Editoriais 2002

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Janeiro

Que tal falar de paz e fazer a paz. Assim, no dia-a-dia. Quem sabe engolindo as palavras duras e dizendo algo bom para variar. Não é necessário ser dissimulado, apenas cavocar lá dentro onde com certeza ficou algo doce. Que tal sorrir com gosto pelas coisas que a natureza nos dá! Veja árvore verde, flor nascida teimosa mesmo sem cuidados, o pássaro que cantou de manhã na nossa janela. Bem, é difícil, muitas vezes ser doce com as pessoas. Mas impossível é que não possamos lembrar de um rosto que nos leve a ternura, de um sorriso que não nos faça sorrir. Não haverá uma criança que nos encante?

Podemos ser não como Gandhi em sua grandeza de mensageiro da paz, mas podemos ser pequenos detentores da paz no cotidiano.

Fevereiro

Somos todos nós tradutores e transformadores deste mundo. Podemos fazê-lo com maior ou menor propriedade, mas certamente neste percurso surgirão sentimentos comuns a todos nós.

Este olhar que nos mostra o mundo caótico, desorganizado, devolve-nos um desconcerto outro senão aquele que Luís Vaz de Camões (que homenageamos este mês, como tendo nascido em quatro de fevereiro), genial poeta português, demonstrava em sua lírica ao escrever: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo mundo é composto de mudanças. Tomando sempre novas qualidades.”

O fato é que temos sido os mesmos desde tempos imemoriais e temos nos queixado de coisas similares e chorado, rido e vivido pelas mesmas coisas: o amor, a pátria, a ambição (que nada mais é do que uma forma de querer ser amado). Em nossa essência somos os mesmos, Estes maravilhosos seres, capazes das mais elevadas realizações, das mais abomináveis ações. Estes seres que vivem em perpétuo desconcerto no mundo, cujas possibilidades de tradução e de transformação são infinitas.

Março

Neste mês as mulheres estão sendo homenageadas. Escolhemos por capa Madre Teresa de Calcutá que é um exemplo de pessoa e de mulher. Muitas poderiam ter sido escolhidas e de igual monta. Mas, importante é falar das mulheres em geral. Por si só ser mulher é uma benção e um servir à humanidade. Homenageamos: àquelas que guardam em seus ventres os futuros seres; àquelas que os nutrem, cuidam, educam; àquelas que os mantém enquanto é tempo de manter e os libertam quando necessário, àquelas cujo lar é refúgio seguro para o reunir da família, àquelas que não se envergonham de serem mulheres e disso se orgulham; àquelas que não negaram sua parte masculina e que endurecem quando é preciso endurecer; àquelas que não querem mais tornar-se como homens nem a eles submeter-se. Às mulheres que em não tendo filhos por elas gerados, são mães daqueles que necessitam. Às mulheres que tomaram posse do feminino e são unas em si mesmas.

Transcrevemos abaixo parte de um texto do teólogo Paul Evdokimov, lançando um dramático apelo às mulheres cristãs:

“O homem belicoso e técnico desumaniza o mundo; a mulher orante humaniza-o como mãe que vela sobre toda forma humana assim como sobre o próprio filho..., Hoje, diante da tragédia do terceiro mundo, diante do materialismo vivido, da pornografia, dos tóxicos, diante de todos os elementos da decomposição demoníaca..., é a mulher que, após ter pronunciado o fiat com a virgem, é predestinada a dizer não, a deter o homem a beira do abismo, a mostrar-lhe sua verdadeira vocação”.

Abril

Ribeirão Preto recebeu um presente dos céus na figura do Xamã Siberiano Mukhomor. Poderia ter sido mais uma curiosidade esotérica destas que aparecem em tantos lugares, mas não foi! Todos que o viram e ouviram, os que foram tratados por ele perceberam que ali não estava um ser comum e sim um semeador do amor e da paz. Alguém que tem percorrido o mundo todo ajudando as pessoas a libertar-se de seus entraves ensinando-as a abrir seus corações para o semelhante, ensinando-as a trilhar o caminho da cura espiritual.

