Editoriais 2007

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Abril

Para onde quer que nos viremos ouvimos falar de um mundo que não tem mais jeito. Aquela estória que nos irritava quando nossos avós reclamavam que no tempo deles era melhor, parece que não vai se repetir com a gente. A julgar pelo andor da carruagem, nosso netos não poderão falar de melhores tempos. Será mesmo assim? Seremos nós tão impotentes para reverter situação tão caótica? É o que tenho me perguntado.

Jung conta que certa vez encontrou entre os índios taos, um velho chamado Ochwián Biano, cujo nome significa Lago da Montanha. Este homem sábio disse que os índios de sua tribo eram filhos do Sol e o ajudavam a levantar-se diariamente e a atravessar o firmamento. Explicou que os homens brancos não podiam e não deviam interferir na religião deles, sob pena do sol não mais se levantar a cada manhã. Alguém muito racional certamente colocaria Ochwián na categoria dos lunáticos. Coisa mais estranha acreditar que como simples homens podemos ser responsáveis pelo nascimento do sol! Poderíamos chamar também tal atitude de prepotência. Contamos muitas vezes a estória do galo que pensava ser responsável pelo aparecimento do astro-rei e que foi obrigado a entender que tudo acontecia independentemente de seu cocoricar!

Não se trata de uma coisa nem de outra. O representante da tribo dos taos possuía uma verdade interna que o fazia acreditar na importância de cada homem como agente de mudanças.Trata-se de perceber-se responsável pelo que foi criado no mundo. De acreditar–se co-criador daquilo que está por ser criado. E de manter coesas todas as realizações conquistadas. Melhor ainda é acreditar que para modificar devemos estar unidos aos nossos semelhantes. A prece de todos a formar poderosa forma-pensamento capaz de grandes e fantásticas transformações.

 

Agosto

Sentei-me para escrever o editorial. Branco total instalou-se em mim. Falar sobre o quê? Este Jornal, que é sempre tão otimista, como poderá lidar com tragédias como a que se abateu sobre os passageiros da TAM? Como se colocar? Buscar onde palavras de alento? Melhor será calar? Esquecer? Esperar que passe? Enfiar a cabeça na terra, avestruz? De que adianta apontar as falhas que motivaram tão terrível desenlace?

Retornarão os mortos de onde estiverem? As mães desesperadas recuperarão seus filhos? O jovem terá sua linda noiva de volta? Alguns se perguntarão se a função dos Jornais não é a de explorar as notícias. Se colocarmos as fotos dos mortos no Jornal, estaremos ajudando ou apenas nos colocando a serviço do sensacionalismo? Se falarmos dias e dias sobre o assunto, reunidas as opiniões das autoridades, cada qual querendo tirar o seu da reta - me perdoem a indelicadeza - envolveremos em bálsamo os corações partidos das famílias que passaram por horríveis perdas? Não, não nos interessa o sangue escorrendo das páginas, o desespero nos rostos das pessoas. Não queiramos, por Deus, ser meros expectadores, fotógrafos do cotidiano, desprovidos do olho da compaixão, a guardar para eternidade algo que o coração não sente mais, já que estamos nos acostumando ao sofrimento e à dor de nossos semelhantes.

Se perguntarmos à ceifadora cujo nome é Morte o porquê desse ataque maciço, obteremos resposta? E mesmo se pensarmos que morrem de acidentes de carro muito mais pessoas que por desastres aéreos, ainda assim será  avassalador o método utilizado pela Moura Torta. Mas a nós não cabe saber, não cabe entender. Sentir é o que nos falta. E chorar. Chorar em nome da solidariedade para os que estão em pleno sofrimento. Chorar pelos que perderam a vida antes de tê-la vivido. Chorar pelos que não poderão mais ter seus sonhos realizados. Chorar por aquele em cujas mãos repousava o destino de duzentas vidas. Chorar pela covardia de nossos dirigentes. Chorar pela cobiça dos homens, que os leva a adorar o Deus Dinheiro em detrimento de vidas humanas. Um rio de lágrimas é o que nos falta. Quem sabe, se cada um de nós chorar uma lágrima verdadeira, compungida, sentida, proveniente do fundo de nosso ser, possamos atingir aos que já não sentem.

Setembro

Em 17 de agosto de 1987, precisamente às 20h45 minutos de uma segunda-feira, morre, vencido pela tristeza ocasionada pelo falecimento prematuro de sua filha Maria Julieta, o grande poeta Carlos Drummond de Andrade. O mineiro de Itabira do Mato Dentro, o gauche Carlos, o circunspeto senhor magro e de aparência frágil, o incorrigível mulherengo de olhos azuis, se fora.

