Purgatório

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Se para a crítica argentina Ana Amado(1) O Pântano (La Ciénaga, 2001), primeiro longa de Lucrecia Martel, era pautado pela filosofia de Simone Weil de A Gravidade e a Graça, no filme seguinte a diretora parece ensaiar o movimento parecido mas inverso. Em A Menina Santa (La Niña Santa, 2004), ao invés da força que imanta os corpos contra o chão, temos a ascese enquanto projeto dos personagens, seja por vocação religiosa, seja pela sublimação do desejo.

Num hotel, homens e mulheres se reúnem: elas são as responsáveis pelo estabelecimento e estão acompanhadas de suas filhas adolescentes. Eles estão hospedados no hotel por razão de um congresso de medicina. Ainda que as filhas do grupo feminino pretendam uma vocação religiosa, pesa o fato de serem adolescentes, contribuindo para que algumas investigações teológicas sejam realizadas à luz do sexo. Por outro lado, entre os congressistas há aqueles que arriscam a própria vocação pelo desejo de se envolver com algumas das adolescentes.

Ainda que o relacionamento entre homens mais velhos e quase garotas seja insinuado pelo filme, ele nunca aparece de corpo inteiro. O tema surge fora de quadro, em notícias que pairam no hotel, mas sobretudo no assédio que o médico comete contra uma das garotas aspirante a religiosa. Esse assédio, porém, não encontra maiores consequências físicas para ambos, mas prevalece a carga de culpa. Antes de impor um drama físico, o filme nos conduz a um drama menos material, mais psicológico: a culpa por esse pequeno pecado e a idéia, não sem conflito, de que para não se perder é preciso sublimar o desejo.

Há no filme um desejo de desmaterialização que “imanta” os personagens, como se fosse possível desligar-se do próprio corpo. Nesse sentido é exemplar a música que soa de um instrumento sem corpo, o thereminvox. Os personagens dão mostras dessa vontade, mas penso que a desmaterialização se efetua principalmente no espaço. A narrativa do núcleo proto-familiar (mulher, filha e médico que a assedia ) se concentra em um só lugar, o qual, curiosamente, é apresentado sem precisões geográficas. Não vemos a frente do hotel, não sabemos localizá-lo na rua – sabemos apenas que ele está em algum lugar na mesma rua onde se dá o assédio. O espaço não parece localizável e, da mesma forma, é fácil se perder por ele, sem saber ao certo de que lado estamos, o que é em cima e o que é em baixo, de onde vêm os sons. Por sinal, é notável o trabalho de som no filme, permitindo a construção de eventos variados através de um recurso que se propaga pelo ar.

A única maneira vislumbrada pelo filme de conciliar essa duas marcas contrárias, desejo e sublimação, é deixar os personagens em suspense, quer dizer: seus corpos (por demais concretos) e seus trajetos em suspense. Como síntese, o fim do filme estabelece as duas adolescentes religiosas com seus corpos flutuando na piscina, o que é feito não com esforço mas com graça. A resolução do assédio, que aguardamos ao longo do filme, deverá ser estendida, permanecendo ela também em suspenso. Por fim, creio que o suspense enquanto gênero dá colorido a certos momentos do filme; se em O Pântano havia suspense, em A Menina Santa ele se repete à beira da estrada, na morte próxima vinda de um caminhão que não se vê chegar.

Se o pântano é pegajoso e prende os banhistas em sua consistência espessa, dessa vez a metáfora da piscina permite aos personagens desprender-se dessa condição, ainda que provisoriamente.

(1) AMADO, Ana. “Cine argentino, cuando todo es márgen”, in: El Ojo que Piensa, n. 00. Endereço da Internet:

http://www.elojoquepiensa.udg.mx/espanol/numero00/veryana/06_cineargentino.html

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