Liszt e o romantismo de todos os tempos

PDFImprimirE-mail

Ao longo deste ano temos assistido a concertos e lido publicações que nos remetem à vida e obra do compositor Liszt, de quem se comemora o segundo centenário de nascimento. Tais homenagens se justificam por muitas razões, muito além de sua fama de “pianista virtuose”.

Acompanhe um pouco da história de Liszt. E opine sobre o espírito do romantismo que o animou,  à moda daquele século XIX, mas que, às vezes, é também presente em nós neste século XXI.


O homem, a obra


“A música é a respiração para a minha alma; ela se torna, ao mesmo tempo, o meu trabalho e a minha oração.”(*)

 

Liszt nasceu no dia 22,  na Hungria (1811-1886) e foi pianista, compositor, maestro, crítico, amante das mulheres e abade na última parte de sua vida. Foi uma pessoa especial merecendo uma compreensão adequada do adjetivo romântico para qualificá-lo. Qualquer simplificação talvez elimine a maior parte da beleza de sua imagem.

Sempre exerceu grande sedução sobre as mulheres e viveu alguns amores que duraram, e muitos outros que só passaram. Entre os primeiros, temos a condessa Marie D´Agoult com quem passou quase uma década e também a princesa russa Carolyne com quem nunca conseguiu casar por não ter obtido o consentimento do Vaticano. Olhos claros e cabeleira longa ajudaram a compor o retrato de um homem apaixonado que dava rosas vermelhas às mulheres da primeira fila de seus concertos.

Foi precoce e desde muito criança pôde estudar e se apresentar em situações privilegiadas. Liszt compôs uma obra de cerca de 1400 peças de vários gêneros musicais e criou o recital de piano moderno e o gênero poema sinfônico, fato que abriu espaço para histórias de cunho dramático por influência da ópera de então. Diferentemente de Chopin, a quem não agradava o público, ele chegava a dar cerca de oitenta a cem concertos por ano, por toda a Europa.

Para além da fama de “diabólico virtuose do piano” que o acompanha com justa causa, ele também inovou critérios musicais de sua época. Compreender como ele realizou tais mudanças talvez seja difícil para nossos ouvidos leigos. Precisaríamos conhecer muito da composição musical do período clássico que o antecedeu e identificar em que aspectos ele rompeu com esse mundo, contribuindo para o que já se instaurava em sua época com o parâmetro romântico: outras harmonias e maneiras de elaborar as tonalidades. E, mesmo assim, parece-nos que Liszt vai ainda mais longe, de acordo com o que Gilberto Mendes expressa em uma crônica em jornal da grande mídia: Às vezes, temos Um sonho de amor de delicadeza romântica, outras vezes, a “beleza algo sinistra” da Sonata em si menor. Parece que há, portanto, mais a conhecer de sua obra além d`Os Estudos transcendentais e das Rapsódias húngaras composições suas entre as mais conhecidas.

Esta figura encantadora, pianista genial e compositor central no romantismo, foi um homem do mundo, com uma personalidade cheia de força para juntar pessoas em volta de si. Dava aulas gratuitamente. Impulsionou carreiras de amigos e se dividiu entre desejos materiais e espirituais. Permaneceu por toda sua vida entre os apelos da corte e os chamados de sua vocação religiosa, um lado místico que o acompanhou até que tomou as ordens menores. Tal movimento pendular está marcado em aspectos astrológicos entre uma identidade libriana sedutora e uma natureza reflexiva e religiosa, aspecto sagitariano com toque saturnino de introversão.

Mas, é a música o ponto nervoso de sua vida, sua vocação maior. A frase que serve de pórtico a este texto inicia por outras frases, citadas em seguida, indicando uma dependência quase doentia da atividade musical em seu cotidiano: “Foi absolutamente impossível escrever qualquer coisa durante esta última viagem – e eu realmente preciso escrever música para manter meu equilíbrio. Quando passo vários dias sem papel de música, sinto-me como se tivesse secado. Meu cérebro torna-se congestionado e sou incapaz de ter prazer com as coisas à minha volta. Isso é algo que venho notando freqüentemente; é um tipo de doença que aumentou com os anos.”

De outra vez, a música ainda mostra outra função em sua vida: “Minha única ambição como músico era e será lançar meu dardo nos espaços indefinidos do futuro desde que ele não caia de novo na terra, o resto não importa”.

Trata-se de uma confissão de fé, de uma tarefa que carrega uma promessa de revolução, com valor individual e coletivo. É também sinal de um idealismo sagitariano, algo visionário. Originalidade e dardo futurista, segundo João Marcos Coelho, jornalista e crítico musical. Um compromisso a moda do romantismo do séc XIX. Quem sabe do XX e do XXI também?

Ele fez da música uma meta definida de vida. A música como trabalho e oração, como um dardo a indicar um caminho. Fez assim sua revolução pessoal a partir de ideais que alimentaram não somente uma expressão estética por necessidade individual. Sua revolução foi desenvolvida de forma ampla, pensando num tempo futuro e num espaço maior, atingindo um sentido coletivo.

São esses os limites de uma revolução romântica. Assim ele fez a sua revolução. Parece que desde o começo deste ano, temos assistido a revoluções de acentuado teor romântico.

Cada um de nós pode fazer a sua.

 

(*) Liszt em carta a Carolyne Von–Wittgenstein, citado por Adrian Williams em Portrait of Liszt (Oxford,

Clarendon Press, 1990).

Astróloga

www.agonzalez.com.br

Banner
Banner
Banner
Banner