Esses mesmos olhos azuis fotografaram o século XX: a história do Brasil e do mundo; os homens de prestígio e as comuns criaturas do cotidiano; as falhas e os talentos humanos; o amor em seu aspecto universal e carnal; a perplexidade humana frente à vida; os dramas familiares. Nada houve que passasse despercebido ao poeta maior.

No papel ele não depositou apenas seu conhecimento sobre as coisas ou sua curiosidade inata, ou seu pronto atentar para o que ocorria à sua volta, também o burilar das palavras, a precisão vocabular, a técnica precisa e única.

E foi ambíguo o grande poeta, como somos nós seres humanos. Foi fiel aos amigos e à família e foi o mais infiel dos homens em seus poemas eróticos (A Moça mostrava a Coxa). Foi um cantador das coisas sem saída (E agora José) e das grávidas esperanças que emergem dos escombros (A Flor e a Náusea). Coloca em poesia os obstáculos (No meio do caminho tinha uma pedra) e acredita que vão ser superados (Mário de Andrade Desce aos Infernos). Assim foi ele aceitando a vida e vivendo-a e aprendendo-a e superando-a do mesmo jeitinho do seu “Amar só se aprende amando”.  Só não superou a morte da filha, que era segundo ele a pessoa que mais havia amado no mundo.

Aqui vai nossa homenagem atrasada a esse homem do qual temos tanto orgulho, afastado de nós há vinte anos. E para terminar, vamos transcrever abaixo um poema que Ribeiro Couto compôs para o poeta quando ele passou por Pouso Alto para se encontrar com Manuel Bandeira:

Carlos Drummond veio jantar em Pouso Alto

Na minha casa pequena e cor-de-rosa

Sem coqueiro do lado

Mas em frente a um barranco soturno

 

Encontrou Manuel Bandeira, sobremesa imprevista

E houve discussões fortíssimas, inenarráveis

Em torno do futurismo e da vida

 

Carlos Drummond não sorriu nenhuma vez

Deixou no copo três dedos de vinho tinto

Que Manuel Bandeira namorou

 

Mas no troli pelo caminho de volta

Ao ritmo do cavalo chapinhando no barro vermelho

Diante da tarde azul maravilhosa

Carlos Drummond sorriu pela primeira vez

Não por causa da tarde azul maravilhosa

Mas porque para vingar-se dele nunca sorrir agradecido à vida

Deus mandou o cavalo atirar uma placa de barro molhado na sua gravata

E Carlos Drummond sorriu para a malícia de Deus.

 

 

 

Dezembro

Quando comentamos sobre as coisas que estão ocorrendo na época em que vivemos, muita gente opina que não há mais jeito para nada e que somente um milagre pode reverter o estrago. Daí ocorreu-me que se tomarmos a palavra milagre como algo fora do comum, como algo que transcende as leis naturais, não vai dar, não. É de desanimar. Mas, se milagre significa qualquer participação divina na vida humana, então há milagres todos os dias. Já dá para começar a acreditar.

Por que não é um milagre esses nossos corpos que se movem tão complexos e ao mesmo tempo tão frágeis? E não é milagre que tenhamos sobrevivido a tudo o que ocasionamos à mãe terra e a nós mesmos tão desrespeitosos e tão faltos de limite? E não é milagre que embora tenhamos chutado impiedosamente esta bola colorida, ela nos dê a cada dia a oportunidade de ainda nos apontar suas maravilhas? E não é milagre que a natureza ainda nos surpreenda com suas cores magníficas ainda que se apresente por vezes feroz e descompensada, ainda assim bela? E não é milagre que muitos homens ainda guardem em si ideais dignos e propósitos decentes que incluem seu semelhante? E que muitas sementes do bem tenham sido plantadas na certeza de uma colheita profícua?

E em tudo isso não há o dedo da divindade? Pois não seríamos capazes sozinhos depois de tanta destruição de restaurar nosso mundo. Não seríamos capazes, sozinhos de perdoar nosso próximo e principalmente a nós mesmos. Não seríamos capazes, qual fênix, de renascer das cinzas.

É a esse princípio desconhecido, porém sentido e procurado, que devemos então nossa sobrevivência também milagrosa.  Isso é o bastante para que nos tornemos homens de muita fé, indo de encontro ao que Cristo, o maior realizador de milagres, esperava de nós.

Feliz Natal a todos.

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