecia que não ia conseguir. Ainda não parecia ser o tempo. Ainda não parecia ser a hora, embora ela estivesse doente, embora o corpo estivesse sofrido. Talvez porque não quiséssemos acreditar que alguém tão alegre e tão guerreira pudesse ir embora. Retirar-se e ponto.

O fato é que se abriu uma janela para lugar nenhum em que nós aqui plantados pudéssemos estar. E ela se foi. Todo mundo ficou! Gerada dentro de nós a sensação de efêmero, de impotência, um pouco de ressentimento pela vida que dá e toma. Um pouco de remorso por não ter tido tempo de curtir a amiga. Essas coisas em que a morte faz pensar.

Então veio à minha mente um exercício, a princípio estranho. Em meio à realidade da morte, caçar palavras que recomendem viver. Pois Fátima, assim é o nome de minha amiga, gostará disso, seja lá por onde ande. E mesmo que não ande por lugar algum, dentro de mim o muito que ficou dela, gostará disso.

Busquemos então palavras dinâmicas, belas, insufladoras de eternidade. Na imaginação recortar e colar em livro, caderno ou álbum para tanto preparado. No papel as palavras portadoras de mais e mais significados. Importante mesmo perceber a grandiosidade de nossas vidas. Que privilégio é estar aqui. Que privilégio ter estado aqui. Tantas coisas o verbo é e foi capaz de significar enquanto somos moradores desse planeta, locatários desses corpos!

E que isso seja feito sem pressa e com gozo, como chupar palito de chocolate, lentamente, e lambuzar beiços e dedos e manchar a roupa eventualmente.

Vejamos: a primeira palavra pode ser contato. E a palavra contato pode remeter a muitas outras palavras.  Contato com o chão: pés. Contato com corpos: mãos. Contato com a alma: olhos. Contato com a vida: dança. Contato com o coração: lembranças.  Sempre respeitando o critério do devagar imaginar pés esborrachados, ouvidos da terra, pés, bússolas de caminhos, pés, embaixadores da realidade. Mãos, mães do carinho. Mãos, ouvidos da pele. Mãos, toques para despertar. Olhos, abismos de encanto. Olhos, essências buscadas. Olhos, esplendor e encanto. Dança, despertar. Dança, desenvolvimento. Dança, maturidade. Dança, sabedoria e Dança, outra realidade. Lembranças: voz de menina. Lembranças: corpo bonito. Lembranças: alegria. Lembranças: presença infiltrada em nós. Lembranças: um barco que encontrou sentido.

Outubro

Um dia, Stanislau Ponte Preta, apelido do jornalista, colunista e cronista, Sérgio Porto, falecido em 1968, encontrou em um botequim em Ipanema um negro magro, mal vestido e despenteado. Bastou um olhar para que ele reconhecesse naquela figura tão mal ajambrada um dos maiores compositores brasileiros: Cartola.

Cartola, apelido advindo de quando exercera a função de pedreiro, pois usava um chapéu coco para protegê-lo do reboque que caia sobre sua cabeça, andara sumido por muito tempo e algumas pessoas até o julgavam morto.

Foi uma surpresa agradável e um resgate para nós brasileiros que ele tivesse sido reconhecido naquela madrugada de 1956. Imaginem só: o cara já tinha composições gravadas por gente famosa como a Araci de Almeida, o Francisco Alves, já havia, na tenra idade de 19 anos, dado a idéia da criação da Estação Primeira de Mangueira, conhecera Noel Rosa e Villa Lobos e fora admirado por eles. E estava lá abandonado em um botequim de Ipanema, protegendo-se do frio!