Ninguém que o tenha visto e ouvido esquecerá seu olhar doce de puro amor, seu sorriso de criança, seus ensinamentos de pura sabedoria.

Recebemos todos um presente dos céus através dele e das pessoas que vieram vê-lo e com ele tratar: cada um de nós, ali, um pedacinho da divindade a formar um quadro de rara beleza; cada um mal cabendo na emoção que só sentem aqueles que se deparam com o transcendente. Obrigados estamos a todos que caminharam conosco naqueles abençoados dias e com certeza continuarão caminhando por muitas jornadas e, aos que não estiveram conosco, mas propiciaram o evento. Obrigados às tradutoras Nádia e Vitória pela sensibilidade e desprendimento. Agradecimento à Câmara Municipal por tê-lo recebido, oportunidade essa possibilitada graças a nossa amiga Helena, assessora da Secretaria da Educação.

Namaste!

Maio

Na mitologia a Terra é representada sob vários nomes. É a mãe fecunda, fonte inesgotável de riquezas, adorada como deusa por vários povos. Segundo a lenda a terra nasceu imediatamente após o Caos. Ela desposou o Céu e foi a mãe dos deuses. O homem teria nascido dela embebida d’água e aquecida pelos raios de sol. Assim a natureza dos homens participa de todos os elementos e quando ele morre é a Terra que o acolhe em seu seio. As mulheres mães são a terra. Elas acolhem em seu ventre o ser novo que vai nascer. Ali eles são plantados e se bem tratados (há que alimentá-los de nutrientes e muito amor) brotarão fortes e poderão enfrentar as agruras do mundo externo. Mas não termina aqui a tarefa, há que tratá-los em sua infância, há que educá-los para o mundo, há que abrir mão deles. Mas as mães continuam terra. Firmes, acolhendo-os sempre, ouvindo-os sempre, orando para que sejam felizes e para que, se não puderem ser felizes, que lhes sejam amenizados os revezes.

Desejamos a todas as mães que elas continuem firmes na tarefa de serem continentes para aqueles que brotaram delas e para que continuem sendo terra.

Junho

Ribeirão Preto tem um sabor para a paulistana que escreve este editorial. Tem gosto de meninice e de juventude quando durante muitos anos vinha ela passar férias aqui. Sabe a família, o tronco familiar que é daqui. Olhos fechados ela recorda a Nove de Julho e seus casarões lindos. A casa da prima em frente à Recreativa, casa enorme com senzala no fundo. Recorda a limpeza das ruas, o passear por elas a pé, à noite, sem medo de violência. Recorda principalmente o céu maravilhoso e as estrelas de brilho incomparável. Um refúgio para São Paulo movimentada sem verde e sem céu. Recorda a cidade que a acolheu, a ela e a sua família há seis anos e a parabeniza pelo seu aniversário e por ser mesmo mudada pelos mesmos agentes que mudaram as outras cidades e o mundo, ter conservado a beleza do céu e o brilho das estrelas imbatíveis.

Será impressão minha ou serão os olhos da criança e da adolescente que aqui vinha a passeio: havia mais árvores, muitas árvores. Não se falava tanto de ecologia, acho que nem se falava de ecologia. Pois bem, quem sabe no dia da ecologia e no dia mundial do meio ambiente mais flores e mais árvores possam ser plantadas nos locais corretos. Falar menos e fazer mais.

E já que homenageamos também o Padre Anchieta, já que não podemos escrever um poema na areia, vamos escrevê-lo ao Planeta, a todos os continentes, a todos os países, a todas as cidades e a Ribeirão Preto em especial, pedindo como presente de aniversário paz e amor nos corações de seus habitantes.

Julho

Aterroriza-nos a morte do jornalista Tim Lopes. O assunto é explorado exaustivamente e o mundo em solidariedade dá-se conta do Brasil. Dá-se conta da classe jornalística que vem sofrendo atentados e que está ameaçada e amedrontada. Nada mais justo, nada mais lógico. Mas, quantos não perderam suas vidas vitimados pelas balas perdidas das favelas do Rio de Janeiro? Quantos não têm perdido entes queridos violenta e estupidamente? Quantos recebem pressão psicológica constante submetidos ao poder do tráfico, sem poder abrir a boca? Quantas intervenções foram feitas para descobrir o mandante de tais horrores? Quantas realmente efetivas para que se descubra de verdade as feras escondidas no morro? Achar o(s) assassinos de Tim Lopes é uma questão de honra. Mas não é uma questão de honra punir os assassinos de pessoas anônimas? Caçar os traficantes no morro e puni-los deveria ser ação de todo dia, acirrada, persistente. Caçar policiais corruptos, também. Caçar principalmente dentro de nós mesmos valores em favor da humanidade. Valerá mesmo em troca do vil metal compactuar com tanta sujeira e tanta desumanidade?

Agosto

Coisa boa ver nosso Brasil ganhar. Todo mundo ali, esperando, meio com medo de que novamente acontecesse alguma coisa confusa, esquisita como da outra vez: perder para pernas de pau no último momento por conta da indisposição de Ronaldinho! Como se um time não fosse a união de todos e de todos por um! Mas, ganhamos. Desta vez dava para sentir a união. Que lindo ver todos rezando juntos, agradecendo juntos. Pois é, somos pentacampeões! Azedados Maradonas, inchados e decadentes podem dizer o que quiserem. Vão ter mesmo é que corroer-se de inveja! A quinta estrela é nossa, digam o que disserem! E por falar em estrela, no dia em que ganhamos a nossa, o céu ganhou mais uma: Chico Xavier. Vamos sentir sua falta, mas não podemos dizer que o perdemos. Pessoas como Chico, espíritos como Chico não partem. Vão lá para cima, vão para outro lugar, sei lá para onde, mas certamente um lugar em que tenham se livrado do jugo das mazelas do corpo. E, imaginem! Se Chico foi o que foi, aqui nesta terra, sofrendo tudo o que sofreu, passando por tudo o que passou, imaginem só o Chico espírito, juntamente com espíritos puros como ele, Chico no céu sem ter que pedir licença, porque ganhou aqui entrada à custa de ser só amor. Ah! Perdemos a figura corporal do Chico, mas certamente ganhamos um mentor espiritual, figura de luz a velar por nós.

Setembro

Homenageamos Drummond. O Carlos, poeta inigualável. Lembramo-nos de inúmeros poemas dele e vem a nossa mente um que fala de uma flor que nasceu no asfalto. Uma flor que nasceu independentemente das agruras, das coisas feias. Ela em si, feia. Mas, nasceu. Teimosa. O poema em si parece pessimista, aliás, é avaliado como sendo da fase pessimista de Drummond, mas parece-nos trazer uma mensagem de que é possível mesmo em face das coisas não boas, não tão boas, o nascimento de flores, flores que rompem o desagradável, flores que irrompem no asfalto e que gritam sua natureza de flores, para que a primavera possa chegar cheia de mudanças, mesmo onde pareça difícil o aparecimento das flores.

Outubro

Estaremos comemorando no mês de outubro o Dia das Crianças. Ë um bonito título, mas estarão elas sendo homenageadas? É certo que é muito bom ganhar presentes, para os que podem ganhá-lo! Melhor ainda é para o comércio! Bem, não se trata de fazer propaganda contra as datas e contra os que ganham dinheiro com elas. Mas há algumas reflexões a fazer. Será que no decorrer dos meses que antecederam o Dia das Crianças, nós lhes demos atenção? Será que obliterados por nossos inúmeros afazeres não esquecemos delas? Quantas vezes rolamos com elas pelo chão? Quantas vezes reparamos no progresso diário de cada uma delas? Quer espetáculo mais comovente que os primeiros falares? E o que não dizer dos titubeantes andares? Quantas vezes brincando com elas resgatamos nossa própria criança e nos lembramos de que já fomos crianças? Quantas vezes gargalhamos com elas? Quer coisa mais deliciosa do que gargalhada de criança? Tem sonoridade borbulhante e flui sem encontrar nenhum obstáculo! Então vamos lá. Vamos comprar presentes, sim. Mas a partir de hoje vamos encontrar um tempo para brincar com nossas crianças e para brincar também com nossa criança interna. Este será um presente eterno! Para nós e para elas.