Seu verdadeiro nome era Angenor de Oliveira. Esta é uma estória curiosa. Ele só se deu conta de que se chamava Angenor e não Agenor ao oficializar o casamento com Dona Zica. Angenor foi um expoente da música popular brasileira. Nascido no Catete, em 11 de outubro de 1908, mudou-se para o morro da Mangueira, onde permaneceria por mais de quarenta anos. Foi peixeiro, sorveteiro, lavador de carros, vendedor de queijos. Foi boêmio, beberrão e mulherengo. Humanidade e genialidade habitando o mesmo corpo. O pouco estudo não o impossibilitou de escrever magníficas letras que vão ficar para sempre no repertório da música popular brasileira. Acima de tudo foi compositor e poeta. Fazia tudo com zelo. Para melhorar suas letras lia poesia. Gostava muito de Castro Alves. Era louco por Guerra Junqueiro. Basta conferir as letras de suas músicas para ver que nosso Cartola nada deixava a dever para os fazedores de boa poesia. Vamos citar duas letras lindíssimas, só para ilustrar.

Em “Rosas não Falam”: Bate outra vez / com esperanças o meu coração / pois já vai terminando o verão / enfim / volto ao jardim / com a certeza que devo chorar / pois bem sei que não queres voltar para mim / queixo-me às rosas / mas que bobagem / as rosas não falam / simplesmente as rosas exalam /o perfume que roubam de ti, ai.

Em “Camarim”: No camarim as rosas vão murchando / E o contra-regra dá o último sinal /As luzes da platéia vão se amortecendo / E a orquestra ataca o acorde inicial / No camarim nem sempre há euforia / Artista de mim mesmo nem posso fracassar / Releio os bilhetes pregados no espelho / Me pedem que jamais eu deixe de cantar / Caminho lentamente e entro em contraluz / E a garganta acende um verso sedutor / O corpo se agita e chove pelos olhos / E um aplauso escorre em cada refletor / Pisando esta ribalta, cantando pra vocês / De nada sinto falta, sou eu mais uma vez / As rosas vão murchar, mas outras nascerão / Cigarras sempre cantam, seja ou não verão.

Em 1980, Cartola terminou seu passeio pela Terra. Deixou a Mangueira e o Brasil em prantos. Disse Nélson Sargento, mangueirense e compositor: “Cartola não existiu. Foi um sonho que a gente teve...”

Linda frase, muito poética. Como seu Angenor gostava. Mas Cartola existiu, sim. E como existiu! Mostrou que a gente pode fazer diferença, mesmo quando se é humilde, mesmo quando se é pobre, mesmo quando temos que enfrentar preconceitos. Mostrou que era humano, cheio de defeitos, como todos nós, mas que era também genial. Cartola deixou sua marca para sempre e serviu e servirá de exemplo para outros, que assim como ele, aproveitaram seus dons.

Novembro

Quando pequena, eu devia ter uns sete anos, talvez um pouco menos, vi uma menina ser atropelada por um ônibus. Lembro-me até hoje passados tantos anos, daquela criança esvoaçante, de casaquinho branco, atravessando a avenida. Eu vinha de mãos dadas com minha avó. O ônibus a atropelou, não me lembro em que circunstâncias, se o farol fechou, se ela correu. Lembro-me apenas daquela menina caída e machucada. Lembro-me de seus olhos abertos e estranhos. Lembro-me das pessoas em volta e da curiosidade de todos. Lembro-me que percebi que algo havia fugido dela. Ela havia se tornado boneca e eu não havia percebido que ela estava morta.

Muitas outras vezes entrei em contato com morte. Essa Senhora é fascinante. Provoca muita curiosidade. É só ver como as pessoas ficam interessadas para saber quem morreu, para saber, muitas vezes, com detalhes sobre o evoluir das doenças, sobre o desenlace. É só reparar quando há uma tragédia na televisão que envolve morte como todos ficam eriçados. A mídia sabe disso e se aproveita muito bem dessa circunstância. Então é uma repetição incrível do assunto. Chegamos a sentir enjôos, tantos são os detalhes. Interessante é que ficamos ali, ouvindo, ou deixando que alguém nos conte. Parece que assistindo à morte dos outros, adiamos a nossa. Ou quem sabe, pensamos como minha sábia avó que dizia “antes eles do que eu”.

Quando falamos de morte não somos congruentes. Nós a tememos e ao mesmo tempo não conseguimos desgrudar nosso olhar dela. É como se algo nos alertasse para a impossibilidade de viver para sempre. Coisa que estamos cansados de saber, mas adiamos.