Novembro

Não estamos preparados para perder, principalmente neste nosso glorioso Ocidente cuja tônica é absolutamente hedonista. Se não sinto prazer, logo não existo. Meu corpo não é templo de minha alma ou da chama inextinguível a que nem mesmo sei denominar, mas centro de minhas sensações, objeto de desejo. Assim, a morte física, representando a extinção deste corpo há de ser duplamente temida. Não se trata de temer o desconhecido, mas de temer o desaparecimento desta nossa perecível carne. Assim é que homenageamos os mortos em dois de novembro e, vamos correndo ao cemitério e, choramos - alguns seriamente compungidos - mas não paramos para pensar que somos seres fadados a perecer, a partir do momento que despontamos neste “vale de lágrimas”. Não paramos para pensar que estamos sofrendo perdas todos os dias, perdemos vitalidade, nossas células envelhecem, nosso corpo envelhece e caminhamos todos para a transformação final que é a morte física. Talvez seja o caso de cultuar o corpo, sim, mas de buscar novas formas de sentir prazer, quem sabe através do buscar um novo sentido para a vida e para a morte!

Dezembro

Nós, aqui, nascidos neste mundo, naturalmente aqui não estamos sem nenhum motivo. Há que haver para cada um de nós uma tarefa a realizar, uma missão a cumprir. Ninguém viveu mais plenamente esta tarefa, esta missão que Jesus Cristo já que lhe coube a responsabilidade de nada mais nada menos que salvar a humanidade. Nós, também, somos responsáveis de certa forma pela nossa salvação e conseqüentemente pela do outro. É que não estamos sozinhos, ao contrário do que pensam os mais individualistas, e assim toda ação nossa provoca uma reação dos que nos cercam. Parece que nos esquecemos disso. Basta olhar um pouco a violência do dia-a-dia, que deixou de ser motivada pela fome, pela carência de coisas básicas, pelo desespero e passou a ser motivada pelo nada. Violência sem razão, sem motivo. Sem o mínimo de emoção tira-se a vida de um ser humano, de um familiar a troco de nada. Sem o mínimo sentido essas pessoas transformam-se em heróis televisivos. Exaustivamente são exibidos a instaurar certamente em mentes tão doentias quanto as deles as mesmas idéias. Clarice Lispector escreveu em uma de suas crônicas que cada ser humano recebe a anunciação e que grávido de alma leva a mão à garganta em susto e angústia, como se houvesse para cada um em algum momento a certeza de ter uma missão a cumprir, missão esta que não é leve porque cada um de nós é responsável pelo mundo inteiro. Está faltando nas pessoas esta noção de responsabilidade pelo que as cerca. Não seria bom um pouco de amor senão pelo criador pelo menos pela criação da qual fazemos parte? Um Natal sem violência, imbuído pela presença de Jesus é o que desejamos a todos.

Se o Espírito Santo de Deus te seduzir,

A vida da Criança Eterna há de nascer de ti.

Se fores como Maria, tão virginal e pura,

A impregnação de tua alma por Deus é segura.

Deus me impregnou; seu Espírito a mim me cobre,

Que Ele em minh’alma se eleve e minhas defesas dobre.

O “Deus te salve” de Gabriel não traz nenhum bem,

A não ser que essa saudação seja dita a mim também.

Angelus Silesius (Citado em Jung, Mysterium Coniunctionis)

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