O fato é que a morte é um enigma. Não a entendemos e não é possível que ela nos apresente uma charada para que a compreendamos e nos livremos dela. Decifra-me, de nada nos servirá. Devoro-te é mais provável. À Esfinge com sua face assustadora, sua cabeça de mulher, seu corpo de leão e suas asas de águia, coube perguntar sobre as fases da vida do homem. Que animal caminha com quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?  Édipo respondeu a contento: o homem. É o homem que anda com quatro pés quando engatinha, com duas quando é adulto e está ereto, com três, as duas pernas e a bengala quando está velho. A Esfinge pega de surpresa atirou-se de um abismo.

À morte não se aplica charadas. É ela que nos pega de surpresa. É, porque é. Porque sim como dizem as crianças. Virá para todos indiferente a credos, raças, aparências. Indiferente ao nosso medo. Indiferente a todos os questionamentos que fizermos sobre ela. A morte invalida nosso corpo, apaga nosso ego. Não nos promete nada em troca. Se queremos acreditar em algo, após sua passagem, ela responde que o problema é nosso. A morte em princípio é aquela boneca- menina, jogada no asfalto, sem vida e sem explicação.

E se nos cabe morrer todos os dias até que finalmente sejamos apanhados na teia do findar então não nos resta esperança?

Resta o dia a dia. Resta a vida e suas maravilhas. Resta o espanto e a alegria.

Dezembro

Que presente oferecer no Natal? Tudo pode ser. Há várias opções para vários gostos, para vários bolsos. Pode-se fazer a alegria de crianças que não recebem nada durante o ano todo e, agora, em tempo de Papai Noel, serão agraciadas com roupinhas novas, brinquedos nunca dantes suspeitados, guloseimas nunca dantes pressentidas. Pessoas se alegrarão com livros e CDs, com roupas e coisas de casa. Os mais abastados receberão o carro do momento, ou empreenderão viagens a lugares exóticos ou badalados, ou ganharão roupas e sapatos de grife. Em tempo de festa todos estarão à espera de receber algo. Com tantas possibilidades no mercado, torna-se fácil presentear e só o que se escuta é: o que devo comprar. Por conseguinte há também a expectativa do que devo receber.

E assim o Natal torna-se o que não é: um evento comercial. Deixa de ser um momento para se pensar no nascimento de uma criança que revoluciona o mundo. Alguém portador de uma qualidade que pode salvar a humanidade: o amor. Um amor por todos os seres viventes. Um amor capaz de sacrifícios. A criança cresce se torna um guia e oferece como presente a retidão de seus atos, a precisão de suas palavras, a compaixão de suas mãos curadoras. O Homem Jesus oferta dádivas e bênçãos, percorre lugares, arrebanha seguidores. Principalmente acredita em sua missão. Enfrenta tristezas e dissabores, mas não se afasta de sua meta. É exemplo de persistência e fé.

Segundo Jung todos devem trilhar um caminho próprio que é o da individuação. O caminho que nos leva a perceber nosso mito pessoal e a vivê-lo independentemente de sermos ou não aprovados pelos que nos cercam. Assim o fez Jesus. E mesmo que não o vejamos como um Deus, mesmo que sejam outros nossos credos, não podemos deixar de lançar nossos olhares para o que Ele representa. O Natal então não pode ser somente algo a mais para que nos fartemos de coisas. Seus enfeites, suas cores, suas oferendas são bem vindas. Não podemos nos esquecer, porém do que esta data representa.

Há dois mil e oito anos, nascia um menino-deus. Possibilidade de melhoria para a humanidade que se encontrava em trevas. Possibilidade de substituir a era do olho por olho pela do amor incondicional. Em um mundo exilado do perdão instalava-se a compaixão. Ao Rei investido apenas de Poder Pessoal, sobrepunha-se um Rei justo para quem a espada representava discernimento. A cada vez que se comemora o Natal devemos levar em conta tudo isso. Pois não ficaram lá os propósitos do menino, nascido de Maria. Projetam-se aqui, neste século XXI de tumultos e incertezas. Nunca foi tão necessária a jornada pessoal em direção ao amor, escopo de JESUS, O CRISTO.

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